Quando escrevi o caso da prótese ocular, lembrei-me da mansão dos Salles Gomes, ali na Praça Paulo Setúbal, na época em que lá residia o Pingo (Carlos Eduardo Vieira de Morais). A gente brincava no quintal da casa, que ocupava o quarteirão todo. Frutas de todo tipo. Era um lugar onde moleques tinham muitas coisas para fazer sem ter que sair na rua. Hoje é a casa do Birdinho.
Na época em que morava lá, seu Rubens, pai do Pingo, negociava automóveis de luxo. Os carrões que apareciam por lá eram todos estupendos.
Mas havia um especial: o Chevrolet Impala! O carro que fazia mais sucesso nesses anos. Lembro-me de um branco, ano 1964, conversível, uma verdadeira maravilha sobre rodas. Um sábado à noite o Pingo deu um jeito de tirar o carro sorrateiramente de sua casa e saímos dar umas bandas... Nós, nesse tempo, éramos todos menores de idade... 14, 15 ou 16 anos!!!
Mas aquele carrão era muito para as ruas tatuianas, que então não tinham pavimentação em sua maioria. Além disso, a cidade começava na Rua São Bento e acabava ali na rua Cel. Guilherme. De outro lado, iniciava na Avenida das Mangueiras e findava no Marapé. A cidade era muito menor.
Como o carro pedia asfalto, fomos, nessa noite, até Capela do Alto, viagem que o Pingo aproveitou para acelerar... acelerar... acelerar... A estrada era nova, o asfalto lisinho, dava gosto andar nela.
Em Capela do Alto passamos rapidamente pelo centro, onde estavam as pessoas. Para esnobar, no momento em que passávamos na praça da cidade, o Pingo apertou o botão que baixava a capota conversível. O carro lotado de moleques: Pingo, eu, Tadeu, Fred Lorenzetti... viramos na primeira esquina e passamos novamente na pracinha, desta vez o Pingo havia apertado o botão para recolher a capota...
Os caipiras de Tatuí tentando impressionar os pessoal de Capela!!! E vai e volta, e ergue a capota e baixa a capota... Seja como for, parou tudo em Capela do Alto para ver o Impala conversível.
A intenção era chamar a atenção das meninas, mas o que aconteceu, de verdade, foi que os caras ficaram queimados com a gente e estavam já se organizando para dar uma surra em nós. Por nossa sorte um pouco antes disso o Pingo resolveu vir embora e, na estrada, ninguém alcançava um Impala. Disto, que as pessoas estavam tentando bater na gente soubemos uns dois ou três anos depois, quando um desses capelenses veio estudar em Tatuí e foi meu colega. Ele quem contou, quando comentei a respeito de nossa viagem de conversível.
Não sei como é hoje, mas há 30 ou 40 anos, eram comuns essas rixas entre cidades. Dá para citar, por exemplo, a relação entre Tatuí e Itapetininga: tatuianos não podiam ir a Itapetininga que logo apanhavam do pessoal. Da mesma forma, os itapetininganos não podiam vir a Tatuí sem apanhar. Conta-se de uma vez que o Zé Turco, o Munir, o Turcão do Bar 80 e mais dois amigos foram até Itapetininga em um Gordini. Nesse carro mal cabiam 5 pessoas um tanto apertadas (ainda mais uns passageiros do tamanho destes). Mas eles apanharam tanto por lá que só couberam 4 pessoas para voltar!
Escapamos por pouco de apanhar em Capela do Alto. Mas imagine só, isto é caipirismo ao extremo... ergue capota, baixa capota, ergue capota, baixa capota!!!! Acho que algo assim merecia mesmo uma surra! Que coisa!
Alguns tatuianos participaram de aventuras que se tornaram célebres na cidade. Pretende-se juntar aqui os acontecimentos mais comentados para que não sejam esquecidos. Esta primeira fase das "aventuras tatuianas" contempla os casos mais antigos, a maioria deles com 30, 40, 50 ou mais anos. Esta é a história não-oficial de Tatuí!
sexta-feira, março 24, 2006
O caso macabro
Este caso macabro e escabroso foi contado pelo Zezinho Malaquias, que ouviu do Darci Quinteiro. Vamos lá:
A subida do Morro Grande era muito mais íngreme que hoje. Há alguns anos foi rebaixada um pouco, aumentando em comprimento, mas reduzindo seu ângulo. Esse acesso foi chamado de Morro Grande Velho, depois que foi rasgada a “estrada de Porangaba”, atualmente denominada de Avenida Pompeu Reali.
A subida do Morro Grande Velho era terrível. Mas tinha sua serventia extra, mesmo depois da nova estrada de Porangaba, que desviava do tope, subindo mais devagar. Não havia negócio de mulas ou cavalos em Tatuí sem que o animal fosse experimentado nessa subida:
- Pode exprimentá! O animar sobe o Morro Grande co arreio compreto! – diziam os negociantes de eqüinos e muares.
Como via de acesso a subida do Morro Grande Velho havia sido substituída pela atual Avenida Pompeu Reali, mas ainda residiam algumas famílias nessa região. Atualmente há até mesmo condomínio para a classe média.
Este caso que conto aqui ocorreu há mais de trinta anos, ocasião em que o Darci Quinteiro tinha um bar logo no início da Rua Capitão Lisboa. O acesso pela avenida já era todo asfaltado, mas a velha subida do morro continuava do mesmo jeito... uma lama terrível, visto que ali o barro é grudento, terra piçarra ótima para olarias e péssima para o trânsito de veículos.
Um dia faleceu um morador do alto do morro, quase lá no bairro da Guardinha. Estava desenganado, passou mal desde a noite e faleceu pouco antes do meio-dia... Como os recursos eram poucos, o cunhado do morto desceu na cidade para avisar a funerária e acertar a arrumação do defunto em sua última viagem.
Resolveu parar no bar do Darci Quinteiro para limpar os sapatos do barro do morro, antes de prosseguir em sua caminhada.
Entrando no bar, contou ao Darci o que havia acontecido, que seu cunhado faleceu e que estava indo acertar a funerária e alguém para limpar e arrumar o defunto. Uns fregueses que lá estavam ficaram condoídos com o homem. Sabendo de sua triste situação, ofereceram uma bebida para que este pudesse continuar com um pouco mais de ânimo.
Claro que ele aceitou aquela oferta! Era justamente o que mais precisava naquele momento, um pouco de álcool para reduzir suas preocupações.
Enquanto tomava a bebida, chegaram mais alguns freqüentadores que, sabendo da história do falecimento do tal sujeito, ofereceram mais uns tragos. Queriam amenizar a infelicidade do cunhado do defunto.
Entra freguês e sai freguês e cada um pagava uma bebida... qualquer coisa que ele desejasse... daí ele percebeu que essa história de defunto estava lhe rendendo bebida de graça.
Em pouco tempo, foi juntando gente no bar. Chegaram alguns chapas que tinham acabado de receber por uma descarga ali na Indústria Marapé. Acharam que até conheciam o defunto, não tinham certeza, mas isso não importava. Aqueles homens, com dinheiro no bolso e um motivo para beber, passaram a tomar todas... o pobre homem, que nem precisava mais fazer cara de dó, pois já estava de dar dó, não parava de tomar... Brahma, Antarctica, quebra-gelo, Brahma, Antarctica, tira gosto... já tinha esquecido o que deveria fazer... estava “miando”...
Com essas tristes homenagens ao defunto, as horas foram passando. Ele que tinha saído pouco depois do meio-dia, não percebia que a tarde estava no fim. Não estava com fome, porque havia saboreado uns tira-gostos... mortadela... queijo provolone com óleo de oliva... coxinhas... almôndegas... tudo acompanhado de molho de pimenta e muita bebida.
Quando caiu em si percebeu que já era quase noite:
- Ai, eu preciso buscar alguém para limpar o defunto!!! – exclamou.
Os outros fregueses já estavam a “mil por hora”, mas um deles falou:
- Fica sussegado que nóis vai lavá o defunto pra você!
Isto deixou o homem tranqüilo, que aceitou mais uma cerveja oferecida por outro freqüentador do bar. Um pouco mais de tempo e o Darci avisou que ia fechar o bar. Assim, saiu o homem acompanhado de mais quatro “paus d’água” e dirigiram-se para o morro.
Certamente que a tarefa a ser realizada não era coisa para todos. A maioria das pessoas não se sentem confortáveis em lidar com defuntos. Sabedores disto, tiveram o cuidado de levar umas garrafas de cachaça para dar ânimo durante a limpeza do morto.
Chegaram os cinco depois de muita dificuldade para subir o morro. Pudera, estava tudo escuro e, para completar, bebiam há horas! A viúva estava desesperada. Não era para menos, seu irmão saiu muitas horas atrás para buscar ajuda para enterrar seu esposo e só agora retornou. Resta lembrar que, nessa época, eram raras as residências nesse bairro. Uma isolada da outra. A viúva não saiu de casa para não deixar o defunto sozinho, esperando, de um momento para outro, a chegada da funerária. Isto não aconteceu.
Vieram apenas os pinguços que passaram a tarde bebendo em homenagem ao falecido. Na casa, de pau-e-barro, só tinha um pequeno lampião a querosene. A escuridão era quase total. Mas resolveram assim mesmo lavar o defunto para ajeitar em sua roupa, para a viagem final.
Para realizar aquela tarefa desagradável, continuaram a beber enquanto ensaboavam o defunto.
Encheram de água uma bacia e, com bastante dificuldade, carregaram o morto. Estava já enrijecido... colocaram seu corpo sobre a bacia. Não conseguiam dobrar o corpo para colocar as nádegas na água.
- É só forçar um pouco que dobra! – disse um deles.
E assim fizeram. Forçaram para que o corpo do defunto mergulhasse na água, para que fosse possível lavar adequadamente as suas partes íntimas. Mas ao forçar o morto, alguns gases foram expelidos, por todos seus orifícios. O processo de decomposição já estava em andamento.
Na limpeza, enquanto um deles jogava água com uma caneca, outro esfregava o sabão no defunto. A luz não clareava direito.
De repente, o pinguço que ensaboava deixou cair o sabão na água. Como estava quase totalmente escuro, enfiou a mão na água e, tateando, encontrou algo quee pegou para continuar a esfregar.
Esfrega aqui e esfrega ali e o morto começou a cheirar mal. Muito mal.
- Ainda bem que nós viemos lavar o amigo. Ele já está fedendo muito! – disse um dos prestimosos limpadores de defunto.
Só que o cheiro não saía, pelo contrário, aumentava cada vez mais. Aquele que ensaboava o defunto foi cheirar sua própria mão, pois não agüentava mais o fedor.
- Ai! Cadê o sabão? – exclamou surpreso - Meu Deus! O que foi que aconteceu? Parece que virou merda!
E realmente o que estava em sua mão não era nenhum sabão. Era um cocô do defunto... Quando dobraram o corpo do morto sobre a bacia, foram expelidos gases e um pouco de fezes. É coisa normal em defuntos que, mesmo algum tempo depois de mortos, ainda possam expelir fezes.
Aconteceu que nesse momento em que o fizeram dobrar, o defunto obrou. Quando caiu o sabonete, o pau d’água que pegou a coisa dentro da bacia não conseguiu identificar direito e pegou um cocô do defunto...
Estavam espalhando merda no defunto. A limpeza estava dando resultados opostos. Em vez de limpar, sujaram o morto. Ficou tão sujo como se tivesse caído em uma fossa negra. Arre, que situação!!!
A subida do Morro Grande era muito mais íngreme que hoje. Há alguns anos foi rebaixada um pouco, aumentando em comprimento, mas reduzindo seu ângulo. Esse acesso foi chamado de Morro Grande Velho, depois que foi rasgada a “estrada de Porangaba”, atualmente denominada de Avenida Pompeu Reali.
A subida do Morro Grande Velho era terrível. Mas tinha sua serventia extra, mesmo depois da nova estrada de Porangaba, que desviava do tope, subindo mais devagar. Não havia negócio de mulas ou cavalos em Tatuí sem que o animal fosse experimentado nessa subida:
- Pode exprimentá! O animar sobe o Morro Grande co arreio compreto! – diziam os negociantes de eqüinos e muares.
Como via de acesso a subida do Morro Grande Velho havia sido substituída pela atual Avenida Pompeu Reali, mas ainda residiam algumas famílias nessa região. Atualmente há até mesmo condomínio para a classe média.
Este caso que conto aqui ocorreu há mais de trinta anos, ocasião em que o Darci Quinteiro tinha um bar logo no início da Rua Capitão Lisboa. O acesso pela avenida já era todo asfaltado, mas a velha subida do morro continuava do mesmo jeito... uma lama terrível, visto que ali o barro é grudento, terra piçarra ótima para olarias e péssima para o trânsito de veículos.
Um dia faleceu um morador do alto do morro, quase lá no bairro da Guardinha. Estava desenganado, passou mal desde a noite e faleceu pouco antes do meio-dia... Como os recursos eram poucos, o cunhado do morto desceu na cidade para avisar a funerária e acertar a arrumação do defunto em sua última viagem.
Resolveu parar no bar do Darci Quinteiro para limpar os sapatos do barro do morro, antes de prosseguir em sua caminhada.
Entrando no bar, contou ao Darci o que havia acontecido, que seu cunhado faleceu e que estava indo acertar a funerária e alguém para limpar e arrumar o defunto. Uns fregueses que lá estavam ficaram condoídos com o homem. Sabendo de sua triste situação, ofereceram uma bebida para que este pudesse continuar com um pouco mais de ânimo.
Claro que ele aceitou aquela oferta! Era justamente o que mais precisava naquele momento, um pouco de álcool para reduzir suas preocupações.
Enquanto tomava a bebida, chegaram mais alguns freqüentadores que, sabendo da história do falecimento do tal sujeito, ofereceram mais uns tragos. Queriam amenizar a infelicidade do cunhado do defunto.
Entra freguês e sai freguês e cada um pagava uma bebida... qualquer coisa que ele desejasse... daí ele percebeu que essa história de defunto estava lhe rendendo bebida de graça.
Em pouco tempo, foi juntando gente no bar. Chegaram alguns chapas que tinham acabado de receber por uma descarga ali na Indústria Marapé. Acharam que até conheciam o defunto, não tinham certeza, mas isso não importava. Aqueles homens, com dinheiro no bolso e um motivo para beber, passaram a tomar todas... o pobre homem, que nem precisava mais fazer cara de dó, pois já estava de dar dó, não parava de tomar... Brahma, Antarctica, quebra-gelo, Brahma, Antarctica, tira gosto... já tinha esquecido o que deveria fazer... estava “miando”...
Com essas tristes homenagens ao defunto, as horas foram passando. Ele que tinha saído pouco depois do meio-dia, não percebia que a tarde estava no fim. Não estava com fome, porque havia saboreado uns tira-gostos... mortadela... queijo provolone com óleo de oliva... coxinhas... almôndegas... tudo acompanhado de molho de pimenta e muita bebida.
Quando caiu em si percebeu que já era quase noite:
- Ai, eu preciso buscar alguém para limpar o defunto!!! – exclamou.
Os outros fregueses já estavam a “mil por hora”, mas um deles falou:
- Fica sussegado que nóis vai lavá o defunto pra você!
Isto deixou o homem tranqüilo, que aceitou mais uma cerveja oferecida por outro freqüentador do bar. Um pouco mais de tempo e o Darci avisou que ia fechar o bar. Assim, saiu o homem acompanhado de mais quatro “paus d’água” e dirigiram-se para o morro.
Certamente que a tarefa a ser realizada não era coisa para todos. A maioria das pessoas não se sentem confortáveis em lidar com defuntos. Sabedores disto, tiveram o cuidado de levar umas garrafas de cachaça para dar ânimo durante a limpeza do morto.
Chegaram os cinco depois de muita dificuldade para subir o morro. Pudera, estava tudo escuro e, para completar, bebiam há horas! A viúva estava desesperada. Não era para menos, seu irmão saiu muitas horas atrás para buscar ajuda para enterrar seu esposo e só agora retornou. Resta lembrar que, nessa época, eram raras as residências nesse bairro. Uma isolada da outra. A viúva não saiu de casa para não deixar o defunto sozinho, esperando, de um momento para outro, a chegada da funerária. Isto não aconteceu.
Vieram apenas os pinguços que passaram a tarde bebendo em homenagem ao falecido. Na casa, de pau-e-barro, só tinha um pequeno lampião a querosene. A escuridão era quase total. Mas resolveram assim mesmo lavar o defunto para ajeitar em sua roupa, para a viagem final.
Para realizar aquela tarefa desagradável, continuaram a beber enquanto ensaboavam o defunto.
Encheram de água uma bacia e, com bastante dificuldade, carregaram o morto. Estava já enrijecido... colocaram seu corpo sobre a bacia. Não conseguiam dobrar o corpo para colocar as nádegas na água.
- É só forçar um pouco que dobra! – disse um deles.
E assim fizeram. Forçaram para que o corpo do defunto mergulhasse na água, para que fosse possível lavar adequadamente as suas partes íntimas. Mas ao forçar o morto, alguns gases foram expelidos, por todos seus orifícios. O processo de decomposição já estava em andamento.
Na limpeza, enquanto um deles jogava água com uma caneca, outro esfregava o sabão no defunto. A luz não clareava direito.
De repente, o pinguço que ensaboava deixou cair o sabão na água. Como estava quase totalmente escuro, enfiou a mão na água e, tateando, encontrou algo quee pegou para continuar a esfregar.
Esfrega aqui e esfrega ali e o morto começou a cheirar mal. Muito mal.
- Ainda bem que nós viemos lavar o amigo. Ele já está fedendo muito! – disse um dos prestimosos limpadores de defunto.
Só que o cheiro não saía, pelo contrário, aumentava cada vez mais. Aquele que ensaboava o defunto foi cheirar sua própria mão, pois não agüentava mais o fedor.
- Ai! Cadê o sabão? – exclamou surpreso - Meu Deus! O que foi que aconteceu? Parece que virou merda!
E realmente o que estava em sua mão não era nenhum sabão. Era um cocô do defunto... Quando dobraram o corpo do morto sobre a bacia, foram expelidos gases e um pouco de fezes. É coisa normal em defuntos que, mesmo algum tempo depois de mortos, ainda possam expelir fezes.
Aconteceu que nesse momento em que o fizeram dobrar, o defunto obrou. Quando caiu o sabonete, o pau d’água que pegou a coisa dentro da bacia não conseguiu identificar direito e pegou um cocô do defunto...
Estavam espalhando merda no defunto. A limpeza estava dando resultados opostos. Em vez de limpar, sujaram o morto. Ficou tão sujo como se tivesse caído em uma fossa negra. Arre, que situação!!!
A seita do combate fluídico
Dochino Carnielli tinha uma bela chácara dentro da cidade. Logo ali, encostada na Escola Industrial. Há bem pouco tempo essa região era praticamente rural. Tinha a chácara do Junqueira, sítios dos Ramos... a cidade era bem menor que hoje. Menor mas muito mais progressista. O progresso sempre foi a marca típica de Tatuí, algo que também ficou sepultado no passado.
Este nosso caso está também no passado, quando Tatuí quase se transformou no berço de uma nova religião.
Nem mesmo nome teve essa religião, mas era baseada em um suposto combate fluídico, um exercício mental que deveria evitar enfermidades e até mesmo a própria morte.
Fiquei sabendo disso em uma ocasião em que fui conversar com o Dochino, em sua chácara. O lugar era realmente muito agradável. As árvores eram frondosas e, em alguns lugares, foram improvisados bancos de madeira, sempre nas sombras mais frescas.
Ele havia sido amigo de meu avô Tonico. Parece que, durante certo tempo, trabalhou lá na serraria de vovô e continuaram sendo amigos.
Eu conversava com Dochino, quando ele me disse que, um certo dia, estava discutindo com o espírito de meu avô naquele mesmo lugar.
- O espírito disse para mim que a coisa era de uma forma, mas eu falei para o espírito: “Não, de jeito nenhum... é da forma que eu estou falando” – de repente Dochino contou.
- Mas como é essa história de falar com espírito? É espírito de morto? – perguntei curioso.
- Não! É espírito de vivo. Quando morre acaba tudo! – afirmou para mim o Dochino. - Este fato, da discussão que tive com o espírito do Tonico Luciano, seu avô, ocorreu há mais de 15 anos. Depois que ele morreu nunca mais seu espírito voltou para fazer a viagem fruídica.
- Como assim? – indaguei.
- O espírito de cada pessoa sai do corpo e vai fazer viagens pelos fruídos da mente. Esses fruídos entram nas outras pessoas e podem ajudar ou prejudicar. – explicou.
Fiquei pensativo. Achei melhor nem tentar entender aquele homem. Mas mesmo assim ele continuou a explicar:
- O mundo tem uma grande guerra fruídica, com os espíritos lutando entre si. Os espíritos das pessoas que têm inveja de outros, saem do corpo dessa pessoa e vão, através dos fruídos perturbar o espírito de quem ela não gosta.
-Também aqueles que querem bem outras pessoas podem ajudar com fruídos positivos, fruídos benéficos!
Sua teoria era baseada em complicados fluxos de fluidos mentais repletos de espíritos, que iam e vinham fazendo maldades e/ou bondades. Lutava contra as hostes espirituais que navegavam nos fluidos com sua própria mente, naquilo que denominava de "combate fluídico".
Mentalmente, ele lutava contra os espíritos carregados de fluídos negativos, naquilo que chamava de "Combate Fluídico".
Dochino, como todo tatuiano, trocava a letra “ele” pelo “erre” em algumas frases, mudando “fluido” e “fluídico” para o seus especiais “fruído” ou “fruídico”.
- Com esse ataque fruídico, as pessoas sofrem doenças e acabam morrendo. – continuou a explicar sua teoria.
- Eu descobri esse fato e passei a fazer o “combate fruídico”. Eu fico concentrado e vejo os espíritos de quem quer me prejudicar e, mentarmente, passo a combater os fruídos negativos com meus fruídos positivos!
Percebi que ele acreditava realmente em sua teoria, pois o homem falava e ficava empolgadíssimo. Aí se eu demonstrasse não acreditar. Provavelmente ele iria achar que o meu espírito ainda voltaria para prejudicá-lo. Sendo assim, continuei a escutar seus argumentos:
- Eu tenho praticado o combate fruídico já há algum tempo. Não tenho nem mesmo ficado doente. – continuou a explicar.
- Descobri que a própria morte é resultado do ataque fruídico! – continuou.
- Como assim? – perguntei.
- O ser humano não foi feito para morrer! – afirmou.
- Acontece que os fruídos negativos atacam as pessoas e elas acabam ficando doentes e morrem. – continuou.
- Só que eu percebi isso a tempo e estou fazendo meu combate fruídico. Estou afastando a morte. – empolgadíssimo Dochino explicava tudo.
- Com esse combate fruídico eu vou ficar imortár! – completou.
- Não morre mais? – perguntei.
- Não! Fica imortár! – finalizou.
Logo em seguida fui embora. Nesse momento chegavam algumas pessoas para conversar com o Dochino. Entraram muito contentes e foram debaixo da sombra que eu estava há pouco.
Eram discípulos do Combate Fluídico. Sim, as teorias do Dochino já tinham arrebanhado alguns fiéis discípulos, que corriam até seu mestre para receber ensinamentos da forma de proceder ao tal combate e ficar imortal!
Infelizmente, uns poucos meses depois, Dochino faleceu. Ele deve ter perdido seu combate fluídico... deixou de ser imortal. Logicamente que os discípulos ficaram decepcionados com a morte do mestre, justo aquele que dizia ter encontrado a fórmula da imortalidade. Assim, em pouco tempo acabou a seita do combate fluídico...
Este nosso caso está também no passado, quando Tatuí quase se transformou no berço de uma nova religião.
Nem mesmo nome teve essa religião, mas era baseada em um suposto combate fluídico, um exercício mental que deveria evitar enfermidades e até mesmo a própria morte.
Fiquei sabendo disso em uma ocasião em que fui conversar com o Dochino, em sua chácara. O lugar era realmente muito agradável. As árvores eram frondosas e, em alguns lugares, foram improvisados bancos de madeira, sempre nas sombras mais frescas.
Ele havia sido amigo de meu avô Tonico. Parece que, durante certo tempo, trabalhou lá na serraria de vovô e continuaram sendo amigos.
Eu conversava com Dochino, quando ele me disse que, um certo dia, estava discutindo com o espírito de meu avô naquele mesmo lugar.
- O espírito disse para mim que a coisa era de uma forma, mas eu falei para o espírito: “Não, de jeito nenhum... é da forma que eu estou falando” – de repente Dochino contou.
- Mas como é essa história de falar com espírito? É espírito de morto? – perguntei curioso.
- Não! É espírito de vivo. Quando morre acaba tudo! – afirmou para mim o Dochino. - Este fato, da discussão que tive com o espírito do Tonico Luciano, seu avô, ocorreu há mais de 15 anos. Depois que ele morreu nunca mais seu espírito voltou para fazer a viagem fruídica.
- Como assim? – indaguei.
- O espírito de cada pessoa sai do corpo e vai fazer viagens pelos fruídos da mente. Esses fruídos entram nas outras pessoas e podem ajudar ou prejudicar. – explicou.
Fiquei pensativo. Achei melhor nem tentar entender aquele homem. Mas mesmo assim ele continuou a explicar:
- O mundo tem uma grande guerra fruídica, com os espíritos lutando entre si. Os espíritos das pessoas que têm inveja de outros, saem do corpo dessa pessoa e vão, através dos fruídos perturbar o espírito de quem ela não gosta.
-Também aqueles que querem bem outras pessoas podem ajudar com fruídos positivos, fruídos benéficos!
Sua teoria era baseada em complicados fluxos de fluidos mentais repletos de espíritos, que iam e vinham fazendo maldades e/ou bondades. Lutava contra as hostes espirituais que navegavam nos fluidos com sua própria mente, naquilo que denominava de "combate fluídico".
Mentalmente, ele lutava contra os espíritos carregados de fluídos negativos, naquilo que chamava de "Combate Fluídico".
Dochino, como todo tatuiano, trocava a letra “ele” pelo “erre” em algumas frases, mudando “fluido” e “fluídico” para o seus especiais “fruído” ou “fruídico”.
- Com esse ataque fruídico, as pessoas sofrem doenças e acabam morrendo. – continuou a explicar sua teoria.
- Eu descobri esse fato e passei a fazer o “combate fruídico”. Eu fico concentrado e vejo os espíritos de quem quer me prejudicar e, mentarmente, passo a combater os fruídos negativos com meus fruídos positivos!
Percebi que ele acreditava realmente em sua teoria, pois o homem falava e ficava empolgadíssimo. Aí se eu demonstrasse não acreditar. Provavelmente ele iria achar que o meu espírito ainda voltaria para prejudicá-lo. Sendo assim, continuei a escutar seus argumentos:
- Eu tenho praticado o combate fruídico já há algum tempo. Não tenho nem mesmo ficado doente. – continuou a explicar.
- Descobri que a própria morte é resultado do ataque fruídico! – continuou.
- Como assim? – perguntei.
- O ser humano não foi feito para morrer! – afirmou.
- Acontece que os fruídos negativos atacam as pessoas e elas acabam ficando doentes e morrem. – continuou.
- Só que eu percebi isso a tempo e estou fazendo meu combate fruídico. Estou afastando a morte. – empolgadíssimo Dochino explicava tudo.
- Com esse combate fruídico eu vou ficar imortár! – completou.
- Não morre mais? – perguntei.
- Não! Fica imortár! – finalizou.
Logo em seguida fui embora. Nesse momento chegavam algumas pessoas para conversar com o Dochino. Entraram muito contentes e foram debaixo da sombra que eu estava há pouco.
Eram discípulos do Combate Fluídico. Sim, as teorias do Dochino já tinham arrebanhado alguns fiéis discípulos, que corriam até seu mestre para receber ensinamentos da forma de proceder ao tal combate e ficar imortal!
Infelizmente, uns poucos meses depois, Dochino faleceu. Ele deve ter perdido seu combate fluídico... deixou de ser imortal. Logicamente que os discípulos ficaram decepcionados com a morte do mestre, justo aquele que dizia ter encontrado a fórmula da imortalidade. Assim, em pouco tempo acabou a seita do combate fluídico...
Ondas telegráficas e telepáticas
Algumas profissões, ao mesmo tempo em que trazem sustento à pessoa, provocam uma série de enfermidades... há muitos exemplos, principalmente as mais recentes, conhecidas como LER ou DORT, compreendendo lesões por movimentos repetitivos.
Rafael Cunto foi ferroviário, tendo passado por diversas funções, iniciando como guarda-cancela. Nessa função tinha que passar noites e mais noites sozinho, aguardando o trem chegar, para mudar a linha ao sinalizar na cancela. Às vezes, ia cair no sono e acordava assustado pensando que o trem estava chegando: “O trem chegou! O trem chegou!” – gritava uma voz dentro de sua cabeça, impedindo-o de dormir.
"Aí vem o trem! Lá vem o trem!" Uma voz soando dentro da cabeça impedia que Rafael dormisse. Tinha que mudar a chave da linha.
Como era um sujeito inteligente e esforçado, aprendeu a telegrafar e logo mudou de serviço, passando a telegrafista. O telégrafo foi o e-mail do passado. O mundo começou a ficar menor com a invenção de Samuel Morse, transmitindo e recebendo mensagens, ligando os lugares mais isolados.
O tempo foi passando, Rafael trabalhou durante anos, até que se aposentou. Havia juntado algum dinheiro, que passou a emprestar a juros. Ele era um homem bom, desde que as coisas não envolvessem o seu dinheiro. Quando seu dinheirinho estava “em perigo”, ficava furioso.
Certa ocasião, precisei de algum dinheiro e recorri ao Rafael, que prontamente me atendeu. Foi então que o conheci mais de perto, conforme conto aqui. Ele me chamava de Chicão.
Como havia sido guarda-cancela, Rafael teve seu sono prejudicado por toda sua vida: assim que começava dormir, acordava assustado com a danada voz em sua cabeça, gritando: “O trem chegou! O trem chegou!”.
Com isto, seu sono resumia-se a uns poucos minutos em cada noite. Cinco minutos dormindo e uma hora acordado. À insônia somava-se sua incontinência urinária. Ou levantava-se a noite toda, ou urinava na cama. Urina solta e uma voz gritando na cabeça... não dá mesmo para dormir.
Nas noites mais frias, enjoado de levantar-se, Rafael enrolava-se em alguns sacos de linhagem, improvisando um fraldão. Assim conseguia dormir sem molhar a cama. Descobri isto indo em uma manhã em sua casa, quando me deparei com uns sacos pendurados no varal, exalando um forte odor de urina. Foi então que ele me contou esse seu problema.
Nas noites mais quentes, ele ficava sentado na cozinha de sua casa, passando as horas brincando de telegrafista. Tinha arrumado uma antiga chave de telégrafo, com a qual ficava relembrando seu tempo de telegrafista: ponto, traço, ponto, traço... e Rafael ia compondo frases, pensamentos, expressando suas preocupações ou extravasando sua raiva:
- Eu fico a noite inteira telegrafando! – disse Rafael.
Eu sabia que as noites insones dele eram assim. Só não imaginava o poder do telégrafo do Rafael.
Ele havia emprestado um capital significativo para uma determinada pessoa, que estava dando trabalho para pagar tanto os juros quanto o próprio capital. Se o sono nunca havia sido fácil, com estas preocupações a insônia instalou-se por completo. Agora Rafael enrolava-se nas fraldas e amanhecia sentado na cozinha, “telegrafando” sem parar:
- Eu não consigo dormir, então fico telegrafando: Fulano de Tal, caipora, lazarento, não me paga!!! – explicou.
"Fulano e Cicrano, lazarentos, não me pagam!" - esbravejava Rafael no telégrafo a noite inteirinha.
Fiquei pensando na birra dele, o dia todo andando atrás de seu cliente e a noite toda “telegrafando”. Fiquei pensando que aquelas ondas imaginárias do telégrafo dele poderiam até mesmo perturbar o sono daquele seu cliente.
Mas era sempre assim, quando ele ficava preocupado em receber algum dinheiro, quando tinha alguma dificuldade, perdia por completo o seu escasso sono e passava noites inteiras travando neuróticos monólogos com seu telégrafo a respeito de seus clientes mais problemáticos.
Uns meses depois, eu tive dificuldades em cumprir os compromissos com o Rafael. Passei a ter insônia. Ficava lembrando do danado a noite toda. Só então me recordei do telégrafo do Rafael, que deveria estar teclando a noite inteira: “Caipora do Chicão... não devolve meu dinheiro!”
Ele "telegrafava" de sua cozinha. Tinha apenas o teclado, a chave do telégrafo...
Pela intensidade da minha insônia, creio que estive na ponta dos dedos do telegrafista noturno Rafael durante um bom tempo, até que, finalmente, consegui cumprir com nosso negócio. Arre! Cada louco com sua mania!
Rafael Cunto foi ferroviário, tendo passado por diversas funções, iniciando como guarda-cancela. Nessa função tinha que passar noites e mais noites sozinho, aguardando o trem chegar, para mudar a linha ao sinalizar na cancela. Às vezes, ia cair no sono e acordava assustado pensando que o trem estava chegando: “O trem chegou! O trem chegou!” – gritava uma voz dentro de sua cabeça, impedindo-o de dormir.
"Aí vem o trem! Lá vem o trem!" Uma voz soando dentro da cabeça impedia que Rafael dormisse. Tinha que mudar a chave da linha.
Como era um sujeito inteligente e esforçado, aprendeu a telegrafar e logo mudou de serviço, passando a telegrafista. O telégrafo foi o e-mail do passado. O mundo começou a ficar menor com a invenção de Samuel Morse, transmitindo e recebendo mensagens, ligando os lugares mais isolados.
O tempo foi passando, Rafael trabalhou durante anos, até que se aposentou. Havia juntado algum dinheiro, que passou a emprestar a juros. Ele era um homem bom, desde que as coisas não envolvessem o seu dinheiro. Quando seu dinheirinho estava “em perigo”, ficava furioso.
Certa ocasião, precisei de algum dinheiro e recorri ao Rafael, que prontamente me atendeu. Foi então que o conheci mais de perto, conforme conto aqui. Ele me chamava de Chicão.
Como havia sido guarda-cancela, Rafael teve seu sono prejudicado por toda sua vida: assim que começava dormir, acordava assustado com a danada voz em sua cabeça, gritando: “O trem chegou! O trem chegou!”.
Com isto, seu sono resumia-se a uns poucos minutos em cada noite. Cinco minutos dormindo e uma hora acordado. À insônia somava-se sua incontinência urinária. Ou levantava-se a noite toda, ou urinava na cama. Urina solta e uma voz gritando na cabeça... não dá mesmo para dormir.
Nas noites mais frias, enjoado de levantar-se, Rafael enrolava-se em alguns sacos de linhagem, improvisando um fraldão. Assim conseguia dormir sem molhar a cama. Descobri isto indo em uma manhã em sua casa, quando me deparei com uns sacos pendurados no varal, exalando um forte odor de urina. Foi então que ele me contou esse seu problema.
Nas noites mais quentes, ele ficava sentado na cozinha de sua casa, passando as horas brincando de telegrafista. Tinha arrumado uma antiga chave de telégrafo, com a qual ficava relembrando seu tempo de telegrafista: ponto, traço, ponto, traço... e Rafael ia compondo frases, pensamentos, expressando suas preocupações ou extravasando sua raiva:
- Eu fico a noite inteira telegrafando! – disse Rafael.
Eu sabia que as noites insones dele eram assim. Só não imaginava o poder do telégrafo do Rafael.
Ele havia emprestado um capital significativo para uma determinada pessoa, que estava dando trabalho para pagar tanto os juros quanto o próprio capital. Se o sono nunca havia sido fácil, com estas preocupações a insônia instalou-se por completo. Agora Rafael enrolava-se nas fraldas e amanhecia sentado na cozinha, “telegrafando” sem parar:
- Eu não consigo dormir, então fico telegrafando: Fulano de Tal, caipora, lazarento, não me paga!!! – explicou.
"Fulano e Cicrano, lazarentos, não me pagam!" - esbravejava Rafael no telégrafo a noite inteirinha.
Fiquei pensando na birra dele, o dia todo andando atrás de seu cliente e a noite toda “telegrafando”. Fiquei pensando que aquelas ondas imaginárias do telégrafo dele poderiam até mesmo perturbar o sono daquele seu cliente.
Mas era sempre assim, quando ele ficava preocupado em receber algum dinheiro, quando tinha alguma dificuldade, perdia por completo o seu escasso sono e passava noites inteiras travando neuróticos monólogos com seu telégrafo a respeito de seus clientes mais problemáticos.
Uns meses depois, eu tive dificuldades em cumprir os compromissos com o Rafael. Passei a ter insônia. Ficava lembrando do danado a noite toda. Só então me recordei do telégrafo do Rafael, que deveria estar teclando a noite inteira: “Caipora do Chicão... não devolve meu dinheiro!”
Ele "telegrafava" de sua cozinha. Tinha apenas o teclado, a chave do telégrafo...
Pela intensidade da minha insônia, creio que estive na ponta dos dedos do telegrafista noturno Rafael durante um bom tempo, até que, finalmente, consegui cumprir com nosso negócio. Arre! Cada louco com sua mania!
Um caso complicado pra xuxu
Xuxu ou chuchu? O vegetal “chuchu” é escrito é escrito com “ch”, mas “xuxu” é uma gíria e significa “grande quantidade”.
No Brasil as coisas mudam o tempo todo. Sempre aparece um político querendo modificar as coisas e impor sua marca. O ginásio de Tatuí teve um monte de nomes... o “sobrenome”, Barão de Suruí não mudou, mas o “nome”... Ginásio do Estado, Instituto de Educação, Instituto de Educação Estadual, Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus... nem sei quantas vezes e nem vou tentar acertar todas.
Mas as mudanças de nome não são o pior. As mudanças nos sistemas educacionais, na massificação forçada do ensino, nas estratégias anti-evasão escolar e na política da progressão... alguns saem da escola sem aprender coisa alguma, mesmo tendo freqüentado todo o ensino fundamental (anteriormente denominado primeiro-grau, englobando o antigo grupo escolar e curso ginasial). Sabem até ler, mas não interpretam o texto... ou seja, lêem mas não sabem o que significa aquilo que leram. São analfabetos funcionais.
Um ex-aluno do antigo “Barão de Suruí”, por exemplo, saía do Científico, Clássico ou Normal para entrar nas melhores faculdades sem fazer cursinho. USP, ITA, UNICAMP... tudo era possível para os ex-alunos do "Barão". Nunca precisariam do tal "sistema de cotas" para alunos de escolas públicas... Alunos de escola pública eram os melhores!!!
A disciplina era rígida e faziam muitas exigências aos alunos, desde uniformes, cabelos, freqüência, aplicação nos estudos... não era fácil, mas aprendiam mais que nas escolas particulares de hoje.
Um dos professores que deixaram sua marca bem forte foi o seu Ciriaco, professor de francês. Seu Ciriaco, era, como todos os demais professores, exigente. Só que ele era especial, pois além de exigente era ranzinza e neurastênico. Ele era espanhol, nascido lá pelos lados dos Pirineus, quase na França e, com isto, embrulhava tudo para falar, misturando português, francês e o espanhol...
A mesa do professor ficava sobre um tablado, cerca de 20 cm mais alto que a classe, colocando-o em uma posição privilegiada, sendo possível observar aos alunos com mais facilidade. Parecia que o homem tinha um olho de lince... via tudo!
- Qu'est que ceci? - Qu'est que cela? - Zero pela leçon e arretire-se da classe! - seu Ciriaco passava a aula toda resmungando e distribuindo zeros pela "leçon"...
Era um homem bravo, mas bom. Ele tinha sido padre (ou quase foi padre) e largou tudo para casar. Ihhh! Como ele era exigente!!!! Eu tive que decorar essa poesia que está aí em cima para sua aula, isto no ano de 1964. Tinha porque tinha que saber “de cor”... taí, mais de quarenta anos e ainda não esqueci!
- Arrepito pela última vez, en français, le verbe avoir tiene la función auxiliaire! – dizia, mais ou menos assim, o seu Ciriaco.
Um belo dia, na aula, ele me chamou:
- Luciano, trazê votre cahier! – me chamava por uma parte do sobrenome, misturando francês com português.
Seu Ciriaco intimidava a criançada com seu falar enrolado e os pêlos nas narinas e nas orelhas. Parecia que tinha uma pequena aranha em cada orelha
Eu havia desenhado uma caveira com ossos cruzados na capa do caderno de francês, como o símbolo de piratas. O homem, quando viu aquilo, quase enlouqueceu:
- Qu’est que ceci? Zero pela leçon e arretire-se da classe! – determinou seu Ciriaco.
Enquanto saía da classe, cheguei a escutar o professor chamando o João Augusto:
- Trazê votre leçon!
Em poucos minutos João, que não havia feito a lição de casa, estava comigo fora da classe. Estávamos um pouco assustados, porque se o Juca Pato, o diretor, nos visse ali... aiaiai, suspensão na certa e problemas em casa. O diretor era ainda mais bravo que o professor... tão bravo que hoje, mais de quarenta anos depois, fiquei pensando se deveria ou não colocar seu apelido aqui (ai de quem o chamasse de Juca Pato!!!).
Mas o pátio ficou animado, a cada um que seu Ciriaco chamava, dava um zero “pela leçon” e mandava sair... parece que não fomos apenas nós dois que não fizemos a coisa do jeito que ele queria. No meu caso, o problema tinha sido a capa do caderno, mas se pedisse minha lição, o resultado seria o mesmo.
Naquele dia, no final das aulas, fomos embora bravos com o professor, que implicava com tudo.
- Ô Jão, vamos dar um jeito no seu Ciriaco? – perguntei ao João.
Eu e ele tivemos uma idéia para castigar seu Ciriaco: pegamos nossos canivetes, colhemos alguns chuchus e fomos “picar” chuchu na entrada da casa do professor, imaginando que ele escorregaria naquilo e ficaríamos uns dias sem sermos perturbados por ele.
Que coisa! Fiquei bastante indeciso em confessar isto. Não devido � possibilidade de machucar o professor, mas pela vergonha em admitir que tivemos essa idéia: picar chuchu para o professor escorregar... picar chuchu na porta do professor, que vergonha!!! Será que não havia alguma outra coisa um pouco melhor que esta para fazer???
Mas também não deve ter sido fácil para seu Ciriaco descobrir o que havia acontecido nos degraus de sua casa. Descobrir o que era aquela coisa toda picadinha...
Picadinho de chuchu!!! Ainda se fosse quiabo poderia ter uma pequena chance de derrubar o homem, mas chuchu!?!?!?
Le Petit Écolier
Maintenant, je vais à l'école:
J'apprends chaque jour ma leçon.
Le sac qui pend à mon épaule
Dit que je suis un grand garçon.
Quand le maître parle, j'écoute.
Et je retiens ce qu'il me dit,
Il est content de moi, sans doute,
Car je vois bien qu'il me sourit.
No Brasil as coisas mudam o tempo todo. Sempre aparece um político querendo modificar as coisas e impor sua marca. O ginásio de Tatuí teve um monte de nomes... o “sobrenome”, Barão de Suruí não mudou, mas o “nome”... Ginásio do Estado, Instituto de Educação, Instituto de Educação Estadual, Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus... nem sei quantas vezes e nem vou tentar acertar todas.
Mas as mudanças de nome não são o pior. As mudanças nos sistemas educacionais, na massificação forçada do ensino, nas estratégias anti-evasão escolar e na política da progressão... alguns saem da escola sem aprender coisa alguma, mesmo tendo freqüentado todo o ensino fundamental (anteriormente denominado primeiro-grau, englobando o antigo grupo escolar e curso ginasial). Sabem até ler, mas não interpretam o texto... ou seja, lêem mas não sabem o que significa aquilo que leram. São analfabetos funcionais.
Um ex-aluno do antigo “Barão de Suruí”, por exemplo, saía do Científico, Clássico ou Normal para entrar nas melhores faculdades sem fazer cursinho. USP, ITA, UNICAMP... tudo era possível para os ex-alunos do "Barão". Nunca precisariam do tal "sistema de cotas" para alunos de escolas públicas... Alunos de escola pública eram os melhores!!!
A disciplina era rígida e faziam muitas exigências aos alunos, desde uniformes, cabelos, freqüência, aplicação nos estudos... não era fácil, mas aprendiam mais que nas escolas particulares de hoje.
Um dos professores que deixaram sua marca bem forte foi o seu Ciriaco, professor de francês. Seu Ciriaco, era, como todos os demais professores, exigente. Só que ele era especial, pois além de exigente era ranzinza e neurastênico. Ele era espanhol, nascido lá pelos lados dos Pirineus, quase na França e, com isto, embrulhava tudo para falar, misturando português, francês e o espanhol...
A mesa do professor ficava sobre um tablado, cerca de 20 cm mais alto que a classe, colocando-o em uma posição privilegiada, sendo possível observar aos alunos com mais facilidade. Parecia que o homem tinha um olho de lince... via tudo!
- Qu'est que ceci? - Qu'est que cela? - Zero pela leçon e arretire-se da classe! - seu Ciriaco passava a aula toda resmungando e distribuindo zeros pela "leçon"...
Era um homem bravo, mas bom. Ele tinha sido padre (ou quase foi padre) e largou tudo para casar. Ihhh! Como ele era exigente!!!! Eu tive que decorar essa poesia que está aí em cima para sua aula, isto no ano de 1964. Tinha porque tinha que saber “de cor”... taí, mais de quarenta anos e ainda não esqueci!
- Arrepito pela última vez, en français, le verbe avoir tiene la función auxiliaire! – dizia, mais ou menos assim, o seu Ciriaco.
Um belo dia, na aula, ele me chamou:
- Luciano, trazê votre cahier! – me chamava por uma parte do sobrenome, misturando francês com português.
Seu Ciriaco intimidava a criançada com seu falar enrolado e os pêlos nas narinas e nas orelhas. Parecia que tinha uma pequena aranha em cada orelha
Eu havia desenhado uma caveira com ossos cruzados na capa do caderno de francês, como o símbolo de piratas. O homem, quando viu aquilo, quase enlouqueceu:
- Qu’est que ceci? Zero pela leçon e arretire-se da classe! – determinou seu Ciriaco.
Enquanto saía da classe, cheguei a escutar o professor chamando o João Augusto:
- Trazê votre leçon!
Em poucos minutos João, que não havia feito a lição de casa, estava comigo fora da classe. Estávamos um pouco assustados, porque se o Juca Pato, o diretor, nos visse ali... aiaiai, suspensão na certa e problemas em casa. O diretor era ainda mais bravo que o professor... tão bravo que hoje, mais de quarenta anos depois, fiquei pensando se deveria ou não colocar seu apelido aqui (ai de quem o chamasse de Juca Pato!!!).
Mas o pátio ficou animado, a cada um que seu Ciriaco chamava, dava um zero “pela leçon” e mandava sair... parece que não fomos apenas nós dois que não fizemos a coisa do jeito que ele queria. No meu caso, o problema tinha sido a capa do caderno, mas se pedisse minha lição, o resultado seria o mesmo.
Naquele dia, no final das aulas, fomos embora bravos com o professor, que implicava com tudo.
- Ô Jão, vamos dar um jeito no seu Ciriaco? – perguntei ao João.
Eu e ele tivemos uma idéia para castigar seu Ciriaco: pegamos nossos canivetes, colhemos alguns chuchus e fomos “picar” chuchu na entrada da casa do professor, imaginando que ele escorregaria naquilo e ficaríamos uns dias sem sermos perturbados por ele.
Que coisa! Fiquei bastante indeciso em confessar isto. Não devido � possibilidade de machucar o professor, mas pela vergonha em admitir que tivemos essa idéia: picar chuchu para o professor escorregar... picar chuchu na porta do professor, que vergonha!!! Será que não havia alguma outra coisa um pouco melhor que esta para fazer???
Mas também não deve ter sido fácil para seu Ciriaco descobrir o que havia acontecido nos degraus de sua casa. Descobrir o que era aquela coisa toda picadinha...
Picadinho de chuchu!!! Ainda se fosse quiabo poderia ter uma pequena chance de derrubar o homem, mas chuchu!?!?!?
Cidade maravilhosa, viagem horrorosa
Quem me contou este caso foi o próprio protagonista, meu amigo Euchário Holtz - cujos comentários sobre a realidade estão fazendo bastante falta com o besteirol nacional. Ele adorava ir ao Rio de Janeiro. Sempre que possível passava lá uma temporada. Não ia lá apenas para ver as cariocas nas praias. Ia para relaxar olhando para o mar ou simplesmente indo a bares e restaurantes. Sentia-se rico, mais que rico, sentia-se milionário, principalmente quando tomava umas e outras.
Ele costumava relatar que, em um bar que freqüentava nas proximidades da praia de Copacabana, o barman fazia uma maravilhosa batida com whisky e sorvete de coco. Sabia que tinha uns outros ingredientes, mas desconhecia quais eram estes.
– É um frappé, mas um frappé que enlouquece! - costumava lembrar.
Assim, durante alguns anos, dava seus passeios por lá. Ia de ônibus, pois não viajava de avião. Não por medo de voar, já havia experimentado alguns vôos, mas temia sentir-se mal dentro do avião em uma manifestação da sua claustrofobia.
Com o passar dos anos, aumentavam as dificuldades para caminhar e, além disto, mantinha-se gordo e tinha algumas hérnias quase estrangulando. O remédio para as hérnias era a cirurgia, coisa que sempre tentou evitar e assim, para que não acontecesse algo inesperado, mandou fazer uns cintos especiais que lhe seguravam a barriga. Na verdade era mais um “suporte” ou “amparo” para aquela enorme protuberância abdominal, evitando que, ao andar ou apenas se movimentar, as hérnias não estrangulassem.
Se os movimentos ficaram difíceis, a vontade de ir ao Rio de Janeiro continuava firme e ia regularmente. Enfrentava o cansaço e o incômodo da viagem com bom humor, lembrando do tal frappé enlouquecedor.
Sua última viagem, no entanto, foi problemática, acontecendo um fato inusitado que merece ser registrado:
Foi a São Paulo e lá tomou um ônibus para o Rio. Seis horas de viagem! É um tempo razoavelmente grande para acomodar aquele corpanzil na pequena poltrona do ônibus.
Mas a recompensa o aguardava no Rio: o tal frappé de whisky que enlouquecia!
Desta vez, porém, o destino não estava de brincadeira, pois logo depois da partida começaram uns movimentos estranhos em seu ventre. Movimentos internos, não era manifestação da hérnia, mas o que se movimentava lá queria sair... e tinha pressa!
Não deu para agüentar e foi ao toalete do ônibus para descarregar aquilo tudo! Mas havia um problema: o tamanho da porta do toalete!!! Não dava para passar naquele vão diminuto com aquela barriga enorme.
Mas a situação interna não podia esperar: ou entrava para evacuar no sanitário ou "aconteceria" nas calças! Para explicar bem como estava a situação, mais uns poucos minutos e a coisa iria acontecer ali mesmo, do lado de fora, na porta do toalete.
Tenta aqui, geme ali, aperta acolá... nada! Não conseguia entrar!
Força um pouco, geme e, de repente, o ônibus fez um movimento brusco para desviar de alguma coisa na estrada e vumpt... apesar de esfregar a barriga no batente da porta, conseguiu entrar. Machucou os locais que estavam rompidos pela hérnia. Mas estava lá dentro e isso é o que importava naquele momento.
- Ufa! - resmungou enquanto usava o vaso sanitário. Depois de alguns longos minutos, terminou seu “serviço”, limpou-se e foi sair.
Ai! Ai! Ai! Que sair o quê! Os locais com hérnia estavam doloridos e e toda aquela região abdominal inchou. Ui! Ui! Ui! Não dava para passar na porta novamente.
Sem alternativa, chamou o passageiro do último banco para que o ajudasse:
- Ô rapaz, ô rapaz, por favor, dá uma mãozinha aqui!
O passageiro veio lhe ajudar, tentando puxá-lo para fora.
- Pare, pare, pare! - gritou. - Está machucando minha hérnia.... pare!
Não dava para passar por aquela porta minúscula com a barriga machucada, inchada, e a hérnia parecendo que já ia estrangular.
Alguns passageiros viram a situação e foram tentar ajudar. Só que não dava para fazer nada naquela hora. Todos olhavam para a parte traseira do ônibus... Logo o motorista percebeu a movimentação no fundo do veículo e resolveu parar no acostamento. Veio também para ajudar, mas não foi possível resolver o impasse da miniporta do toalete.
Depois de alguns minutos de tentativas, seguiram viagem até Resende. Ele seguiu viagem dentro do toalete até que, nessa cidade, entraram na oficina da empresa de ônibus.
Foi somente lá que conseguiram resolver a situação: os mecânicos desmontaram o toalete do ônibus para retirar o infeliz (mas aliviado) passageiro e então prosseguir viagem ao destino: o frappé enlouquecedor!
Depois de "escapar" da cirurgia durante anos, um dia foi obrigado a fazer... se tivesse feito antes, provavelmente este caso não teria acontecido.
Algum comentário dele? Claro, nem um pouco preocupado e sentado à beira mar, tomando seu esperado frappé de whisky, exclamou filosoficamente: - Enquanto a caravana passa, é só pena que voa! Ahahahahah!.
Ele costumava relatar que, em um bar que freqüentava nas proximidades da praia de Copacabana, o barman fazia uma maravilhosa batida com whisky e sorvete de coco. Sabia que tinha uns outros ingredientes, mas desconhecia quais eram estes.
– É um frappé, mas um frappé que enlouquece! - costumava lembrar.
Assim, durante alguns anos, dava seus passeios por lá. Ia de ônibus, pois não viajava de avião. Não por medo de voar, já havia experimentado alguns vôos, mas temia sentir-se mal dentro do avião em uma manifestação da sua claustrofobia.
Com o passar dos anos, aumentavam as dificuldades para caminhar e, além disto, mantinha-se gordo e tinha algumas hérnias quase estrangulando. O remédio para as hérnias era a cirurgia, coisa que sempre tentou evitar e assim, para que não acontecesse algo inesperado, mandou fazer uns cintos especiais que lhe seguravam a barriga. Na verdade era mais um “suporte” ou “amparo” para aquela enorme protuberância abdominal, evitando que, ao andar ou apenas se movimentar, as hérnias não estrangulassem.
Se os movimentos ficaram difíceis, a vontade de ir ao Rio de Janeiro continuava firme e ia regularmente. Enfrentava o cansaço e o incômodo da viagem com bom humor, lembrando do tal frappé enlouquecedor.
Sua última viagem, no entanto, foi problemática, acontecendo um fato inusitado que merece ser registrado:
Foi a São Paulo e lá tomou um ônibus para o Rio. Seis horas de viagem! É um tempo razoavelmente grande para acomodar aquele corpanzil na pequena poltrona do ônibus.
Mas a recompensa o aguardava no Rio: o tal frappé de whisky que enlouquecia!
Desta vez, porém, o destino não estava de brincadeira, pois logo depois da partida começaram uns movimentos estranhos em seu ventre. Movimentos internos, não era manifestação da hérnia, mas o que se movimentava lá queria sair... e tinha pressa!
Não deu para agüentar e foi ao toalete do ônibus para descarregar aquilo tudo! Mas havia um problema: o tamanho da porta do toalete!!! Não dava para passar naquele vão diminuto com aquela barriga enorme.
Mas a situação interna não podia esperar: ou entrava para evacuar no sanitário ou "aconteceria" nas calças! Para explicar bem como estava a situação, mais uns poucos minutos e a coisa iria acontecer ali mesmo, do lado de fora, na porta do toalete.
Tenta aqui, geme ali, aperta acolá... nada! Não conseguia entrar!
Força um pouco, geme e, de repente, o ônibus fez um movimento brusco para desviar de alguma coisa na estrada e vumpt... apesar de esfregar a barriga no batente da porta, conseguiu entrar. Machucou os locais que estavam rompidos pela hérnia. Mas estava lá dentro e isso é o que importava naquele momento.
- Ufa! - resmungou enquanto usava o vaso sanitário. Depois de alguns longos minutos, terminou seu “serviço”, limpou-se e foi sair.
Ai! Ai! Ai! Que sair o quê! Os locais com hérnia estavam doloridos e e toda aquela região abdominal inchou. Ui! Ui! Ui! Não dava para passar na porta novamente.
Sem alternativa, chamou o passageiro do último banco para que o ajudasse:
- Ô rapaz, ô rapaz, por favor, dá uma mãozinha aqui!
O passageiro veio lhe ajudar, tentando puxá-lo para fora.
- Pare, pare, pare! - gritou. - Está machucando minha hérnia.... pare!
Não dava para passar por aquela porta minúscula com a barriga machucada, inchada, e a hérnia parecendo que já ia estrangular.
Alguns passageiros viram a situação e foram tentar ajudar. Só que não dava para fazer nada naquela hora. Todos olhavam para a parte traseira do ônibus... Logo o motorista percebeu a movimentação no fundo do veículo e resolveu parar no acostamento. Veio também para ajudar, mas não foi possível resolver o impasse da miniporta do toalete.
Depois de alguns minutos de tentativas, seguiram viagem até Resende. Ele seguiu viagem dentro do toalete até que, nessa cidade, entraram na oficina da empresa de ônibus.
Foi somente lá que conseguiram resolver a situação: os mecânicos desmontaram o toalete do ônibus para retirar o infeliz (mas aliviado) passageiro e então prosseguir viagem ao destino: o frappé enlouquecedor!
Depois de "escapar" da cirurgia durante anos, um dia foi obrigado a fazer... se tivesse feito antes, provavelmente este caso não teria acontecido.
Algum comentário dele? Claro, nem um pouco preocupado e sentado à beira mar, tomando seu esperado frappé de whisky, exclamou filosoficamente: - Enquanto a caravana passa, é só pena que voa! Ahahahahah!.
Tatuianos na Festa do Vinho de S. Roque
Alguns amigos estão recolhendo casos aqui e ali para que eu possa dar continuidade aos “causos”. Outros casos anteriormente escritos já têm contribuições, mas este foi repassado especialmente para os “Casos Tatuianos” pelo meu amigo Fabio Del Fiol.
Este caso aconteceu com o padre Murari, seu grande amigo Rui Português e o Dito Gordo, embaixador de Tatuí em Guarujá.
Certa ocasião, os três foram até a cidade de São Roque, por ocasião da festa do vinho. E vinho era coisa que interessava ao padre. Aliás, todos os padres têm interesse em vinho, visto que essa bebida é utilizada na liturgia católica.
Mesmo que as aquisições vinícolas da paróquia fossem coordenadas pela diocese, nada impedia que o padre Murari fosse experimentar os produtos disponíveis em São Roque.
Atualmente alguns municípios do Rio Grande do Sul e até mesmo de Santa Catarina dominam a produção de vinho no Brasil. São Roque ainda produz vinho, mas a uva utilizada nessa atividade é importada do Sul.
Já o interesse do Rui Português não tinha nada de eclesiástico. Era essencialmente alcoólico. Dito Gordo, nessa ocasião ainda não era o embaixador de Tatuí em Guarujá e estava era fazendo turismo com os amigos.
Por falar em Guarujá, foi lá que o ex-presidente Jânio Quadros passou a residir depois de seu retorno do exílio. Jânio tinha sinceros amigos tatuianos, que costumavam visitá-lo frequentemente.
Conta-se que, em determinada ocasião, lá estavam os amigos tatuianos de Jânio Quadros em frente ao portão de sua casa. Apertaram a campainha e aguardaram abrir a porta. Se atualmente muitas casas têm sistema de vigilância com câmeras de vídeo, naquela época isso era uma raridade. Jânio aproveitava para fazer das suas com isto. Viu que eram os tatuianos e falou pelo interfone:
- Estou muito cansado. Só atendo se for o pessoal de Tatuí! – disse Jânio com a voz abafada e rouca.
- Somos nós, presidente! Somos nós! – gritaram todos a uma só voz.
Isto encantou os visitantes, que ficaram achando que Jânio fazia uma deferência especial aos tatuianos. Provavelmente ele fazia assim como todos visitantes, mas que funcionou, funcionou! Os tatuianos sentiram-se especiais!
Dentro de sua casa, conversando, Jânio servia-se fartamente de whisky escocês, mas distribuía Scotch Bard e Drury’s para os tatuianos, dizendo:
- Vocês já estão acostumados com estes!
Jânio não ficava sem seu whiskyMas lá em São Roque, nossos outros amigos não ficaram com as sobras. Tomaram os melhores vinhos, em quantidades absurdas. Padre Murari tinha algumas ligações com a cidade de São Roque. Não sei exatamente quais, mas há nessa cidade a Rua Monsenhor Silvestre Murari, homenageando o velho padre.
Experimenta este, beberica aquele, repete outro... nessa alegre atividade transcorreram algumas horas. Difícil foi levantarem-se das cadeiras, pois parecia que havia um paralelepípedo em cada joelho, tantas foram as experimentações vinícolas.
Conforme haviam combinado, foram dormir em um hotel de São Roque. Não dava para voltar para Tatuí naquele estado: estava realmente bêbados. Bêbados mas mantinham a linha. Não aconteceu nenhum pequeno deslize.
Mas para dormir padre Murari e o Rui nem banho tomaram. Foram direto para a cama. Haviam escolhido um quarto com três camas, para dormirem todos juntos.
Antes de deitar, padre Murari colocou sua dentadura em um copo com água que pegou na cozinha do hotel. A mesma coisa fez Rui Português. Em poucos minutos estavam ambos dormindo.
Dito Gordo não tinha bebido tanto quanto os amigos. Ele era o mais jovem do grupo e o mais ajuizado, decerto. Estava quase sóbrio. Entrou no chuveiro e tomou um refrescante banho, antes de deitar.
Quando foi apagar a luz, Dito Gordo viu os dois dormindo, roncando, parecia que estavam tocando instrumentos de sopro. Deitou-se, mas não conseguia dormir. O ronco dos dois amigos estava insuportável. Em determinados momentos, parecia que o padre estava tocando um trombone e Rui uma tuba.
De repente mudava a tonalidade e parecia uma clarineta desafinada fazendo dueto com uma araponga (quem se lembra da barulhenta araponga do padre Murari? Eu que o diga, pois morava em frente à casa paroquial e aquela ave maldita batia a bigorna o dia inteiro: PÉÉÈM! PÉÉÉM!).
Como não conseguia dormir, Dito Gordo pensou em levantar-se e sair um pouco. Mas estava cansado. Pensou em ler alguma coisa, tentando distrair seus ouvidos daquela sinfonia infernal (o padre que me perdoe, mas seu ronco não tinha nada de celestial).
Nisso viu os dois copos com as dentaduras dos amigos e teve uma idéia: inverteu os copos de lugar... a dentadura do padre com Rui e vice-versa!
Logo foi vencido pelo sono. Ainda bem que não escutava a si próprio roncando, porque a partir de sua entrada de seu “instrumento” no concerto, o resto do hotel acordou... ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! Parecia a serraria de meu avô, abrindo toras em pranchas, pranchas em vigas, vigas em caibros e tábuas... Agora a sonoridade lembrava a serra vertical, a francesa, as serras de fita e a circular... Só sob efeito do álcool é possível dormir com um barulho desses!
Na manhã seguinte levantaram cedo, para voltar a Tatuí. Cada um foi ao banheiro fazer suas necessidades, lavar a boca e colocar as dentaduras. Ninguém reclamou de nada. Parecia que ainda estavam sob efeito do vinho.
Passava pouco das 8 da manhã e já estavam na estrada. Antes de sair com o carro, colocaram algumas dúzias de garrafas no porta-malas. Umas de presente para amigos, mas a maioria para o padre usar na liturgia.
O Rui estava com uma fisionomia de papel amassado. O padre, com sua batina preta, toda furada de brasa de cigarro de palha, estava com cara que quem comeu e não gostou, ou melhor, de quem bebeu...
Alguns minutos em silêncio e começaram a comentar sobre a festa do vinho.
Rui falou:
- Puxa, bebi tanto... mas acho que o vinho não era muito bom. Estou com uma ressaca estranha, até a minha boca parece que murchou!
O padre comentou então:
- Gozado, eu também achei isso, só que a minha boca parece que inchou!
Dito Gordo não se conteve e começou a gargalhar... ria sem parar, olhando para os dois amigos que não tinham percebido que suas dentaduras haviam sido trocadas.
- Eu troquei as dentaduras! Ahahahahah! Eu troquei as dentaduras!
Só então que os dois perceberam a situação. Retiraram as dentaduras e destrocaram. Mas não havia água para lavar e, sendo assim, saiu de uma boca e entrou em outra.
Rui Português fez o restante da viagem cuspindo pela janela do carro. O padre ficou aborrecido com isto e dizia:
- O Rui, você está com nojo de mim? Garanto que sua boca já andou em lugares piores que a minha!
Dito Gordo riu a viagem toda. Os outros dois só conseguiram rir uns dias depois... quando já tinha lavado adequadamente as dentaduras...
Este caso aconteceu com o padre Murari, seu grande amigo Rui Português e o Dito Gordo, embaixador de Tatuí em Guarujá.
Certa ocasião, os três foram até a cidade de São Roque, por ocasião da festa do vinho. E vinho era coisa que interessava ao padre. Aliás, todos os padres têm interesse em vinho, visto que essa bebida é utilizada na liturgia católica.
Mesmo que as aquisições vinícolas da paróquia fossem coordenadas pela diocese, nada impedia que o padre Murari fosse experimentar os produtos disponíveis em São Roque.
Atualmente alguns municípios do Rio Grande do Sul e até mesmo de Santa Catarina dominam a produção de vinho no Brasil. São Roque ainda produz vinho, mas a uva utilizada nessa atividade é importada do Sul.
Já o interesse do Rui Português não tinha nada de eclesiástico. Era essencialmente alcoólico. Dito Gordo, nessa ocasião ainda não era o embaixador de Tatuí em Guarujá e estava era fazendo turismo com os amigos.
Por falar em Guarujá, foi lá que o ex-presidente Jânio Quadros passou a residir depois de seu retorno do exílio. Jânio tinha sinceros amigos tatuianos, que costumavam visitá-lo frequentemente.
Conta-se que, em determinada ocasião, lá estavam os amigos tatuianos de Jânio Quadros em frente ao portão de sua casa. Apertaram a campainha e aguardaram abrir a porta. Se atualmente muitas casas têm sistema de vigilância com câmeras de vídeo, naquela época isso era uma raridade. Jânio aproveitava para fazer das suas com isto. Viu que eram os tatuianos e falou pelo interfone:
- Estou muito cansado. Só atendo se for o pessoal de Tatuí! – disse Jânio com a voz abafada e rouca.
- Somos nós, presidente! Somos nós! – gritaram todos a uma só voz.
Isto encantou os visitantes, que ficaram achando que Jânio fazia uma deferência especial aos tatuianos. Provavelmente ele fazia assim como todos visitantes, mas que funcionou, funcionou! Os tatuianos sentiram-se especiais!
Dentro de sua casa, conversando, Jânio servia-se fartamente de whisky escocês, mas distribuía Scotch Bard e Drury’s para os tatuianos, dizendo:
- Vocês já estão acostumados com estes!
Jânio não ficava sem seu whiskyMas lá em São Roque, nossos outros amigos não ficaram com as sobras. Tomaram os melhores vinhos, em quantidades absurdas. Padre Murari tinha algumas ligações com a cidade de São Roque. Não sei exatamente quais, mas há nessa cidade a Rua Monsenhor Silvestre Murari, homenageando o velho padre.
Experimenta este, beberica aquele, repete outro... nessa alegre atividade transcorreram algumas horas. Difícil foi levantarem-se das cadeiras, pois parecia que havia um paralelepípedo em cada joelho, tantas foram as experimentações vinícolas.
Conforme haviam combinado, foram dormir em um hotel de São Roque. Não dava para voltar para Tatuí naquele estado: estava realmente bêbados. Bêbados mas mantinham a linha. Não aconteceu nenhum pequeno deslize.
Mas para dormir padre Murari e o Rui nem banho tomaram. Foram direto para a cama. Haviam escolhido um quarto com três camas, para dormirem todos juntos.
Antes de deitar, padre Murari colocou sua dentadura em um copo com água que pegou na cozinha do hotel. A mesma coisa fez Rui Português. Em poucos minutos estavam ambos dormindo.
Dito Gordo não tinha bebido tanto quanto os amigos. Ele era o mais jovem do grupo e o mais ajuizado, decerto. Estava quase sóbrio. Entrou no chuveiro e tomou um refrescante banho, antes de deitar.
Quando foi apagar a luz, Dito Gordo viu os dois dormindo, roncando, parecia que estavam tocando instrumentos de sopro. Deitou-se, mas não conseguia dormir. O ronco dos dois amigos estava insuportável. Em determinados momentos, parecia que o padre estava tocando um trombone e Rui uma tuba.
De repente mudava a tonalidade e parecia uma clarineta desafinada fazendo dueto com uma araponga (quem se lembra da barulhenta araponga do padre Murari? Eu que o diga, pois morava em frente à casa paroquial e aquela ave maldita batia a bigorna o dia inteiro: PÉÉÈM! PÉÉÉM!).
Como não conseguia dormir, Dito Gordo pensou em levantar-se e sair um pouco. Mas estava cansado. Pensou em ler alguma coisa, tentando distrair seus ouvidos daquela sinfonia infernal (o padre que me perdoe, mas seu ronco não tinha nada de celestial).
Nisso viu os dois copos com as dentaduras dos amigos e teve uma idéia: inverteu os copos de lugar... a dentadura do padre com Rui e vice-versa!
Logo foi vencido pelo sono. Ainda bem que não escutava a si próprio roncando, porque a partir de sua entrada de seu “instrumento” no concerto, o resto do hotel acordou... ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! Parecia a serraria de meu avô, abrindo toras em pranchas, pranchas em vigas, vigas em caibros e tábuas... Agora a sonoridade lembrava a serra vertical, a francesa, as serras de fita e a circular... Só sob efeito do álcool é possível dormir com um barulho desses!
Na manhã seguinte levantaram cedo, para voltar a Tatuí. Cada um foi ao banheiro fazer suas necessidades, lavar a boca e colocar as dentaduras. Ninguém reclamou de nada. Parecia que ainda estavam sob efeito do vinho.
Passava pouco das 8 da manhã e já estavam na estrada. Antes de sair com o carro, colocaram algumas dúzias de garrafas no porta-malas. Umas de presente para amigos, mas a maioria para o padre usar na liturgia.
O Rui estava com uma fisionomia de papel amassado. O padre, com sua batina preta, toda furada de brasa de cigarro de palha, estava com cara que quem comeu e não gostou, ou melhor, de quem bebeu...
Alguns minutos em silêncio e começaram a comentar sobre a festa do vinho.
Rui falou:
- Puxa, bebi tanto... mas acho que o vinho não era muito bom. Estou com uma ressaca estranha, até a minha boca parece que murchou!
O padre comentou então:
- Gozado, eu também achei isso, só que a minha boca parece que inchou!
Dito Gordo não se conteve e começou a gargalhar... ria sem parar, olhando para os dois amigos que não tinham percebido que suas dentaduras haviam sido trocadas.
- Eu troquei as dentaduras! Ahahahahah! Eu troquei as dentaduras!
Só então que os dois perceberam a situação. Retiraram as dentaduras e destrocaram. Mas não havia água para lavar e, sendo assim, saiu de uma boca e entrou em outra.
Rui Português fez o restante da viagem cuspindo pela janela do carro. O padre ficou aborrecido com isto e dizia:
- O Rui, você está com nojo de mim? Garanto que sua boca já andou em lugares piores que a minha!
Dito Gordo riu a viagem toda. Os outros dois só conseguiram rir uns dias depois... quando já tinha lavado adequadamente as dentaduras...
João Bituca, o malandro
Alguns tatuianos ostentaram apelidos durante a vida inteira, como foi o caso do João Bituca (ou João Engraxate).
O João Bituca foi o engraxate de maior sucesso em Tatuí. Estabeleceu-se na Praça da Matriz, ao lado do Clube Recreativo XI de Agosto.
Entre a parte social do Clube Recreativo e o salão de jogos, havia um portão que não era usado e foi neste local que ele montou sua engraxataria. Um sucesso, pois nessa época todos usavam sapatos e tinham que estar sempre brilhando. Quando alguém ia até a engraxataria sempre havia espera, porque estava costumeiramente lotada.
João Bituca foi engraxate desde menino. Logo ficou bastante conhecido na cidade e teve sua grande chance quando lhe foi cedido um espaço do Clube Recreativo, onde instalou sua engraxataria.
- Quer engraxar, hoje? – perguntava João a todos que passavam pela praça.
Seu apelido foi decorrente de seu vício de fumar (e pedir). A todo mundo que via fumando, já pedia:
- Dá a bituca pra mim?
Foi o que bastou: tanto pediu a ponta do cigarro dos freqüentadores da praça que logo ficou conhecido como João Bituca. Esse apelido “grudou” no João durante sua vida inteira.
A Praça da Matriz era freqüentada por todos. Nos dias da semana por lá se encontravam estudantes e os moradores da região central da cidade. Todo mundo conhecia todo mundo. À noite o costume era dar voltas na praça, homens de um lado e mulheres do outro, em uma paquera contínua, das 8 da noite até as 10 horas. Ou melhor, até uns quinze minutos para as dez, porque às 10 horas em ponto a praça tornava-se um deserto.
O João, como havia sido engraxate desde menino, freqüentava a praça e convivia com os estudantes. Na parte da manhã ele estava com o pessoal que estudava à tarde ou à noite. Depois do almoço ele conversava com quem estudava de manhã. Ou seja, sempre havia alguém para conversar com o João, que se sentia bastante “chegado” dos estudantes.
Era conversa de igual para igual, ainda mais que estudante não tem dinheiro e ele, como trabalhava, sempre tinha algum e, por isso, era convidado para ir neste ou naquele bar. Além do que, ele se achava um excelente malandro, enquanto que achava que os amigos eram otários, porque iam à escola. Ele apenas não percebeu que seus amigos, exatamente porque freqüentavam escolas, em pouco tempo mudavam sua vida e passavam a trabalhar em atividades melhores que o João, ganhando muito mais, é claro.
As visitas aos bares, onde era bem recebido enquanto tinha algum dinheiro, encaminharam-no ao vício do álcool.
Logo aqueles amigos afastaram-se dele, não só devido as constantes bebedeiras, mas porque já estavam com outras ocupações. Ele não entendia a razão, mas considerou que apenas ele estava certo e todos errados. Pudera, ele era malandro!
Para o João Bituca todo mundo era otário:
- Fulano é otário! Cicrano é otário! Beltrano é otário. O Bolinha é otário! – costumava dizer.
Certo dia, conversando com uma pessoa que há tempos não via, pois não morava mais na cidade, “contou” que todo mundo da cidade era otário, que só tinha “trouxas” e que ele era “o bom”. Esse era o Cláudio do Timbio.
O Cláudio disse para o João:
- É mesmo, aqui só tem otários. Vou levar você comigo para Santos, vamos à praia e ver as mulheres mais lindas do Brasil. A mulherada de biquíni. Você vai deixar os “trouxas” de Tatuí com a boca aberta quando contar o que fará por lá!
- Ê, meu! Não tenho grana! - respondeu João.
- Não precisa de dinheiro. É tudo por minha conta. Você é meu amigo... pode deixar que eu pago o que precisar. - garantiu Cláudio.
- Ah, então vamos sim, estou cheio desta cidade que só tem otários – respondeu João.
E o Cláudio cumpriu o que prometeu. No dia seguinte tomaram um ônibus e foram a São Paulo. De lá pegaram outro para Santos, chegando à tarde desse mesmo dia. Estavam com fome, mas Cláudio foi logo avisando que iriam jantar em um restaurante chique, comer frutos do mar.
Foram a um restaurante elegante à beira-mar. Nesse restaurante todos estavam com roupa social, até mesmo o Cláudio vestia-se adequadamente, mas o pobre João Bituca era uma figura destoante.
- João, você já comeu lagosta?
- Não! – respondeu.
- Então hoje você vai comer coisas que os otários de Tatuí nunca provaram. Lagosta, camarão, polvo, lula... tudo que quiser.
Cláudio chamou o garçom e não economizou. Pediu tudo do bom e do melhor, acompanhado de vinho importado.
Quando chegou o pedido, João nem sabia por onde começar, mesmo porque nem sabia como comer aquilo. Mas buscou encontrar um jeito: observou o que Cláudio fazia para comer, tentou, tentou e acabou comendo mesmo foi com as mãos!
A mesa dos dois estavam maravilhosa, não economizaram em nada. Comeram a valer. Repetiram o vinho duas vezes.
O Cláudio disse para o João:
- Vamos escolher uma sobremesa. Uma refeição completa não pode ficar sem sobremesa.
Chamou o garçom e pediu o menu para escolher.
Escolheu alguma coisa que disse gostar e deu o menu para o João escolher. Quando o João escolhia, o Cláudio disse que viu um conhecido passar na frente do restaurante e avisou ao João que iria chamar a tal pessoa para fazer companhia aos dois.
- Espera um instantinho aqui, João! Eu só vou chamar o meu amigo e já volto. Enquanto espera, peça a sobremesa.
Ah, João Bituca não se fez de rogado. Pediu, com auxílio do garçom, um sorvete especial, já que não entendia nada do menu.
O sorvete demorou um pouco para chegar, mas veio e o Cláudio ainda não havia voltado. João olhava insistentemente para a porta do restaurante, ansioso por ver o companheiro voltar.
Tomou o sorvete olhando para a porta.
Sua figura, destoante, começou a chamar a atenção do pessoal do restaurante. Os seguranças já estavam rodeando, de olho no João. Isto porque havia mais de meia hora que ele estava sozinho. Não tinha mais o que fazer por lá e olhava para a porta sem parar.
O garçom trouxe a conta e apresentou ao João. Ele nem mesmo entendeu direito o valor, porque não poderia imaginar que um jantar pudesse custar tudo aquilo: “Acho que erraram e tem um zero a mais!” – pensou.
Mas não havia erro algum. A conta era alta mesmo. Pudera, lagosta, camarão, lula, polvo, vinho do Porto, não são coisas comuns.
Uma hora inteira já se passara. João levantou-se para olhar fora do restaurante, ver se encontrava o Cláudio. Quando se levantou, os seguranças correram para seu lado.
Quis se aproximar da porta, mas foi abordado pelos seguranças, que ordenaram para ele ir até o caixa, pagar a conta.
João estava desesperado. Não tinha nem um cruzeiro no bolso e o Cláudio demorava demais para voltar!
Demorava e não voltou. O garçom, seguranças e maitre do restaurante já haviam fechado o caminho de saída para o João. Não dava para ele sair fora.
- O Cráudio já vórta pra pagá a conta! – repetia incessantemente.
Chamaram a polícia e levaram o João em um escritório nos fundos do restaurante. Em pouco tempo perceberam que estavam lidando com um otário que havia caído em um conto.
- Não vamos receber o dinheiro. A conta não será paga, porque você é um otário sem dinheiro! – disseram ao João – Mas não pense que vai sair desta com facilidade. Vai em cana!
João saiu algemado e conduzido para a viatura. Levaram para a cadeia e prenderam por 3 dias.
Se em Tatuí as celas ainda não eram superlotadas, em Santos eram terrívelmente lotadas.
Quando soltaram, ainda ficaram com dó dele, fizeram uma “vaquinha” e arranjaram dinheiro para a passagem de volta até Tatuí. Sabiam que, se ele ficasse em Santos, dentro de poucos dias estaria de volta à cadeia, como vítima ou como autor de algum delito.
- Ô otário, vê se aprende agora! – aconselharam na saída.
Quando o João voltou em Tatuí todos já sabiam da história, porque o Cláudio logo depois de sair do restaurante já tomara o ônibus e sumiu de Santos. Contou para todo mundo a maldade que fizera ao pobre do João.
Mas quando se perguntava ao João o que tinha acontecido, ele desconversava e não contava para ninguém. Tentei arrancar dele o final desta história, o que aconteceu direito no restaurante e na cadeia, mas ele dava um jeito de desconversar e não contava. Não faz muito tempo que tentei pela última vez descobrir... poucos meses antes dele falecer. Mas que o que... não contou!
Faleceu há pouco tempo e ganhava a vida como vendedor de bilhetes. Era um vendedor chato e abusado: chegava perto de algum possível freguês e dizia:
- Viado! Viado!
Quando a pessoa, irritada, olhava imediatamente para seu lado, ele mostrava o bilhete do veado:
- Quer comprar o bilhete do viado?
Às vezes se aproximava de uma mulher e dizia:
- Vaca! Vaca!
Essa tal mulher, sentindo-se ultrajada, virava-se para o lado do João, que mostrava um bilhete e dizia:
- Quer comprar o bilhete da vaca?
Isto porque ele, em sua concepção, não era otário... os outros é que eram... achava-se um grande malandro.
O João Bituca foi o engraxate de maior sucesso em Tatuí. Estabeleceu-se na Praça da Matriz, ao lado do Clube Recreativo XI de Agosto.
Entre a parte social do Clube Recreativo e o salão de jogos, havia um portão que não era usado e foi neste local que ele montou sua engraxataria. Um sucesso, pois nessa época todos usavam sapatos e tinham que estar sempre brilhando. Quando alguém ia até a engraxataria sempre havia espera, porque estava costumeiramente lotada.
João Bituca foi engraxate desde menino. Logo ficou bastante conhecido na cidade e teve sua grande chance quando lhe foi cedido um espaço do Clube Recreativo, onde instalou sua engraxataria.
- Quer engraxar, hoje? – perguntava João a todos que passavam pela praça.
Seu apelido foi decorrente de seu vício de fumar (e pedir). A todo mundo que via fumando, já pedia:
- Dá a bituca pra mim?
Foi o que bastou: tanto pediu a ponta do cigarro dos freqüentadores da praça que logo ficou conhecido como João Bituca. Esse apelido “grudou” no João durante sua vida inteira.
A Praça da Matriz era freqüentada por todos. Nos dias da semana por lá se encontravam estudantes e os moradores da região central da cidade. Todo mundo conhecia todo mundo. À noite o costume era dar voltas na praça, homens de um lado e mulheres do outro, em uma paquera contínua, das 8 da noite até as 10 horas. Ou melhor, até uns quinze minutos para as dez, porque às 10 horas em ponto a praça tornava-se um deserto.
O João, como havia sido engraxate desde menino, freqüentava a praça e convivia com os estudantes. Na parte da manhã ele estava com o pessoal que estudava à tarde ou à noite. Depois do almoço ele conversava com quem estudava de manhã. Ou seja, sempre havia alguém para conversar com o João, que se sentia bastante “chegado” dos estudantes.
Era conversa de igual para igual, ainda mais que estudante não tem dinheiro e ele, como trabalhava, sempre tinha algum e, por isso, era convidado para ir neste ou naquele bar. Além do que, ele se achava um excelente malandro, enquanto que achava que os amigos eram otários, porque iam à escola. Ele apenas não percebeu que seus amigos, exatamente porque freqüentavam escolas, em pouco tempo mudavam sua vida e passavam a trabalhar em atividades melhores que o João, ganhando muito mais, é claro.
As visitas aos bares, onde era bem recebido enquanto tinha algum dinheiro, encaminharam-no ao vício do álcool.
Logo aqueles amigos afastaram-se dele, não só devido as constantes bebedeiras, mas porque já estavam com outras ocupações. Ele não entendia a razão, mas considerou que apenas ele estava certo e todos errados. Pudera, ele era malandro!
Para o João Bituca todo mundo era otário:
- Fulano é otário! Cicrano é otário! Beltrano é otário. O Bolinha é otário! – costumava dizer.
Certo dia, conversando com uma pessoa que há tempos não via, pois não morava mais na cidade, “contou” que todo mundo da cidade era otário, que só tinha “trouxas” e que ele era “o bom”. Esse era o Cláudio do Timbio.
O Cláudio disse para o João:
- É mesmo, aqui só tem otários. Vou levar você comigo para Santos, vamos à praia e ver as mulheres mais lindas do Brasil. A mulherada de biquíni. Você vai deixar os “trouxas” de Tatuí com a boca aberta quando contar o que fará por lá!
- Ê, meu! Não tenho grana! - respondeu João.
- Não precisa de dinheiro. É tudo por minha conta. Você é meu amigo... pode deixar que eu pago o que precisar. - garantiu Cláudio.
- Ah, então vamos sim, estou cheio desta cidade que só tem otários – respondeu João.
E o Cláudio cumpriu o que prometeu. No dia seguinte tomaram um ônibus e foram a São Paulo. De lá pegaram outro para Santos, chegando à tarde desse mesmo dia. Estavam com fome, mas Cláudio foi logo avisando que iriam jantar em um restaurante chique, comer frutos do mar.
Foram a um restaurante elegante à beira-mar. Nesse restaurante todos estavam com roupa social, até mesmo o Cláudio vestia-se adequadamente, mas o pobre João Bituca era uma figura destoante.
- João, você já comeu lagosta?
- Não! – respondeu.
- Então hoje você vai comer coisas que os otários de Tatuí nunca provaram. Lagosta, camarão, polvo, lula... tudo que quiser.
Cláudio chamou o garçom e não economizou. Pediu tudo do bom e do melhor, acompanhado de vinho importado.
Quando chegou o pedido, João nem sabia por onde começar, mesmo porque nem sabia como comer aquilo. Mas buscou encontrar um jeito: observou o que Cláudio fazia para comer, tentou, tentou e acabou comendo mesmo foi com as mãos!
A mesa dos dois estavam maravilhosa, não economizaram em nada. Comeram a valer. Repetiram o vinho duas vezes.
O Cláudio disse para o João:
- Vamos escolher uma sobremesa. Uma refeição completa não pode ficar sem sobremesa.
Chamou o garçom e pediu o menu para escolher.
Escolheu alguma coisa que disse gostar e deu o menu para o João escolher. Quando o João escolhia, o Cláudio disse que viu um conhecido passar na frente do restaurante e avisou ao João que iria chamar a tal pessoa para fazer companhia aos dois.
- Espera um instantinho aqui, João! Eu só vou chamar o meu amigo e já volto. Enquanto espera, peça a sobremesa.
Ah, João Bituca não se fez de rogado. Pediu, com auxílio do garçom, um sorvete especial, já que não entendia nada do menu.
O sorvete demorou um pouco para chegar, mas veio e o Cláudio ainda não havia voltado. João olhava insistentemente para a porta do restaurante, ansioso por ver o companheiro voltar.
Tomou o sorvete olhando para a porta.
Sua figura, destoante, começou a chamar a atenção do pessoal do restaurante. Os seguranças já estavam rodeando, de olho no João. Isto porque havia mais de meia hora que ele estava sozinho. Não tinha mais o que fazer por lá e olhava para a porta sem parar.
O garçom trouxe a conta e apresentou ao João. Ele nem mesmo entendeu direito o valor, porque não poderia imaginar que um jantar pudesse custar tudo aquilo: “Acho que erraram e tem um zero a mais!” – pensou.
Mas não havia erro algum. A conta era alta mesmo. Pudera, lagosta, camarão, lula, polvo, vinho do Porto, não são coisas comuns.
Uma hora inteira já se passara. João levantou-se para olhar fora do restaurante, ver se encontrava o Cláudio. Quando se levantou, os seguranças correram para seu lado.
Quis se aproximar da porta, mas foi abordado pelos seguranças, que ordenaram para ele ir até o caixa, pagar a conta.
João estava desesperado. Não tinha nem um cruzeiro no bolso e o Cláudio demorava demais para voltar!
Demorava e não voltou. O garçom, seguranças e maitre do restaurante já haviam fechado o caminho de saída para o João. Não dava para ele sair fora.
- O Cráudio já vórta pra pagá a conta! – repetia incessantemente.
Chamaram a polícia e levaram o João em um escritório nos fundos do restaurante. Em pouco tempo perceberam que estavam lidando com um otário que havia caído em um conto.
- Não vamos receber o dinheiro. A conta não será paga, porque você é um otário sem dinheiro! – disseram ao João – Mas não pense que vai sair desta com facilidade. Vai em cana!
João saiu algemado e conduzido para a viatura. Levaram para a cadeia e prenderam por 3 dias.
Se em Tatuí as celas ainda não eram superlotadas, em Santos eram terrívelmente lotadas.
Quando soltaram, ainda ficaram com dó dele, fizeram uma “vaquinha” e arranjaram dinheiro para a passagem de volta até Tatuí. Sabiam que, se ele ficasse em Santos, dentro de poucos dias estaria de volta à cadeia, como vítima ou como autor de algum delito.
- Ô otário, vê se aprende agora! – aconselharam na saída.
Quando o João voltou em Tatuí todos já sabiam da história, porque o Cláudio logo depois de sair do restaurante já tomara o ônibus e sumiu de Santos. Contou para todo mundo a maldade que fizera ao pobre do João.
Mas quando se perguntava ao João o que tinha acontecido, ele desconversava e não contava para ninguém. Tentei arrancar dele o final desta história, o que aconteceu direito no restaurante e na cadeia, mas ele dava um jeito de desconversar e não contava. Não faz muito tempo que tentei pela última vez descobrir... poucos meses antes dele falecer. Mas que o que... não contou!
Faleceu há pouco tempo e ganhava a vida como vendedor de bilhetes. Era um vendedor chato e abusado: chegava perto de algum possível freguês e dizia:
- Viado! Viado!
Quando a pessoa, irritada, olhava imediatamente para seu lado, ele mostrava o bilhete do veado:
- Quer comprar o bilhete do viado?
Às vezes se aproximava de uma mulher e dizia:
- Vaca! Vaca!
Essa tal mulher, sentindo-se ultrajada, virava-se para o lado do João, que mostrava um bilhete e dizia:
- Quer comprar o bilhete da vaca?
Isto porque ele, em sua concepção, não era otário... os outros é que eram... achava-se um grande malandro.
A piteira do Mirtô Grazzia
Eu conheço muitas pessoas que podem ser consideradas como boas de conversa. Pessoas que convencem qualquer um com bastante facilidade e das coisas mais absurdas.
Só que ainda não encontrei alguém que conseguisse suplantar Nilton Grazzia, proprietário de uma oficina multifuncional (fazia de tudo) até os primeiros anos da década de 70, quando faleceu. Apesar de seu nome ser Nilton, todos em Tatuí chamavam-no de Mirto Grazzia.
Em sua oficina ele realizava consertos mecânicos e de funilaria. Até hoje lembro do Tico, seu funcionário que passava os dias inteiros lixando latarias dos carros que lá estavam. E ponha lataria nisto, pois nessa época os carros, sem exceção, tinham latarias imensas e pesadas. Não se economizava material.
Quando o conheci, sua oficina ficava na Praça da Bandeira, mas logo depois mudou para a Rua 13 de Fevereiro, atrás do “Rustão”. Não sabe o que é o tal “rustão”? É o motor Ruston que gerava energia elétrica para a Fábrica Campos & Irmãos.
Esse motor ainda está no mesmo local, mas não funciona mais, mesmo porque a própria fábrica está desativada. Nesse motor há uma pequena passarela e escada, para fazer as manutenções. Enorme.
Mas vamos ao que interessa neste momento: na oficina do Nilton tinha um caminhão aguardando reparos, sem motor e sem o capô do motor. Já fazia um tempão que o caminhão estava na oficina. Tanto tempo que cresceu uma amoreira no lugar do motor e a árvore tinha uns 3 metros de altura quando ocorreram os fatos que conto aqui.
Eu tinha 16 anos e ia quase todos os dias na oficina do Nilton, para xeretar ou lixar a lataria de um Jeep 1951 que o Pingo estava reformando ou o Ford Coupe 1947 do Adrianinho. Nem sei se ajudava ou atrapalhava, mas estava todo dia por lá.
Eu e os amigos ainda saíamos passear com o Nilton. Andar com ele em seu Ford. Um bando de moleques escutando suas "papeadas"... Ele caprichava nas histórias que contava!
Nilton era um mecânico excelente. Seu Ford, um sedan 1937, estava sempre tinindo.
- Este é o melhor Ford do ramal de Itararé! – costumava papear.
Entretanto, como mecânico ele era o rei do improviso. A falta de peças não o assustava. Ele sempre improvisava alguma coisa para substituir. Além do Jeep, o Nilton reformou um Ford Coupe 1947 para o Adrianinho, pintando a jóia de amarelo “quibebe”. As duas reformas foram na mesma época, com pouco tempo de intervalo entre elas.
Não deixava de consertar seja lá o defeito que fosse. Certa vez, o Ford 47 do Adrianinho estava com muita folga na direção. Coisa de quase meia volta do volante. Não dava para guiar aquele carro pesado com essa folga na direção.
Nilton disse que poderia passar à tardinha que o carro já estaria consertado. Dito e feito! Parecia que era “zero quilometro”, de tão ajustada que ficou a direção. Nenhuma folga!
Isso é o que se chama de serviço profissional.
Mas não tinha garantia. E em poucos dias começou novamente a aparecer uma pequena folga. E a folga foi aumentando, aumentando, aumentando... já dava quase uma volta inteira no volante.
Desta vez Adrianinho não levou ao Nilton, mas em outro mecânico. Ao abrir a caixa de direção deu para perceber o problema: como o parafuso de ajuste não dava mais para apertar, Nilton deu uma “improvisada” com caco de telha, que colocou como calço. Imagine só, “embuchar” uma caixa de direção com caco de telha!!! Isso sim que é improvisação.
Uma tarde, eu e o Pingo estávamos sentados na frente da oficina, esperando que o Nilton viesse de seu almoço, abrir o portão para que pudéssemos entrar e mexer no Jeep.
Apareceu o dono do caminhão da amoreira, armado e enfurecido, dizendo que nesse dia mataria o Nilton, que não entregava seu caminhão. Disse que seu veículo estava lá havia 3 anos. O motor tinha desaparecido.
- Hoje eu mato o Mirto! – repetia sem parar.
Enquanto falava, parecia mesmo muito bravo... mostrava seu revólver o tempo todo. Todo mundo ficou assustado com aquilo. Eu torcia para o Nilton não aparecer. Mas ele veio.
Veio, o cara já começou a ficar alterado, gritava o tempo todo. Nilton colocou um cigarro em sua piteira, acendeu, e convidou o homem para entrarem. Entraram e ele fechou o portão e ficaram os dois sozinhos.
Passaram alguns minutos e já não se ouvia o homem gritando. Mas também não se ouvia nenhum tiro.
Mais alguns minutos passaram e resolvemos olhar por cima do muro, para descobrir o que acontecia.
Vimos o Nilton, conversando calmamente com seu freguês, com o revólver dele em sua mão, girando o tambor descarregado. Girava, girava... devolveu as balas para o dono e disse que o revólver estava com folga no tambor e que ele iria consertar...
- Vou mandar embuchar pra você! – disse Nilton, falando com a piteira entre os dentes e soltando algumas baforadas de fumaça no rosto do freguês.
Logo em seguida, abriu o portão, nós entramos e o cliente foi embora. Não estava mais bravo, saía com uma fisionomia esperançosa.
- Ô Mirto, o que você fez para acalmar o homem? Ele disse que ia matá-lo! - perguntei ao Nilton.
- Ah, eu coloco um pozinho na minha piteira – respondeu dando gargalhada – Solto umas baforadas da cara da pessoa e fica logo mansinho, mansinho!
No final da história, o homem, além do caminhão, agora deixava até o seu revólver na oficina do Nilton. E ainda foi embora contente!
Esse era o Nilton Grazzia com sua piteira enfeitiçada.
Só que ainda não encontrei alguém que conseguisse suplantar Nilton Grazzia, proprietário de uma oficina multifuncional (fazia de tudo) até os primeiros anos da década de 70, quando faleceu. Apesar de seu nome ser Nilton, todos em Tatuí chamavam-no de Mirto Grazzia.
Em sua oficina ele realizava consertos mecânicos e de funilaria. Até hoje lembro do Tico, seu funcionário que passava os dias inteiros lixando latarias dos carros que lá estavam. E ponha lataria nisto, pois nessa época os carros, sem exceção, tinham latarias imensas e pesadas. Não se economizava material.
Quando o conheci, sua oficina ficava na Praça da Bandeira, mas logo depois mudou para a Rua 13 de Fevereiro, atrás do “Rustão”. Não sabe o que é o tal “rustão”? É o motor Ruston que gerava energia elétrica para a Fábrica Campos & Irmãos.
Esse motor ainda está no mesmo local, mas não funciona mais, mesmo porque a própria fábrica está desativada. Nesse motor há uma pequena passarela e escada, para fazer as manutenções. Enorme.
Mas vamos ao que interessa neste momento: na oficina do Nilton tinha um caminhão aguardando reparos, sem motor e sem o capô do motor. Já fazia um tempão que o caminhão estava na oficina. Tanto tempo que cresceu uma amoreira no lugar do motor e a árvore tinha uns 3 metros de altura quando ocorreram os fatos que conto aqui.
Eu tinha 16 anos e ia quase todos os dias na oficina do Nilton, para xeretar ou lixar a lataria de um Jeep 1951 que o Pingo estava reformando ou o Ford Coupe 1947 do Adrianinho. Nem sei se ajudava ou atrapalhava, mas estava todo dia por lá.
Eu e os amigos ainda saíamos passear com o Nilton. Andar com ele em seu Ford. Um bando de moleques escutando suas "papeadas"... Ele caprichava nas histórias que contava!
Nilton era um mecânico excelente. Seu Ford, um sedan 1937, estava sempre tinindo.
- Este é o melhor Ford do ramal de Itararé! – costumava papear.
Entretanto, como mecânico ele era o rei do improviso. A falta de peças não o assustava. Ele sempre improvisava alguma coisa para substituir. Além do Jeep, o Nilton reformou um Ford Coupe 1947 para o Adrianinho, pintando a jóia de amarelo “quibebe”. As duas reformas foram na mesma época, com pouco tempo de intervalo entre elas.
Não deixava de consertar seja lá o defeito que fosse. Certa vez, o Ford 47 do Adrianinho estava com muita folga na direção. Coisa de quase meia volta do volante. Não dava para guiar aquele carro pesado com essa folga na direção.
Nilton disse que poderia passar à tardinha que o carro já estaria consertado. Dito e feito! Parecia que era “zero quilometro”, de tão ajustada que ficou a direção. Nenhuma folga!
Isso é o que se chama de serviço profissional.
Mas não tinha garantia. E em poucos dias começou novamente a aparecer uma pequena folga. E a folga foi aumentando, aumentando, aumentando... já dava quase uma volta inteira no volante.
Desta vez Adrianinho não levou ao Nilton, mas em outro mecânico. Ao abrir a caixa de direção deu para perceber o problema: como o parafuso de ajuste não dava mais para apertar, Nilton deu uma “improvisada” com caco de telha, que colocou como calço. Imagine só, “embuchar” uma caixa de direção com caco de telha!!! Isso sim que é improvisação.
Uma tarde, eu e o Pingo estávamos sentados na frente da oficina, esperando que o Nilton viesse de seu almoço, abrir o portão para que pudéssemos entrar e mexer no Jeep.
Apareceu o dono do caminhão da amoreira, armado e enfurecido, dizendo que nesse dia mataria o Nilton, que não entregava seu caminhão. Disse que seu veículo estava lá havia 3 anos. O motor tinha desaparecido.
- Hoje eu mato o Mirto! – repetia sem parar.
Enquanto falava, parecia mesmo muito bravo... mostrava seu revólver o tempo todo. Todo mundo ficou assustado com aquilo. Eu torcia para o Nilton não aparecer. Mas ele veio.
Veio, o cara já começou a ficar alterado, gritava o tempo todo. Nilton colocou um cigarro em sua piteira, acendeu, e convidou o homem para entrarem. Entraram e ele fechou o portão e ficaram os dois sozinhos.
Passaram alguns minutos e já não se ouvia o homem gritando. Mas também não se ouvia nenhum tiro.
Mais alguns minutos passaram e resolvemos olhar por cima do muro, para descobrir o que acontecia.
Vimos o Nilton, conversando calmamente com seu freguês, com o revólver dele em sua mão, girando o tambor descarregado. Girava, girava... devolveu as balas para o dono e disse que o revólver estava com folga no tambor e que ele iria consertar...
- Vou mandar embuchar pra você! – disse Nilton, falando com a piteira entre os dentes e soltando algumas baforadas de fumaça no rosto do freguês.
Logo em seguida, abriu o portão, nós entramos e o cliente foi embora. Não estava mais bravo, saía com uma fisionomia esperançosa.
- Ô Mirto, o que você fez para acalmar o homem? Ele disse que ia matá-lo! - perguntei ao Nilton.
- Ah, eu coloco um pozinho na minha piteira – respondeu dando gargalhada – Solto umas baforadas da cara da pessoa e fica logo mansinho, mansinho!
No final da história, o homem, além do caminhão, agora deixava até o seu revólver na oficina do Nilton. E ainda foi embora contente!
Esse era o Nilton Grazzia com sua piteira enfeitiçada.
O coração de ouro do Ditinho Cigano
Há uns 30 anos todos se reuniam na Praça da Matriz, como era costume nessa época. Formavam rodas de amigos, aqui e ali, todos conversando, rindo, fofocando... a cidade era menos violenta que hoje. Era possível até mesmo dormir em um banco da praça sem ser incomodado.
Praça da Matriz
A ninguenzada que povoa Tatuí e muitas outras cidades brasileiras estava apenas nascendo e crescendo. Não se reuniam em hordas.
Em uma madrugada, cerca de 30 anos passados, estávamos conversando na praça, como de costume.
De repente, apareceu alguém que avisou ter ocorrido um crime: o Ditinho Cigano havia sido baleado!
Alvoroço, todos queriam saber o que acontecera. Ditinho Cigano era bastante conhecido na cidade, era um verdadeiro galã.
Tatuí é uma cidade singular. Ciganos andam pelo mundo todo, mas aqui alguns grupos radicaram-se.
O fato havia acontecido poucos minutos antes, fomos até as proximidades da casa do Ditinho, para obter mais informações sobre o acontecido. Na verdade, isso quer dizer apenas xeretice. Saíram alguns carros da praça lotados de xeretas.
Chegando ao destino, encontramos uma confusão na frente da casa de uns ciganos vizinhos de Ditinho.
- Cabreúva atirou Ditinho!
Fomos perguntando o que havia acontecido e como estava o Ditinho, ao que responderam:
- Ditinho foi levado pra Sorocaba. Ele tá precisando de sangue! – uma das cigana mais velha exclamou.
- Que tipo de sangue? – um dos preocupados curiosos perguntou.
- Qualquer típu de sangue! O Ditinho tem coração de ouro, aceita qualquer típu de sangue! – respondeu a velha cigana, falando algumas palavras de maneira cantada, como no dialeto cigano, aumentando a confusão.
Alguns dos curiosos que lá estavam foram até Sorocaba, para doar sangue ao hospital onde estava o ferido. Mas quando chegaram era tarde demais, Ditinho não resistiu aos ferimentos e faleceu.
Um dos ciganos que lá estavam perguntou ao médico onde havia penetrado o projétil.
- Acertou a artéria! – respondeu o doutor.
- Ah, disse o cigano, acertô a veia artéria tem que morrer! – sentenciou.
Quando o corpo chegou já era dia. Chamaram o padre para fazer os últimos sacramentos ao defunto. Ciganos têm suas crenças, mas não dispensam as cerimônias católicas.
O padre veio e aspergiu água benta no defunto, enquanto proferiu suas orações.
Assim que o padre saiu, chegou a avó do Ditinho. A matriarca de Tatuí.
Ela, muito triste, examinava o defunto cuidadosamente. De repente, descobriu uns pingos na face do defunto e cismou que ele estava suando:
- O defunto tá suando! Ditinho tá vivo! Ditinho tá vivo!
Enquanto falava, foi empurrando o caixão para fazer o morto levantar. Mas o que aconteceu foi que quase derrubou tudo por lá. O tal suor nada mais era que a água benta do padre!
Praça da Matriz
A ninguenzada que povoa Tatuí e muitas outras cidades brasileiras estava apenas nascendo e crescendo. Não se reuniam em hordas.
Em uma madrugada, cerca de 30 anos passados, estávamos conversando na praça, como de costume.
De repente, apareceu alguém que avisou ter ocorrido um crime: o Ditinho Cigano havia sido baleado!
Alvoroço, todos queriam saber o que acontecera. Ditinho Cigano era bastante conhecido na cidade, era um verdadeiro galã.
Tatuí é uma cidade singular. Ciganos andam pelo mundo todo, mas aqui alguns grupos radicaram-se.
O fato havia acontecido poucos minutos antes, fomos até as proximidades da casa do Ditinho, para obter mais informações sobre o acontecido. Na verdade, isso quer dizer apenas xeretice. Saíram alguns carros da praça lotados de xeretas.
Chegando ao destino, encontramos uma confusão na frente da casa de uns ciganos vizinhos de Ditinho.
- Cabreúva atirou Ditinho!
Fomos perguntando o que havia acontecido e como estava o Ditinho, ao que responderam:
- Ditinho foi levado pra Sorocaba. Ele tá precisando de sangue! – uma das cigana mais velha exclamou.
- Que tipo de sangue? – um dos preocupados curiosos perguntou.
- Qualquer típu de sangue! O Ditinho tem coração de ouro, aceita qualquer típu de sangue! – respondeu a velha cigana, falando algumas palavras de maneira cantada, como no dialeto cigano, aumentando a confusão.
Alguns dos curiosos que lá estavam foram até Sorocaba, para doar sangue ao hospital onde estava o ferido. Mas quando chegaram era tarde demais, Ditinho não resistiu aos ferimentos e faleceu.
Um dos ciganos que lá estavam perguntou ao médico onde havia penetrado o projétil.
- Acertou a artéria! – respondeu o doutor.
- Ah, disse o cigano, acertô a veia artéria tem que morrer! – sentenciou.
Quando o corpo chegou já era dia. Chamaram o padre para fazer os últimos sacramentos ao defunto. Ciganos têm suas crenças, mas não dispensam as cerimônias católicas.
O padre veio e aspergiu água benta no defunto, enquanto proferiu suas orações.
Assim que o padre saiu, chegou a avó do Ditinho. A matriarca de Tatuí.
Ela, muito triste, examinava o defunto cuidadosamente. De repente, descobriu uns pingos na face do defunto e cismou que ele estava suando:
- O defunto tá suando! Ditinho tá vivo! Ditinho tá vivo!
Enquanto falava, foi empurrando o caixão para fazer o morto levantar. Mas o que aconteceu foi que quase derrubou tudo por lá. O tal suor nada mais era que a água benta do padre!
Joaquinzinho "meia garrafa"
Toda cidade do interior tem seus tipos populares. Tatuí sempre foi pródiga nesse aspecto: Conde Matarazzo – andava pelas ruas juntando gravetos; Kique – um dos mais fortes chapas que já apareceram na cidade e que foi bastante admirado, até que a bebida o consumisse (havia até um bordão: “O quê, Kique!”); Zé Duarte – Do iú espíque engriche? Ele aprendeu umas frases em inglês e, apesar de seu fedor horrível, tentava conquistar as estudantes do ginásio e normalistas: - Ái love íu!; Mazzaropi; Super-homem; Ringo; Maria Boneca; Cida Jacaré; Bolinha; João Botuca, Zé Pacuera...
Todos esses tipos populares tinham algum tipo de problema, agravado sempre pelo álcool. Dá para afirmar que, com o efeito do álcool, quase todo mundo vira palhaço, às vezes para o bem e às vezes para o mal.
O Joaquim “Meia Garrafa” é um dos que conseguiram abandonar o alcoolismo. Já fazem mais de 20 anos que ele deixou de beber e leva uma boa vida, trabalhando e vivendo de seu trabalho.
Mas deixou histórias!!!! E como!!!
Pequenino, cara de caipira, um verdadeiro "mini capiau", mas dono de uma grande vivacidade. Ele mede, quando muito, 1,45m. Baixinho mesmo.
Na época em que bebia, nem precisava pagar. Acho que nunca pagou uma dose sequer, porque todos queriam sua companhia e lhe pagavam toda bebida que conseguisse beber.
Era muito divertido. Inventava casos e piadas. Tudo que ele dizia era engraçado. Costumava frequentar um determinado bar no Largo do Mercado, onde guardava sempre seu paletó pendurando em um prego que estava fixado na parede. Ficou uns dias sem aparecer (provalmente esteve preso) e, quando voltou ao bar, foi pendurar seu paletó. Mas haviam pintado as paredes e sumiu o tal prego. Ele comentou, engrossando sua voz:
- É só a gente sair de férias que mudam até o guarda-roupas! (GARGALHADA GERAL)
Era sempre assim, animava os bares onde ficava. Uma figura querida por todos.
Mas não era raro passar da conta e começar a fazer arruaças.
E, quando passava da conta, só havia uma solução: prender Joaquim Meia-Garrafa. No dia seguinte ele amanhecia sóbrio. Depois de tomar uma chuveirada de água fria na cadeia.
A cadeia de Tatuí, até o início da década de 70, era “risonha e franca”! Dá para dizer que, em comparação com a atual, era um luxo! As celas tinha assoalho e forro de madeira. O pé direito do imóvel é bem alto e, sendo assim, a temperatura no verão é fresca e no inverno aconchegante. No caso do Joaquim, as prisões podiam ser consideradas como cadeias de carnaval, pois duravam apenas 1 ou 2 dias. Só para ele dar uma paradinha. Logo que saía voltava às atividades... beber, beber e beber. A cadeia, para o Joaquim, era algo como um pit-stop!
Só que o delegado dessa época não agüentava mais ter de prender o Joaquim praticamente toda semana. E em algumas semanas ele foi preso mais de uma vez. Essa situação não podia continuar, era preciso dar uma lição no “Meia Garrafa”.
Assim, instruiu os policiais que, se fosse necessário prender novamente o tal, não tivessem dó. Ele teria que ser tratado como qualquer outro preso. O Joaquim, freqüentador assíduo da cadeia, era tratado com relativo “carinho”, pois até os policiais gostavam do danadinho.
No final de semana, eis que Joaquim estava fazendo arruaça novamente.
- Liga para o “quatro-oito”! – pediu o dono de um bar no largo do Mercado. Nessa época Tatuí tinha poucos telefones e o da cadeia era o número 48. Em poucos minutos lá estavam os “homens”, para guardar o Joaquim.
Enfiaram rapidamente o pequenino no camburão e levaram até a cadeia. Tiraram o Joaquim do veículo e conduziram até a cela. Desta vez o baixinho estava espirituoso e bramou, com a voz rouca, agressiva e alta:
- Abra a jaula que o leão vai entrar!
Os policiais responderam:
- Ah, é leão? Então vai levar umas “borrachadas”!
Rapidamente Joaquim Meia Garrafa rebateu, já com uma entonação mais “amigável”:
- Peraí! Tem dois tipos de leão: dos manso e dos bravo! Eu sou dos manso!
E a coisa toda virou em gargalhadas.
Esse era o Joaquinzinho Meia Garrafa, um personagem que não existe mais, apesar do senhor Joaquim ainda viver, mas deixou para sempre da bebida e as farras. É um homem muito sério. Sorte dele!
Todos esses tipos populares tinham algum tipo de problema, agravado sempre pelo álcool. Dá para afirmar que, com o efeito do álcool, quase todo mundo vira palhaço, às vezes para o bem e às vezes para o mal.
O Joaquim “Meia Garrafa” é um dos que conseguiram abandonar o alcoolismo. Já fazem mais de 20 anos que ele deixou de beber e leva uma boa vida, trabalhando e vivendo de seu trabalho.
Mas deixou histórias!!!! E como!!!
Pequenino, cara de caipira, um verdadeiro "mini capiau", mas dono de uma grande vivacidade. Ele mede, quando muito, 1,45m. Baixinho mesmo.
Na época em que bebia, nem precisava pagar. Acho que nunca pagou uma dose sequer, porque todos queriam sua companhia e lhe pagavam toda bebida que conseguisse beber.
Era muito divertido. Inventava casos e piadas. Tudo que ele dizia era engraçado. Costumava frequentar um determinado bar no Largo do Mercado, onde guardava sempre seu paletó pendurando em um prego que estava fixado na parede. Ficou uns dias sem aparecer (provalmente esteve preso) e, quando voltou ao bar, foi pendurar seu paletó. Mas haviam pintado as paredes e sumiu o tal prego. Ele comentou, engrossando sua voz:
- É só a gente sair de férias que mudam até o guarda-roupas! (GARGALHADA GERAL)
Era sempre assim, animava os bares onde ficava. Uma figura querida por todos.
Mas não era raro passar da conta e começar a fazer arruaças.
E, quando passava da conta, só havia uma solução: prender Joaquim Meia-Garrafa. No dia seguinte ele amanhecia sóbrio. Depois de tomar uma chuveirada de água fria na cadeia.
A cadeia de Tatuí, até o início da década de 70, era “risonha e franca”! Dá para dizer que, em comparação com a atual, era um luxo! As celas tinha assoalho e forro de madeira. O pé direito do imóvel é bem alto e, sendo assim, a temperatura no verão é fresca e no inverno aconchegante. No caso do Joaquim, as prisões podiam ser consideradas como cadeias de carnaval, pois duravam apenas 1 ou 2 dias. Só para ele dar uma paradinha. Logo que saía voltava às atividades... beber, beber e beber. A cadeia, para o Joaquim, era algo como um pit-stop!
Só que o delegado dessa época não agüentava mais ter de prender o Joaquim praticamente toda semana. E em algumas semanas ele foi preso mais de uma vez. Essa situação não podia continuar, era preciso dar uma lição no “Meia Garrafa”.
Assim, instruiu os policiais que, se fosse necessário prender novamente o tal, não tivessem dó. Ele teria que ser tratado como qualquer outro preso. O Joaquim, freqüentador assíduo da cadeia, era tratado com relativo “carinho”, pois até os policiais gostavam do danadinho.
No final de semana, eis que Joaquim estava fazendo arruaça novamente.
- Liga para o “quatro-oito”! – pediu o dono de um bar no largo do Mercado. Nessa época Tatuí tinha poucos telefones e o da cadeia era o número 48. Em poucos minutos lá estavam os “homens”, para guardar o Joaquim.
Enfiaram rapidamente o pequenino no camburão e levaram até a cadeia. Tiraram o Joaquim do veículo e conduziram até a cela. Desta vez o baixinho estava espirituoso e bramou, com a voz rouca, agressiva e alta:
- Abra a jaula que o leão vai entrar!
Os policiais responderam:
- Ah, é leão? Então vai levar umas “borrachadas”!
Rapidamente Joaquim Meia Garrafa rebateu, já com uma entonação mais “amigável”:
- Peraí! Tem dois tipos de leão: dos manso e dos bravo! Eu sou dos manso!
E a coisa toda virou em gargalhadas.
Esse era o Joaquinzinho Meia Garrafa, um personagem que não existe mais, apesar do senhor Joaquim ainda viver, mas deixou para sempre da bebida e as farras. É um homem muito sério. Sorte dele!
O terrível Tomaizinho das velhas
Tomaizinho foi meu tio-avô. Conversei muito pouco com ele, ou melhor, travávamos apenas um só diálogo desde o casamento de minha tia Neide, em 1960. Nesse casamento, como costuma acontecer, teve lá uns comes e bebes que ele não deixou passar em branco. A festa foi na casa de meu avô Ernestino, ali na esquina da praça do Barão.
Eu estava com meu pai no quintal da casa e encontramos com o Tomaizinho, que foi mexendo com meu pai, dizendo:
- Ô Antoninho das moças!
Não sei o porquê dessa alusão e meu pai nem mesmo ligou, pois o Tomaizinho estava já um tanto alegre. Mas eu, com meus 8 anos de idade, achei ruim! Respondi imediatamente:
- Ô Tomaizinho das velhas!
Ah, se eu soubesse não iria responder assim. Ao invés de ficar aborrecido, ele riu bastante e, desde esse dia, em todas as vezes que o encontrei, ele dizia para mim:
- Antoninho das moças!
Ao que eu respondia:
-Tomaizinho das velhas!
Só isso! E durante cerca de dez anos, até ele falecer, só conversamos isso: “Antoninho das moças” e “Tomaizinho das velhas”.
É muito pouco para uma pessoa que tinha milhares de histórias para contar e, sendo ele mesmo protagonista de situações incríveis.
Tomaizinho era terrível! Para perturbar minha tia Adalgisa, carola, ele dizia que queria ir para o inferno.
O céu, para Tomaizinho, era monótono, com rezas o dia todo
Achava que lá sim deveria ser um lugar gostoso, animado, ao contrário do céu, que na avaliação dele era horrível, cheio de pessoas rezando e com cara ‘comprida’.
No inferno, de acordo com suas suposições, seria uma farra total. Bailes, mulheres, cerveja a vontade, músicas animadas, alegria, risos. Era pra lá que queria ir! Mas enquanto esteve na Terra, aproveitou como pode... e, quando era Carnaval ele ficava todo assanhado.
Um certo Carnaval vestiu uma fantasia de Dominó e saiu pelas ruas da cidade, para fazer tudo que não dava para fazer com a cara descoberta.
Tomou algumas cervejas geladas, devidamente regadas a “quebra-gelo”, juntou-se a um outro maluco, colocou a fantasia e foi às ruas.
Só que ele mexia com as pessoas e todos falavam:
-Eh Tomaizinho!
Não conseguia ficar incógnito. Mas ele logo percebeu a razão disto.
A máscara cobria toda sua cabeça, na parte da frente descia até seu tórax, mas a parte inferior era um tanto curta. Seu pescoço ficava à mostra.
E que pescoço!
Tomaizinho tinha um pescoço gordo, inconfundível. A máscara ficou curta atrás e deixava aparecer essa parte do corpo. Todos reconheciam imediatamente.
Ele ficou irritadíssimo e exclamou:
- Mardito pescoço!
Mas mesmo assim continuou a andar com a fantasia. Mexia com um, que logo o reconhecia, e repetia:
- Mardito pescoço!
E assim foi durante o dia todo.
Esta outra passagem foi contada pelo Cícero, um de seus filhos:
As compras da tipografia, da livraria e da loja dele eram feitas em São Paulo. Ele, pessoalmente, costumava ir para comprar. Ia, por exemplo, numa terça-feira, saia de madrugada de Tatuí, tomava um trem e logo estava na capital. Passava o resto desse dia, o dia seguinte, quarta-feira e retornava no outro dia, quinta-feira.
As compras eram acompanhadas por festas! Restaurantes, bares, teatros, shows, etc. e tal. Ele podia, tinha dinheiro.
Para ir até a Estação Ferroviária, fazia seu filho levá-lo em seu Ford Prefect. E buscar também. O prazer de Tomaizinho era dizer aos motoristas de carro praça, quando lhes ofereciam o carro:
- Não preciso, eu tenho o meu!
Hoje o carro de praça é chamado de táxi.
Certo dia, Cícero estava indo para a estação, no horário da chegada do trem de São Paulo, para buscar seu pai.
No caminho encontrou com o Dante soldado, policial antigo de Tatuí, que ia apressado para a mesma direção que ele. Parou o carro e perguntou ao Dante:
-Onde vai?
- Estou indo até a Estação - respondeu Dante.
- Entre aqui! Eu também estou indo para lá - convidou Cícero.
Dante aceitou, pois estava um tanto atrasado. Naquele tempo a polícia não tinha viaturas como atualmente. E quando tinha, sempre estava com o delegado ou outro superior. Nunca para os policiais. Bem, se a polícia não tinha veículos, os bandidos muito menos. A violência era muito menor. As coisas resolviam-se com facilidade.
Cícero perguntou ao Dante o que ia fazer na Estação e ele respondeu:
- Estou indo até a Estação. Telegrafaram do trem que um arruaceiro que está fazendo das maiores no trem! Vou prendê-lo – disse Dante.
- E você, que vai fazer na Estação? – perguntou Dante ao Cícero.
Vou indo buscar meu pai.
Mas as coincidências sempre acontecem. Quando o trem chegou, perceberam que esperavam o mesmo passageiro. Era o Tomaizinho que tinha exagerado nas cervejas e ficou aborrecido com o fato do Carro Restaurante ter seguido pela linha tronco e durante a viagem de Iperó a Tatuí teve que ficar em um vagão comum. Fez o maior auê no trem!
Ele queria continuar no carro restaurante. É interessante lembrar que os trens vinham com o Carro Restaurante até Iperó, onde havia baldeação para o Ramal de Itararé (Iperó a Itararé). Como o carro restaurante sempre seguia pela linha tronco, e quem vinha para estes lados não tinha onde se alimentar (a não ser com os inúmeros vendedores que entravam nos trens, oferecendo pão com mortadela e biscoitos de polvilho), o trecho ficou conhecido com “Ramal da Fome”, pois quem viajava por aqui não tinha restaurante. Deu tanto azar esse apelido, que a região é a mais pobre do Estado de São Paulo.
Mas voltando aos nossos amigos.
Quando Cícero viu que seu pai era o arruaceiro, preocupou-se.
O Dante já ficou chateado. Imagine, como ele iria prender o Tomaizinho? O homem era importante na sociedade. Prendê-lo seria pedir para ser transferido para as barrancas do rio Paraná.
Resolveram facilmente:
Tomaizinho, Cícero e Dante entraram no Prefect, devidamente carregado com as compras feitas em São Paulo, e logo vieram para a cidade. Todos assistiram o arruaceiro sair com a polícia.
Foram até a casa de Tomaizinho. O Dante ajudou a desembarcar as compras que estavam no carro, tomou um cafezinho, despediu-se e foi embora. Ele não era louco! Imagine... prender Tomaizinho!!!! Eu, hein!!!
Eu estava com meu pai no quintal da casa e encontramos com o Tomaizinho, que foi mexendo com meu pai, dizendo:
- Ô Antoninho das moças!
Não sei o porquê dessa alusão e meu pai nem mesmo ligou, pois o Tomaizinho estava já um tanto alegre. Mas eu, com meus 8 anos de idade, achei ruim! Respondi imediatamente:
- Ô Tomaizinho das velhas!
Ah, se eu soubesse não iria responder assim. Ao invés de ficar aborrecido, ele riu bastante e, desde esse dia, em todas as vezes que o encontrei, ele dizia para mim:
- Antoninho das moças!
Ao que eu respondia:
-Tomaizinho das velhas!
Só isso! E durante cerca de dez anos, até ele falecer, só conversamos isso: “Antoninho das moças” e “Tomaizinho das velhas”.
É muito pouco para uma pessoa que tinha milhares de histórias para contar e, sendo ele mesmo protagonista de situações incríveis.
Tomaizinho era terrível! Para perturbar minha tia Adalgisa, carola, ele dizia que queria ir para o inferno.
O céu, para Tomaizinho, era monótono, com rezas o dia todo
Achava que lá sim deveria ser um lugar gostoso, animado, ao contrário do céu, que na avaliação dele era horrível, cheio de pessoas rezando e com cara ‘comprida’.
No inferno, de acordo com suas suposições, seria uma farra total. Bailes, mulheres, cerveja a vontade, músicas animadas, alegria, risos. Era pra lá que queria ir! Mas enquanto esteve na Terra, aproveitou como pode... e, quando era Carnaval ele ficava todo assanhado.
Um certo Carnaval vestiu uma fantasia de Dominó e saiu pelas ruas da cidade, para fazer tudo que não dava para fazer com a cara descoberta.
Tomou algumas cervejas geladas, devidamente regadas a “quebra-gelo”, juntou-se a um outro maluco, colocou a fantasia e foi às ruas.
Só que ele mexia com as pessoas e todos falavam:
-Eh Tomaizinho!
Não conseguia ficar incógnito. Mas ele logo percebeu a razão disto.
A máscara cobria toda sua cabeça, na parte da frente descia até seu tórax, mas a parte inferior era um tanto curta. Seu pescoço ficava à mostra.
E que pescoço!
Tomaizinho tinha um pescoço gordo, inconfundível. A máscara ficou curta atrás e deixava aparecer essa parte do corpo. Todos reconheciam imediatamente.
Ele ficou irritadíssimo e exclamou:
- Mardito pescoço!
Mas mesmo assim continuou a andar com a fantasia. Mexia com um, que logo o reconhecia, e repetia:
- Mardito pescoço!
E assim foi durante o dia todo.
Esta outra passagem foi contada pelo Cícero, um de seus filhos:
As compras da tipografia, da livraria e da loja dele eram feitas em São Paulo. Ele, pessoalmente, costumava ir para comprar. Ia, por exemplo, numa terça-feira, saia de madrugada de Tatuí, tomava um trem e logo estava na capital. Passava o resto desse dia, o dia seguinte, quarta-feira e retornava no outro dia, quinta-feira.
As compras eram acompanhadas por festas! Restaurantes, bares, teatros, shows, etc. e tal. Ele podia, tinha dinheiro.
Para ir até a Estação Ferroviária, fazia seu filho levá-lo em seu Ford Prefect. E buscar também. O prazer de Tomaizinho era dizer aos motoristas de carro praça, quando lhes ofereciam o carro:
- Não preciso, eu tenho o meu!
Hoje o carro de praça é chamado de táxi.
Certo dia, Cícero estava indo para a estação, no horário da chegada do trem de São Paulo, para buscar seu pai.
No caminho encontrou com o Dante soldado, policial antigo de Tatuí, que ia apressado para a mesma direção que ele. Parou o carro e perguntou ao Dante:
-Onde vai?
- Estou indo até a Estação - respondeu Dante.
- Entre aqui! Eu também estou indo para lá - convidou Cícero.
Dante aceitou, pois estava um tanto atrasado. Naquele tempo a polícia não tinha viaturas como atualmente. E quando tinha, sempre estava com o delegado ou outro superior. Nunca para os policiais. Bem, se a polícia não tinha veículos, os bandidos muito menos. A violência era muito menor. As coisas resolviam-se com facilidade.
Cícero perguntou ao Dante o que ia fazer na Estação e ele respondeu:
- Estou indo até a Estação. Telegrafaram do trem que um arruaceiro que está fazendo das maiores no trem! Vou prendê-lo – disse Dante.
- E você, que vai fazer na Estação? – perguntou Dante ao Cícero.
Vou indo buscar meu pai.
Mas as coincidências sempre acontecem. Quando o trem chegou, perceberam que esperavam o mesmo passageiro. Era o Tomaizinho que tinha exagerado nas cervejas e ficou aborrecido com o fato do Carro Restaurante ter seguido pela linha tronco e durante a viagem de Iperó a Tatuí teve que ficar em um vagão comum. Fez o maior auê no trem!
Ele queria continuar no carro restaurante. É interessante lembrar que os trens vinham com o Carro Restaurante até Iperó, onde havia baldeação para o Ramal de Itararé (Iperó a Itararé). Como o carro restaurante sempre seguia pela linha tronco, e quem vinha para estes lados não tinha onde se alimentar (a não ser com os inúmeros vendedores que entravam nos trens, oferecendo pão com mortadela e biscoitos de polvilho), o trecho ficou conhecido com “Ramal da Fome”, pois quem viajava por aqui não tinha restaurante. Deu tanto azar esse apelido, que a região é a mais pobre do Estado de São Paulo.
Mas voltando aos nossos amigos.
Quando Cícero viu que seu pai era o arruaceiro, preocupou-se.
O Dante já ficou chateado. Imagine, como ele iria prender o Tomaizinho? O homem era importante na sociedade. Prendê-lo seria pedir para ser transferido para as barrancas do rio Paraná.
Resolveram facilmente:
Tomaizinho, Cícero e Dante entraram no Prefect, devidamente carregado com as compras feitas em São Paulo, e logo vieram para a cidade. Todos assistiram o arruaceiro sair com a polícia.
Foram até a casa de Tomaizinho. O Dante ajudou a desembarcar as compras que estavam no carro, tomou um cafezinho, despediu-se e foi embora. Ele não era louco! Imagine... prender Tomaizinho!!!! Eu, hein!!!
Juro e Capitár
Não conheci nenhum de meus bisavos. Pouca gente conhece esses seus parentes, como foi meu caso. O protagonista deste causo é o Joaquim dos Santos Silveira, pai de meu avô Ernestino. Quem me contou esta passagem foi o Chico Bento, morador antigo do bairro Jurumirim, homônimo do personagem de Maurício de Souza e que conheceu Joaquim dos Santos.
Joaquim dos Santos tinha audição seletiva. Audição seletiva? Que seria isto?
Bem, alguns achavam que o Joaquim dos Santos era surdo, pois parecia nada escutar. Entretanto, o tal era, na verdade, esperto, pois quando minha bisavó lhe pedia:
- Joaquim, vai buscar água no poço!
Ele logo dizia:
- Não estou escutando nada...!!! e ia saindo de fininho.
Mas se a conversa versasse sobre dinheiro, ele escutava tudo e ainda dava suas opiniões. Também, quando outras coisas o interessassem, certamente escutaria tudo, com todos os detalhes mais importantes.
Na verdade, Joaquim dos Santos, “elegia” aquilo que desejava escutar, selecionando dentre os assuntos que alguém conversasse. Então, sua audição pode ser descrita como seletiva ou eletiva: só participava de conversas que fossem do interesse dele.
Se pensarmos direito, dá para perceber que a maior parte do que se fala bem que poderia ter sido omitido, valorizando o silêncio. Não só o que é falado como o que é escrito... É um grande absurdo a quantidade de palavras que se repetem em cada texto para dar sentido a uma só expressão, a um só assunto...
O sítio onde vivia Joaquim dos Santos ficava perto da Fazenda do Paiol. Não sei quanto tinha “de chão”, mas sei que não era pequeno. A maior parte ficava no bairro Pederneiras. Começava nas Pederneiras e ia até o município de Itapetininga, mas tinha uma parte na Enxovia, que era o local preferido dele para plantar. Hoje teria o rótulo de “fazenda”, pois resolveram distinguir sítio de fazenda apenas pelo tamanho da área. E qual era a distinção dessa época? Não era o tamanho, pois havia muitos sítios com maior área que algumas fazendas.
A distinção entre sítio e fazenda era feita devido ao controle que se dava para cada um dessas denominações. Enquanto que o sítio era algo tratado quase que sem planejamento, condicionado ao tempo, ao “Deus dará”, a fazenda tinha planejamento e controle.
A propriedade de Joaquim dos Santos era tratada com carinho, mas não tinha o controle necessário para classificá-la como fazenda. Produzia, no entanto, para o consumo e para vender o excedente. Tanto que, aos domingos, não se ordenhava com fins comerciais.
Todos os domingos, logo bem cedinho, os vizinhos menos favorecidos iam ao sítio de meu bisavô para ordenhar as vacas e levar para casa o leite. Era o prazer de minha bisavó Maria Rita, ver aquelas pessoas conversando, rindo e tomando todo leite que conseguiam ordenhar.
Mesmo deixando de vender o leite dos domingos, o resultado do trabalho do sítio permitia que meu bisavô tivesse algum dinheiro guardado. Aproveitava e sempre tinha um dinheirinho emprestado a juros. Gostava de ganhar um “jurinho”. Destaquei essa palavra pois em nada se parece com o que se cobra atualmente. As taxas de juros iam de 1% a, quando muito, 1,5%. Um agiota cobrava cerca de 3%!!!
Era morador antigo da região, bastante conhecido e, com isto, ele tinha inúmeros afilhados. Certo dia, um afilhado de batismo veio convidá-lo para ser, agora, seu padrinho de casamento. Acontece que este rapaz havia tomado um dinheiro emprestado de meu bisavô e estava um pouco atrasado com o pagamento dos juros.
Ele veio, conversou com minha bisavó e logo em seguida foi falar com nhô Joaquim:
- Padrinho, eu vou casar daqui uns dias e vim convidá mecê pra ser meu padrinho de casamento!
Joaquim, com sua audição eletiva, foi logo falando:
- Ah, pague só o capitár... Não precisa pagá ‘o juro’!
O rapaz logo foi corrigindo:
Nhô Joaquim, eu vim convidá mecê pra ser padrinho de casamento! Mecê não entendeu direito!
- Não, num precisa pagá ‘o juro’... pague só o capitár mesmo!
Minha bisavó correu para ajudar o afilhado em seu diálogo, tentando explicar direito para o marido o que o rapaz queria.
- Joaquim, não é isso que ele veio conversar!
Mas não adiantou. Meu bisavô ficou bravo e disse:
- Se eu tou falando que não quero receber ‘o juro’, é porque não quero mesmo!
Não houve entendimento. Ele fixou-se na história dos juros e do capital e não conversou mais. O rapaz teve que procurar outro padrinho. Em todo caso, não teve as despesas de apadrinhar o casamento e, pouco tempo depois, acabou recebendo seu capitár.
Joaquim dos Santos tinha audição seletiva. Audição seletiva? Que seria isto?
Bem, alguns achavam que o Joaquim dos Santos era surdo, pois parecia nada escutar. Entretanto, o tal era, na verdade, esperto, pois quando minha bisavó lhe pedia:
- Joaquim, vai buscar água no poço!
Ele logo dizia:
- Não estou escutando nada...!!! e ia saindo de fininho.
Mas se a conversa versasse sobre dinheiro, ele escutava tudo e ainda dava suas opiniões. Também, quando outras coisas o interessassem, certamente escutaria tudo, com todos os detalhes mais importantes.
Na verdade, Joaquim dos Santos, “elegia” aquilo que desejava escutar, selecionando dentre os assuntos que alguém conversasse. Então, sua audição pode ser descrita como seletiva ou eletiva: só participava de conversas que fossem do interesse dele.
Se pensarmos direito, dá para perceber que a maior parte do que se fala bem que poderia ter sido omitido, valorizando o silêncio. Não só o que é falado como o que é escrito... É um grande absurdo a quantidade de palavras que se repetem em cada texto para dar sentido a uma só expressão, a um só assunto...
O sítio onde vivia Joaquim dos Santos ficava perto da Fazenda do Paiol. Não sei quanto tinha “de chão”, mas sei que não era pequeno. A maior parte ficava no bairro Pederneiras. Começava nas Pederneiras e ia até o município de Itapetininga, mas tinha uma parte na Enxovia, que era o local preferido dele para plantar. Hoje teria o rótulo de “fazenda”, pois resolveram distinguir sítio de fazenda apenas pelo tamanho da área. E qual era a distinção dessa época? Não era o tamanho, pois havia muitos sítios com maior área que algumas fazendas.
A distinção entre sítio e fazenda era feita devido ao controle que se dava para cada um dessas denominações. Enquanto que o sítio era algo tratado quase que sem planejamento, condicionado ao tempo, ao “Deus dará”, a fazenda tinha planejamento e controle.
A propriedade de Joaquim dos Santos era tratada com carinho, mas não tinha o controle necessário para classificá-la como fazenda. Produzia, no entanto, para o consumo e para vender o excedente. Tanto que, aos domingos, não se ordenhava com fins comerciais.
Todos os domingos, logo bem cedinho, os vizinhos menos favorecidos iam ao sítio de meu bisavô para ordenhar as vacas e levar para casa o leite. Era o prazer de minha bisavó Maria Rita, ver aquelas pessoas conversando, rindo e tomando todo leite que conseguiam ordenhar.
Mesmo deixando de vender o leite dos domingos, o resultado do trabalho do sítio permitia que meu bisavô tivesse algum dinheiro guardado. Aproveitava e sempre tinha um dinheirinho emprestado a juros. Gostava de ganhar um “jurinho”. Destaquei essa palavra pois em nada se parece com o que se cobra atualmente. As taxas de juros iam de 1% a, quando muito, 1,5%. Um agiota cobrava cerca de 3%!!!
Era morador antigo da região, bastante conhecido e, com isto, ele tinha inúmeros afilhados. Certo dia, um afilhado de batismo veio convidá-lo para ser, agora, seu padrinho de casamento. Acontece que este rapaz havia tomado um dinheiro emprestado de meu bisavô e estava um pouco atrasado com o pagamento dos juros.
Ele veio, conversou com minha bisavó e logo em seguida foi falar com nhô Joaquim:
- Padrinho, eu vou casar daqui uns dias e vim convidá mecê pra ser meu padrinho de casamento!
Joaquim, com sua audição eletiva, foi logo falando:
- Ah, pague só o capitár... Não precisa pagá ‘o juro’!
O rapaz logo foi corrigindo:
Nhô Joaquim, eu vim convidá mecê pra ser padrinho de casamento! Mecê não entendeu direito!
- Não, num precisa pagá ‘o juro’... pague só o capitár mesmo!
Minha bisavó correu para ajudar o afilhado em seu diálogo, tentando explicar direito para o marido o que o rapaz queria.
- Joaquim, não é isso que ele veio conversar!
Mas não adiantou. Meu bisavô ficou bravo e disse:
- Se eu tou falando que não quero receber ‘o juro’, é porque não quero mesmo!
Não houve entendimento. Ele fixou-se na história dos juros e do capital e não conversou mais. O rapaz teve que procurar outro padrinho. Em todo caso, não teve as despesas de apadrinhar o casamento e, pouco tempo depois, acabou recebendo seu capitár.
Desastre no Del Fiol
Não se deve usar “desastre” para relatar, por exemplo, um acidente automobilístico. No tempo em que automóveis eram raros no país, acidentes ocorriam com menor freqüência e, então, dizia-se “aconteceu um desastre” com tal automóvel, ou com fulano em seu carro. Mas acidentes automobilísticos, mesmo os piores possíveis, já são considerados como algo comum e corriqueiro, que não comportam a expressão “desastre”. Por extensão, a palavra não pode ser utilizada em incidentes ou eventos corriqueiros, mas para descrever algo catastrófico.
Desastre: calamidade, acidente, desgraça, catástrofe, ruína, sinistro. Estes são apenas alguns dos sinônimos dessa palavra. Por esse motivo, pelo sentido calamitoso dessa palavra é que o fato aqui registrado pode ser considerado um verdadeiro desastre, como poderá ser constatado adiante.
Neste caso, excepcionalmente, o personagem principal não será identificado, porque todos os acontecimentos deram-se de maneira tal que ele manteve-se no absoluto anonimato. Assim, vamos consagrar este fato ao contar o “causo”.
O “herói” deste caso foi à Praça da Matriz para mais uma sessão filosófica, de conversas fiadas e, com toda certeza, piadas. Ele mesmo não dizia “piadas”, mas “anedotas”... Com sua enorme barriga não tinha muita agilidade. Sendo assim, mesmo residindo nas proximidades da Praça da Matriz, levava algum tempo no trajeto entre sua casa e a praça. Duas quadras, mas uma verdadeira viagem para ele, tamanho o esforço despendido para caminhar estes quase duzentos metros.
Desta vez, porém, foi ao senadinho sem considerar que havia tomado “uns purgantes”. Logo, sem qualquer aviso, começou a sentir, segundo suas próprias palavras, “umas facadas na barriga”. Era o efeito dos purgantes que começava a mandar avisos. Avisos de urgente, urgentíssimo. Praticamente era um “trabalho de parto”... começavam as contrações... o parto não tardava!!!
Aiaiaiaí! E agora? Não dava para voltar. O “neném” viria ao mundo antes de chegar em casa. Que fazer? Bar 80? Bar XV? Nem pensar... impossível encontrar um sanitário “sentável” em qualquer um desses lugares... Bar Central? Avemaria!!!! Quem o conheceu sabe muito bem que para esse tipo de “serviço” não dava... o rio de urina que corria ali dentro impedia qualquer tentativa!
Só restava o Hotel Del Fiol! Assim, “elegeu” o hotel para “trazer à luz” aquilo que avisava estar chegando, chegando com pressa, muita pressa. Um simples “pum” seria suficiente para “por tudo a perder”, no sentido literal dessa expressão.
Suando frio, dirigiu-se para o hotel com a maior velocidade que lhe foi possível, em face às condições daquele momento. A dor era terrível. Mulheres costumam dizer que homem não conhece o que é dor, pois não têm que parir seus filhos. A participação masculina é só na concepção. Depois disso, a coisa toda corre por conta das mães. Mas a dor daquele momento aproximava-se disso. As contrações tinham apenas alguns segundos de intervalo, uns momentos que aproveitava para respirar...
Entrou no hotel rapidamente, dirigindo-se para os fundos, no final de um corredor, onde havia um sanitário que geralmente ficava com as portas abertas, pois era utilizado pelos clientes que apenas freqüentavam o bar ou o restaurante do hotel.
O lay-out do hotel era muito diferente do atual. Havia, no primeiro bloco, um corredor central, os aposentos dos proprietários do lado direito e o bar e restaurante do lado esquerdo, formando um “L” nos fundos. Os quartos e apartamentos ficavam mais ao fundo, logo depois desse primeiro bloco.
Os tempos também eram outros, não havia guardas. Somente tinha o Vicente, que fazia um pouco de tudo: atendia aos hóspedes, aos clientes do bar e do restaurante.. Tudo, enfim, ele fazia tudo. Mas quando o Vicente não estava no balcão, quando saía uns minutos, nem precisava ter alguém por lá. Quem iria mexer em alguma coisa por lá? Ninguém! Hoje pode ter grades, guardas, seguranças, câmeras, etc., mas não há segurança para ninguém.
Com isto, entrou no hotel e não foi visto, mesmo porque não tinha ninguém pela entrada naquele momento. E depois, ele andava rápido como um raio! E o som do trovão “rugia” nos seus intestinos.
Quando há chuva com raios e trovões todos ficam assustados, principalmente as crianças. Para acalmá-las dizem que aquele barulhão todo é por que estão lavando os céus e que uns armários sendo empurrados... Bruuuuuuuuummmmm!!!
Ali, com nosso “herói”, a coisa fazia muito barulho também e aconteceria uma limpeza equivalente em todos os sentidos: Bruuuuuuuuummmmm!!! Só que o que estava sendo empurrado não era nenhum armário do céu.
Chegou, enfim, ao seu destino. Ou melhor, ao local onde daria destino final aos resíduos alimentares processados em seu aparelho digestivo. Eliminar o resultado de um processamento mais rápido, decorrente do efeito do purgante e que tinha pressa, exagerada pressa em finalizar as atividades internas, passando dos avisos para a ação propriamente dita.
Entrou sem fechar a porta com o trinco, seu cinto já estava aberto e desabotoava freneticamente os botões da braguilha: levou uma eternidade, ultrapassou o tempo em uns poucos segundos, mas o suficiente para espirrar meleca para todo canto... na parede, no chão, do lado de fora do vaso. Quando foi possível sentar, terminou de esvaziar-se no local adequado.
“Que alívio!” - a sensação de “dever cumprido” invadia sua alma!!!
- Assim que terminar o serviço eu dou uma lavada nisto tudo! – pensou nosso herói. Mas ao abrir a torneira da pia, aquela decepção: - Mardito Tatuí, não tem água! – exclamou em voz alta.
Fez uma tentativa com papel higiênico, mas tudo que conseguiu foi espalhar aquela coisa horrorosa e fedorenta pela parede, empestando os azulejos. E o chão, e tudo por ali... até em sua perna escorreu um pouco, que não conseguiu limpar. Tinha a impressão que até no teto havia mérda!
Só lhe restava uma saída: bater em retirada! E rápido!
Se isto não era uma alternativa honrosa, ficar por ali seria pior, muito pior... como explicar aquilo tudo? Não iriam acreditar, todos ficariam imaginando que ele havia jogado propositadamente com a mão.
Sorrateiramente saiu dali, estava mais ágil naquele momento, pesando uns 2 quilos a menos e sem aquela imensa pressão dentro de seu ventre.
Enquanto deslizava pelo corredor, escutou a Rita, funcionária antiga do hotel, cantando alegremente: “...O que é que a baiana tem... trá-lá-lá-lá..." Ele só queria sair incógnito e pensou: “Você já vai ver o que é que a baiana tem!!!”
Ninguém o viu saindo, mas quando chegou à porta de saída, já na rua, ele escutou a Rita gritando: - O QUE QUE É ISTO? QUE HORROOORR!!!! Seu Osvárdo do céu, venha ver o que fizeram aqui!!!
Todos os outros afazeres no hotel foram suspensos naquele dia e todos os funcionários deram duro para conseguir limpar a desgraça que ficou por lá... Resumindo todo o acontecimento em poucas palavras: uns segundos de atraso, poucos minutos de “obra” e três horas e meia para limpar.
E nosso amigo? Foi embora tomar um banho e trocar a roupa que estava toda melecada. Desastre total!
Desastre: calamidade, acidente, desgraça, catástrofe, ruína, sinistro. Estes são apenas alguns dos sinônimos dessa palavra. Por esse motivo, pelo sentido calamitoso dessa palavra é que o fato aqui registrado pode ser considerado um verdadeiro desastre, como poderá ser constatado adiante.
Neste caso, excepcionalmente, o personagem principal não será identificado, porque todos os acontecimentos deram-se de maneira tal que ele manteve-se no absoluto anonimato. Assim, vamos consagrar este fato ao contar o “causo”.
O “herói” deste caso foi à Praça da Matriz para mais uma sessão filosófica, de conversas fiadas e, com toda certeza, piadas. Ele mesmo não dizia “piadas”, mas “anedotas”... Com sua enorme barriga não tinha muita agilidade. Sendo assim, mesmo residindo nas proximidades da Praça da Matriz, levava algum tempo no trajeto entre sua casa e a praça. Duas quadras, mas uma verdadeira viagem para ele, tamanho o esforço despendido para caminhar estes quase duzentos metros.
Desta vez, porém, foi ao senadinho sem considerar que havia tomado “uns purgantes”. Logo, sem qualquer aviso, começou a sentir, segundo suas próprias palavras, “umas facadas na barriga”. Era o efeito dos purgantes que começava a mandar avisos. Avisos de urgente, urgentíssimo. Praticamente era um “trabalho de parto”... começavam as contrações... o parto não tardava!!!
Aiaiaiaí! E agora? Não dava para voltar. O “neném” viria ao mundo antes de chegar em casa. Que fazer? Bar 80? Bar XV? Nem pensar... impossível encontrar um sanitário “sentável” em qualquer um desses lugares... Bar Central? Avemaria!!!! Quem o conheceu sabe muito bem que para esse tipo de “serviço” não dava... o rio de urina que corria ali dentro impedia qualquer tentativa!
Só restava o Hotel Del Fiol! Assim, “elegeu” o hotel para “trazer à luz” aquilo que avisava estar chegando, chegando com pressa, muita pressa. Um simples “pum” seria suficiente para “por tudo a perder”, no sentido literal dessa expressão.
Suando frio, dirigiu-se para o hotel com a maior velocidade que lhe foi possível, em face às condições daquele momento. A dor era terrível. Mulheres costumam dizer que homem não conhece o que é dor, pois não têm que parir seus filhos. A participação masculina é só na concepção. Depois disso, a coisa toda corre por conta das mães. Mas a dor daquele momento aproximava-se disso. As contrações tinham apenas alguns segundos de intervalo, uns momentos que aproveitava para respirar...
Entrou no hotel rapidamente, dirigindo-se para os fundos, no final de um corredor, onde havia um sanitário que geralmente ficava com as portas abertas, pois era utilizado pelos clientes que apenas freqüentavam o bar ou o restaurante do hotel.
O lay-out do hotel era muito diferente do atual. Havia, no primeiro bloco, um corredor central, os aposentos dos proprietários do lado direito e o bar e restaurante do lado esquerdo, formando um “L” nos fundos. Os quartos e apartamentos ficavam mais ao fundo, logo depois desse primeiro bloco.
Os tempos também eram outros, não havia guardas. Somente tinha o Vicente, que fazia um pouco de tudo: atendia aos hóspedes, aos clientes do bar e do restaurante.. Tudo, enfim, ele fazia tudo. Mas quando o Vicente não estava no balcão, quando saía uns minutos, nem precisava ter alguém por lá. Quem iria mexer em alguma coisa por lá? Ninguém! Hoje pode ter grades, guardas, seguranças, câmeras, etc., mas não há segurança para ninguém.
Com isto, entrou no hotel e não foi visto, mesmo porque não tinha ninguém pela entrada naquele momento. E depois, ele andava rápido como um raio! E o som do trovão “rugia” nos seus intestinos.
Quando há chuva com raios e trovões todos ficam assustados, principalmente as crianças. Para acalmá-las dizem que aquele barulhão todo é por que estão lavando os céus e que uns armários sendo empurrados... Bruuuuuuuuummmmm!!!
Ali, com nosso “herói”, a coisa fazia muito barulho também e aconteceria uma limpeza equivalente em todos os sentidos: Bruuuuuuuuummmmm!!! Só que o que estava sendo empurrado não era nenhum armário do céu.
Chegou, enfim, ao seu destino. Ou melhor, ao local onde daria destino final aos resíduos alimentares processados em seu aparelho digestivo. Eliminar o resultado de um processamento mais rápido, decorrente do efeito do purgante e que tinha pressa, exagerada pressa em finalizar as atividades internas, passando dos avisos para a ação propriamente dita.
Entrou sem fechar a porta com o trinco, seu cinto já estava aberto e desabotoava freneticamente os botões da braguilha: levou uma eternidade, ultrapassou o tempo em uns poucos segundos, mas o suficiente para espirrar meleca para todo canto... na parede, no chão, do lado de fora do vaso. Quando foi possível sentar, terminou de esvaziar-se no local adequado.
“Que alívio!” - a sensação de “dever cumprido” invadia sua alma!!!
- Assim que terminar o serviço eu dou uma lavada nisto tudo! – pensou nosso herói. Mas ao abrir a torneira da pia, aquela decepção: - Mardito Tatuí, não tem água! – exclamou em voz alta.
Fez uma tentativa com papel higiênico, mas tudo que conseguiu foi espalhar aquela coisa horrorosa e fedorenta pela parede, empestando os azulejos. E o chão, e tudo por ali... até em sua perna escorreu um pouco, que não conseguiu limpar. Tinha a impressão que até no teto havia mérda!
Só lhe restava uma saída: bater em retirada! E rápido!
Se isto não era uma alternativa honrosa, ficar por ali seria pior, muito pior... como explicar aquilo tudo? Não iriam acreditar, todos ficariam imaginando que ele havia jogado propositadamente com a mão.
Sorrateiramente saiu dali, estava mais ágil naquele momento, pesando uns 2 quilos a menos e sem aquela imensa pressão dentro de seu ventre.
Enquanto deslizava pelo corredor, escutou a Rita, funcionária antiga do hotel, cantando alegremente: “...O que é que a baiana tem... trá-lá-lá-lá..." Ele só queria sair incógnito e pensou: “Você já vai ver o que é que a baiana tem!!!”
Ninguém o viu saindo, mas quando chegou à porta de saída, já na rua, ele escutou a Rita gritando: - O QUE QUE É ISTO? QUE HORROOORR!!!! Seu Osvárdo do céu, venha ver o que fizeram aqui!!!
Todos os outros afazeres no hotel foram suspensos naquele dia e todos os funcionários deram duro para conseguir limpar a desgraça que ficou por lá... Resumindo todo o acontecimento em poucas palavras: uns segundos de atraso, poucos minutos de “obra” e três horas e meia para limpar.
E nosso amigo? Foi embora tomar um banho e trocar a roupa que estava toda melecada. Desastre total!
Aventuras fluminenses e marítimas
As coisas não andavam muito bem para meus amigos Jaime e José "Cabreira” lá pelos idos de 1970. Os dois andavam mais “apertados” que porca com contraporca. Nessa época tanto um quanto outro estava trabalhando no ramo metalúrgico: o Cabreira era sócio de uma pequena serralheria e o Jaime era soldador em uma fábrica de carrocerias. Muito trabalho e pouco dinheiro.
Mas era a época do “milagre brasileiro” e a economia nacional andava a passos largos. Havia emprego para todos em todas as áreas. Como as coisas estavam momentaneamente ruins para os dois amigos, Jaime teve uma idéia, que repassou ao Cabreira: Trabalhar no Rio de Janeiro! Soube por amigos que tinha trabalho para soldadores em algumas construções importantes no Estado do Rio de Janeiro.
Arrumaram um pouco de dinheiro que, juntando com a fé em encontrar trabalho, parecia bastante, suficiente para a viagem pretendida. Alguns dias de planejamento e lá se foram os dois ao Rio de Janeiro.
Puxa, porque não haveria de ter trabalho para ambos, uns profissionais gabaritados em soldas. Jaime costumava soldar cabos de enxada, bicos de arado e até as ferragens de carroceria de caminhão. Serviço especializado, claro. Sua experiência em oficina de ferreiro lá de Cesário Lange não poderia ser desperdiçada. Já o Cabreira tinha experiência em área diferente, serralheria. Remendava vitrôs. Até mesmo se aventurava em lanternagem de veículos.
Assim, os dois especialistas da solda, metalúrgicos de gabarito, entusiasmados com as múltiplas possibilidades que a vida lhes abria, seguiram viagem conversando animadamente sobre o futuro, principalmente nas coisas que iriam adquirir com seu trabalho profissional.
Algumas horas de viagem e chegaram ao destino: obras na Baía de Sepetiba, provavelmente no início da construção do complexo portuário de Sepetiba, área metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. Só que eles chegaram quando finalizavam as obras. O trabalho de soldador terminara.
No momento em que o desânimo ia abatendo os dois valentes obreiros da metalurgia, a pessoa que os atendia falou que estava para começar, em Angra dos Reis, as obras para a primeira usina atômica brasileira. O início ainda demorava um pouquinho, mas eles poderiam encontrar trabalho provisoriamente nos estaleiros Velrome, que estava construindo diversos superpetroleiros, navios imensos para transportar petróleo da Arábia ao Brasil. Os navios eram construídos em aço e, portanto, precisavam dos préstimos de profissionais competentes na área de soldagem. Prática? Porque se preocupar, que poderia existir de tão diferente entre soldar casco de navio e cabos de enxada? Ou de remendar vitrôs de banheiros? Praticamente nada!
Dirigiram-se para Angra dos Reis ainda mais animados que antes, pois agora tinham não apenas uma, mas duas possibilidades de emprego: construir navios ou construir usinas nucleares.
Chegaram em Angra no dia seguinte, indo logo ao estaleiro. Tinham pressa em começar a trabalhar, mesmo porque o dinheiro estava no fim, bem no final. Quando iam ao estaleiro, o Cabreira perguntou onde seria construída a usina atômica. Logicamente que seus contatos eram sempre feitos em bares. Já tinham passado por mais de uma dezena deles e, como sempre foi um sujeito civilizado, procurava juntar o útil ao agradável, experimentando a pinga de cada região que passava. Isto ainda é seu costume, pois nunca deixou de provar as delicias alcoólicas de cada cidade que passou em toda sua vida. Só um trago, mas experimenta.
- Logo mais adiante, na praia de Itaoca! Alguém respondia sobre a futura localização da usina.
O Cabreira, erudito, começou a discutir com pessoas no bar os significados das palavras:
- Temos, perto de Tatuí, onde moramos, uma cidade chamada Itapetininga! “Ita”, em tupi-guarani, significa “pedra”. - Assim, filosofou, a usina deve estar sendo construída em um lugar bastante seguro! Seus conhecimentos em tupi-guarani não lhe permitiram traduzir adequadamente a palavra.
Só que os planejadores do governo talvez nem tivessem pensado em “interpretar” o significado da palavra “itaoca” quando decidiram construir lá uma usina nuclear. Itaoca, em tupi-guarani, significa “pedra podre”. O lugar escolhido para uma edificação de risco elevadíssimo foi reprovado pelos indígenas brasileiros: aquele lugar tinha um chão ruim para construir uma aldeia, com toda certeza... E para construir usina atômica? Aiaiai, será que o Brasil ainda vai dar certo?
Em busca de um futuro luminoso, o Jaime e o Cabreira chegam ao estaleiro e logo ficaram sabendo que teria um teste para saber se estariam aptos para o serviço. Se passassem no teste estariam automaticamente contratados.
Só que o tal teste aconteceria dentro de três dias. E aí? Como fazer para comer nestes dias, pois do dinheiro inicial sobraram apenas uns trocos? O encarregado do estaleiro, homem vivido, acabou percebendo o perereco deles e arrumou duas senhas para almoço e jantar em nome de duas pessoas que estavam ausentes naquela semana. João e Antonio da Silva, ou coisa semelhante.
Para dormir o encarregado arrumou um alojamento com mais uns trinta peões. Mas fazer o quê? Tinham que aceitar, visto que depois do teste praticamente estariam ricos!
A rotina dos dias de espera foi bárbara! Praia, bar, conhaque, pinga (mesmo sem dinheiro sempre há quem pague umas e outras para um cara agradável como o Cabreira). O Jaime nem precisava se esforçar para conversar, que o amigo ia “abrindo porteiras” nos relacionamentos à base de etílicos.
Depois de três dias de farra, chegou a hora do tal teste. Quando o Cabreira viu que tinha uma roupa especial para vestir, olhou com atenção e percebeu que nem mesmo aquela vestimenta ele conseguiria lidar corretamente, que dirá então do teste... uma solda que seria submetida ao raio X para buscar imperfeições!!!
Isso, porém, não abateu o Jaime, que ainda estava confiante. Que esse tal de raio X entende de soldas? Os cabos de enxada que soldou nunca tiveram problemas ou geraram reclamações...
Assim, depois de um esforço e de bastante ajuda externa, conseguiu “entrar dentro do equipamento”, vestindo aquela proteção. Foi fazer o teste, que consistia em soldar chapas do casco do navio, com perfeição tal que não permitisse qualquer vazamento.
O resultado? Ainda bem que foi apenas um teste, pois se tivesse soldado o casco de um navio, o naufrágio do Titanic seria fichinha perto dos resultados de um navio “emendado” pelo Jaime. Quase apanharam do encarregado, pelo tempo que ele perdeu atendendo aos dois.
O que lhes restava era voltar a Tatuí. Mas voltar como, se o dinheiro havia acabado? Perguntaram em seus pontos de informações (leia-se bares, botequins e botecos) e souberam que a Marinha tinha uma linha de barco que atendia aos ilhéus da região a preços extremamente baratos.
Perguntaram como funcionava esse transporte e outras particularidades. Resolveram ir embora de navio.
Quando chegou o horário da partida, dirigiram-se para o porto, compraram as passagens e aguardaram a hora de zarpar.
Antes de entrar no barco, o Cabreira foi tomar mais um conhaque, para criar coragem. Cada desculpa que arrumam para beber... com a quantidade que já havia bebido naquele dia, provavelmente teria coragem para enfrenta até o coisa-ruim!!!
E, assim, foram ao cais aguardar o navio. Era um cais flutuante, subia e descia, subia e descia, subia e descia e o Jaime foi ficando enjoado. Chegou o navio e os dois embarcaram rapidamente. Enquanto o barco partia, o Cabreira já foi perguntando a um marinheiro onde ficava o bar. O marinheiro ficou bravo e respondeu rispidamente que aquele era um navio da Marinha de Guerra do Brasil e que não servia bebida. Provavelmente só não servia para passageiros, pois o “bafo” do marinheiro afugentaria até aos monstros marinhos temidos pelos primeiros navegantes...
E o navio subia e descia, subia e descia, subia e descia enquanto o litoral desaparecia. Sobe e desce e o Jaime debruçou-se na murada para devolver à natureza tudo que tinha comido nos últimos dias. Sobe e desce, sobe e desce e chegam a uma ilha. Jogaram âncora e logo surgiram uns pequenos botes, com caiçaras e cabras, galinhas, pacotes, etc. e tal. Em cada ilhota a coisa era semelhante: caiçaras, cabritos, galinhas, pacotes... assim eram feito o abastecimento dos ilhéus e o comércio da região.
Mas quem viu isso tudo foi apenas o Cabreira, já que a “ocupação” do Jaime continuava na murada... parecia que não tinha mais nada, mas sempre “aparecia” alguma novidade... Éca!
Já era noite quando chegaram ao destino: Parati. Olhando do mar a cidadezinha era insignificante, pequena, quase sem iluminação.
O cais de Parati, ao contrário de Angra dos Reis, era fixo. A maré tinha baixado e o cais estava “lá em cima”... Como “descer” do navio se teriam de subir?
Os marinheiros estavam acostumados com isso. Formaram uma corrente de pessoas, dando um giro e praticamente jogam o freguês sobre o cais. Assim fizeram com todos. Logo estavam os dois olhando para a cidade lá do porto.
Se hoje Parati é uma espécie de museu, remanescente do Brasil Colônia, naquele tempo, década de 70, não tinha nada, pois não havia sido “descoberta” pelos turistas. Era, com toda certeza, um fim-de-mundo.
O Jaime, que havia passado horas terríveis no mar, usou de toda sua sensibilidade para descrever o que via:
- Acho que agora “cheguemo” no inferno!
Foram até o centro da cidade, procurar onde comer e dormir. Só no dia seguinte teriam como sair de lá, uma “jardineira” horrorosa que ia até São Luís do Paraitinga. No dia seguinte chegaram em São Luís. Chegou ao fim, nesse mesmo momento, o restinho de dinheiro que tinham. O recurso foi vender por uns 20 cruzeiros o relógio do Cabreira, que valia mais de 100!
Com o dinheiro apurado na venda do relógio conseguiram ir até São Paulo. Na rodoviária, que nessa ocasião era a mesma para Tatuí ou para o Rio de Janeiro, foram procurar algum conhecido que lhes emprestassem dinheiro para a passagem.
O Cabreira encontrou uma pessoa que lhe arrumou o dinheiro e comprou duas passagens: uma no ônibus de Tatuí e outra no ônibus de Itapetininga.
- Porque isso? perguntou o Jaime. - Ônibus separados?
- Por que eu não agüento ficar nem mais um minuto com você! Maroteou o Cabreira.
Hoje, quando lembram dos acontecimentos, riem bastante, mas nesse momento, o sonho de um futuro brilhante acabava de desaparecer... Todos os planos sumiram como fumaça. Um não agüentava mais o outro...
Mas o futuro tinha outros planos para ambos. São profissionais em outras áreas, completamente diferentes da metalurgia: um é corretor e outro advogado. A experiência fluminense serve para ficar no álbum de recordações de cada um, para lembrar de outros tempos que, se o dinheiro era curto, a vontade de crescer era maior.
Mas era a época do “milagre brasileiro” e a economia nacional andava a passos largos. Havia emprego para todos em todas as áreas. Como as coisas estavam momentaneamente ruins para os dois amigos, Jaime teve uma idéia, que repassou ao Cabreira: Trabalhar no Rio de Janeiro! Soube por amigos que tinha trabalho para soldadores em algumas construções importantes no Estado do Rio de Janeiro.
Arrumaram um pouco de dinheiro que, juntando com a fé em encontrar trabalho, parecia bastante, suficiente para a viagem pretendida. Alguns dias de planejamento e lá se foram os dois ao Rio de Janeiro.
Puxa, porque não haveria de ter trabalho para ambos, uns profissionais gabaritados em soldas. Jaime costumava soldar cabos de enxada, bicos de arado e até as ferragens de carroceria de caminhão. Serviço especializado, claro. Sua experiência em oficina de ferreiro lá de Cesário Lange não poderia ser desperdiçada. Já o Cabreira tinha experiência em área diferente, serralheria. Remendava vitrôs. Até mesmo se aventurava em lanternagem de veículos.
Assim, os dois especialistas da solda, metalúrgicos de gabarito, entusiasmados com as múltiplas possibilidades que a vida lhes abria, seguiram viagem conversando animadamente sobre o futuro, principalmente nas coisas que iriam adquirir com seu trabalho profissional.
Algumas horas de viagem e chegaram ao destino: obras na Baía de Sepetiba, provavelmente no início da construção do complexo portuário de Sepetiba, área metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. Só que eles chegaram quando finalizavam as obras. O trabalho de soldador terminara.
No momento em que o desânimo ia abatendo os dois valentes obreiros da metalurgia, a pessoa que os atendia falou que estava para começar, em Angra dos Reis, as obras para a primeira usina atômica brasileira. O início ainda demorava um pouquinho, mas eles poderiam encontrar trabalho provisoriamente nos estaleiros Velrome, que estava construindo diversos superpetroleiros, navios imensos para transportar petróleo da Arábia ao Brasil. Os navios eram construídos em aço e, portanto, precisavam dos préstimos de profissionais competentes na área de soldagem. Prática? Porque se preocupar, que poderia existir de tão diferente entre soldar casco de navio e cabos de enxada? Ou de remendar vitrôs de banheiros? Praticamente nada!
Dirigiram-se para Angra dos Reis ainda mais animados que antes, pois agora tinham não apenas uma, mas duas possibilidades de emprego: construir navios ou construir usinas nucleares.
Chegaram em Angra no dia seguinte, indo logo ao estaleiro. Tinham pressa em começar a trabalhar, mesmo porque o dinheiro estava no fim, bem no final. Quando iam ao estaleiro, o Cabreira perguntou onde seria construída a usina atômica. Logicamente que seus contatos eram sempre feitos em bares. Já tinham passado por mais de uma dezena deles e, como sempre foi um sujeito civilizado, procurava juntar o útil ao agradável, experimentando a pinga de cada região que passava. Isto ainda é seu costume, pois nunca deixou de provar as delicias alcoólicas de cada cidade que passou em toda sua vida. Só um trago, mas experimenta.
- Logo mais adiante, na praia de Itaoca! Alguém respondia sobre a futura localização da usina.
O Cabreira, erudito, começou a discutir com pessoas no bar os significados das palavras:
- Temos, perto de Tatuí, onde moramos, uma cidade chamada Itapetininga! “Ita”, em tupi-guarani, significa “pedra”. - Assim, filosofou, a usina deve estar sendo construída em um lugar bastante seguro! Seus conhecimentos em tupi-guarani não lhe permitiram traduzir adequadamente a palavra.
Só que os planejadores do governo talvez nem tivessem pensado em “interpretar” o significado da palavra “itaoca” quando decidiram construir lá uma usina nuclear. Itaoca, em tupi-guarani, significa “pedra podre”. O lugar escolhido para uma edificação de risco elevadíssimo foi reprovado pelos indígenas brasileiros: aquele lugar tinha um chão ruim para construir uma aldeia, com toda certeza... E para construir usina atômica? Aiaiai, será que o Brasil ainda vai dar certo?
Em busca de um futuro luminoso, o Jaime e o Cabreira chegam ao estaleiro e logo ficaram sabendo que teria um teste para saber se estariam aptos para o serviço. Se passassem no teste estariam automaticamente contratados.
Só que o tal teste aconteceria dentro de três dias. E aí? Como fazer para comer nestes dias, pois do dinheiro inicial sobraram apenas uns trocos? O encarregado do estaleiro, homem vivido, acabou percebendo o perereco deles e arrumou duas senhas para almoço e jantar em nome de duas pessoas que estavam ausentes naquela semana. João e Antonio da Silva, ou coisa semelhante.
Para dormir o encarregado arrumou um alojamento com mais uns trinta peões. Mas fazer o quê? Tinham que aceitar, visto que depois do teste praticamente estariam ricos!
A rotina dos dias de espera foi bárbara! Praia, bar, conhaque, pinga (mesmo sem dinheiro sempre há quem pague umas e outras para um cara agradável como o Cabreira). O Jaime nem precisava se esforçar para conversar, que o amigo ia “abrindo porteiras” nos relacionamentos à base de etílicos.
Depois de três dias de farra, chegou a hora do tal teste. Quando o Cabreira viu que tinha uma roupa especial para vestir, olhou com atenção e percebeu que nem mesmo aquela vestimenta ele conseguiria lidar corretamente, que dirá então do teste... uma solda que seria submetida ao raio X para buscar imperfeições!!!
Isso, porém, não abateu o Jaime, que ainda estava confiante. Que esse tal de raio X entende de soldas? Os cabos de enxada que soldou nunca tiveram problemas ou geraram reclamações...
Assim, depois de um esforço e de bastante ajuda externa, conseguiu “entrar dentro do equipamento”, vestindo aquela proteção. Foi fazer o teste, que consistia em soldar chapas do casco do navio, com perfeição tal que não permitisse qualquer vazamento.
O resultado? Ainda bem que foi apenas um teste, pois se tivesse soldado o casco de um navio, o naufrágio do Titanic seria fichinha perto dos resultados de um navio “emendado” pelo Jaime. Quase apanharam do encarregado, pelo tempo que ele perdeu atendendo aos dois.
O que lhes restava era voltar a Tatuí. Mas voltar como, se o dinheiro havia acabado? Perguntaram em seus pontos de informações (leia-se bares, botequins e botecos) e souberam que a Marinha tinha uma linha de barco que atendia aos ilhéus da região a preços extremamente baratos.
Perguntaram como funcionava esse transporte e outras particularidades. Resolveram ir embora de navio.
Quando chegou o horário da partida, dirigiram-se para o porto, compraram as passagens e aguardaram a hora de zarpar.
Antes de entrar no barco, o Cabreira foi tomar mais um conhaque, para criar coragem. Cada desculpa que arrumam para beber... com a quantidade que já havia bebido naquele dia, provavelmente teria coragem para enfrenta até o coisa-ruim!!!
E, assim, foram ao cais aguardar o navio. Era um cais flutuante, subia e descia, subia e descia, subia e descia e o Jaime foi ficando enjoado. Chegou o navio e os dois embarcaram rapidamente. Enquanto o barco partia, o Cabreira já foi perguntando a um marinheiro onde ficava o bar. O marinheiro ficou bravo e respondeu rispidamente que aquele era um navio da Marinha de Guerra do Brasil e que não servia bebida. Provavelmente só não servia para passageiros, pois o “bafo” do marinheiro afugentaria até aos monstros marinhos temidos pelos primeiros navegantes...
E o navio subia e descia, subia e descia, subia e descia enquanto o litoral desaparecia. Sobe e desce e o Jaime debruçou-se na murada para devolver à natureza tudo que tinha comido nos últimos dias. Sobe e desce, sobe e desce e chegam a uma ilha. Jogaram âncora e logo surgiram uns pequenos botes, com caiçaras e cabras, galinhas, pacotes, etc. e tal. Em cada ilhota a coisa era semelhante: caiçaras, cabritos, galinhas, pacotes... assim eram feito o abastecimento dos ilhéus e o comércio da região.
Mas quem viu isso tudo foi apenas o Cabreira, já que a “ocupação” do Jaime continuava na murada... parecia que não tinha mais nada, mas sempre “aparecia” alguma novidade... Éca!
Já era noite quando chegaram ao destino: Parati. Olhando do mar a cidadezinha era insignificante, pequena, quase sem iluminação.
O cais de Parati, ao contrário de Angra dos Reis, era fixo. A maré tinha baixado e o cais estava “lá em cima”... Como “descer” do navio se teriam de subir?
Os marinheiros estavam acostumados com isso. Formaram uma corrente de pessoas, dando um giro e praticamente jogam o freguês sobre o cais. Assim fizeram com todos. Logo estavam os dois olhando para a cidade lá do porto.
Se hoje Parati é uma espécie de museu, remanescente do Brasil Colônia, naquele tempo, década de 70, não tinha nada, pois não havia sido “descoberta” pelos turistas. Era, com toda certeza, um fim-de-mundo.
O Jaime, que havia passado horas terríveis no mar, usou de toda sua sensibilidade para descrever o que via:
- Acho que agora “cheguemo” no inferno!
Foram até o centro da cidade, procurar onde comer e dormir. Só no dia seguinte teriam como sair de lá, uma “jardineira” horrorosa que ia até São Luís do Paraitinga. No dia seguinte chegaram em São Luís. Chegou ao fim, nesse mesmo momento, o restinho de dinheiro que tinham. O recurso foi vender por uns 20 cruzeiros o relógio do Cabreira, que valia mais de 100!
Com o dinheiro apurado na venda do relógio conseguiram ir até São Paulo. Na rodoviária, que nessa ocasião era a mesma para Tatuí ou para o Rio de Janeiro, foram procurar algum conhecido que lhes emprestassem dinheiro para a passagem.
O Cabreira encontrou uma pessoa que lhe arrumou o dinheiro e comprou duas passagens: uma no ônibus de Tatuí e outra no ônibus de Itapetininga.
- Porque isso? perguntou o Jaime. - Ônibus separados?
- Por que eu não agüento ficar nem mais um minuto com você! Maroteou o Cabreira.
Hoje, quando lembram dos acontecimentos, riem bastante, mas nesse momento, o sonho de um futuro brilhante acabava de desaparecer... Todos os planos sumiram como fumaça. Um não agüentava mais o outro...
Mas o futuro tinha outros planos para ambos. São profissionais em outras áreas, completamente diferentes da metalurgia: um é corretor e outro advogado. A experiência fluminense serve para ficar no álbum de recordações de cada um, para lembrar de outros tempos que, se o dinheiro era curto, a vontade de crescer era maior.
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