A Segunda Guerra Mundial envolveu todo o planeta em atividades bélicas. Os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) lutavam contra os Aliados (Inglaterra, França, Estados Unidos, União Soviética, o restante da Europa, Ásia, Norte da África, etc.).
O etcetera aí incluía o Brasil e, por conseqüência, lá no finzinho desse etcetera, Tatuí. A encrenca aumentou a ponto do Brasil entrar na briga e até uns heróicos tatuianos foram combater alemães em território italiano. Ah, mexeram até com o pessoal de Tatuí!!
A vida durante o período de guerra não poderia continuar com antes, porque alguns produtos foram racionados, como derivados de petróleo, álcool, açúcar, dentre outros. Tudo era precário. Os automóveis precisaram encontrar um substituto para a gasolina, escassa, sendo então necessário adaptar os carros para funcionar com o gasogênio, um aparelho que produz gás a partir da queima de carvão.
O tal equipamento que produzia o gás (gasogênio) consistia em um apêndice horroroso que ficava na trazeira dos carros, que além de deixar visualmente feio, sujava todo mundo com o carvão que consumia...
Quanto ao álcool, Getulio forçou seu racionamento confiscando 70% da produção, em seu afã de mostrar a modernidade brasileira, tentou uma espécie de “lei seca” e não teve sucesso e, então impôs regras não tanto para proibir, mas para diminuir o consumo. Com isto, o açúcar, derivado da cana-de-açúcar também foi racionado. Aqui entra o caso lembrado pelo meu amigo Dr. Cesar Camargo, filho de um dos protagonistas...
A maioria das pessoas acompanhava as notícias da guerra pela mídia da época, o rádio, sendo que um dos programas de destaque na rádio era chamado “A história em ação”, transmitido pela Rádio São Paulo nas noites de domingo. Outro programa, “A marcha da guerra”, tinha participação de diversas autoridades que comentavam o desenrolar do conflito. Este era transmitido de segunda a sexta-feira à noite pelas rádios Cruzeiro do Sul, Difusora e Tupi.
Além destes, havia a Voz do Brasil, um programa criado para o ditador Vargas doutrinar a população. Apesar de tudo que já mudou no país, este programa tem sobrevivido até hoje... talvez para manter alguns empregos, pois audiência é algo próximo de ZERO!
A Voz do Brasil era retransmitida por todas as emissoras de rádio e, sendo assim, era ouvida por todos. Não tinha alternativa.
De seu noticiário surgiam a noticias “oficiais”, com os números e fatos devidamente “depurados” pelo governo. Mas, mesmo assim, tinha credibilidade.
Em Tatuí, como no restante do país, o açúcar estava rigorosamente controlado devido ao racionamento. Era racionado, mas na calada da noite sempre apareciam caminhões a suprir os armazéns tatuianos. Só o preço tinha alteração, estava no “câmbio negro”, mas no aspecto “quantidade” continuava à vontade.
O armazém do Zé Sallum, como todos os outros, tinha lá seu estoque lotado de açúcar. Só que os outros comerciantes não tinham, como filhos, o Farid, Oscar, Félix...
Pois bem, certo dia, resolveram pregar uma peça no pai. Na parte superior do Cine São Martinho havia o serviço de músicas da Praça da Matriz, sob o comando do Ozório Camargo (Ozório Pinga, apesar de que nunca o vi tomando um golinho).
Farid fez seus planos com o Ozório e montaram um dispositivo no rádio do Zé Sallum. Na hora da Voz do Brasil, sempre eram divulgados os nomes de pessoas presas sob acusações diversas ligadas à segurança nacional. O racionamento do açúcar era considerado assunto de segurança nacional.
Quando o Zé Sallum foi escutar o rádio, tocou lá o Guarani, começaram as notícias e, em determinado momento, o Ozório ligou seu dispositivo e começou a falar, dando a impressão que era parte do próprio programa governamental...
O Ozório começou a narrar fatos da guerra (ele era um locutor experiente) a partir do quarto do Farid, onde estava montado o microfone e outros apetrechos. Zé Sallum ouvia tudo com atenção.
De repente, Ozório começou a falar de pessoas que haviam sido presas com estoque de açúcar. Mário de Tal, em São Paulo foi preso com sacas de açúcar contrabandeado... Em Piracicaba, Pedro de Tal e em Itapetininga, José Maria preso pelo mesmo motivo.
Daí o “locutor” avisou que em Tatuí, um grande comerciante chamado José Sallum iria ser preso nas primeiras horas da manhã seguinte porque tinha um enorme estoque de açúcar em seu armazém.
Aiaiaiaiai! Pânico Total!O Zé Sallum esclamou seu bordão: Epa, c'os diabos! e correu tomar suas providências: passou a noite toda esvaziando seu armazém, inclusive dando sacos de açúcar pelas ruas da cidade, enquanto Farid, Oscar e Ozório tomavam cerveja no Bar do Toco às gargalhadas!!! E o armazém? Ficou sem açúcar...
"Guerra, Doce Guerra"! Assim a guerra foi encarada pela população tatuiana... com tanto açúcar só poderia ter sido encarada docemente e... com humor, muito humor.
Alguns tatuianos, no entanto, foram lutar na Itália e um deles, o Juquita, não voltou, entregando sua vida pela liberdade que desfrutamos hoje.
Alguns tatuianos participaram de aventuras que se tornaram célebres na cidade. Pretende-se juntar aqui os acontecimentos mais comentados para que não sejam esquecidos. Esta primeira fase das "aventuras tatuianas" contempla os casos mais antigos, a maioria deles com 30, 40, 50 ou mais anos. Esta é a história não-oficial de Tatuí!
quarta-feira, março 22, 2006
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