Acho que este caso cabe muito bem aqui. Aconteceu comigo, pouco tempo depois de ter comprado meu Hyundai. Já faz 10 anos que estou com esse carro.
Certo domingo fui até o bairro de Americana, simplesmente porque não tinha outra coisa a fazer. Eu e a Janete. Em uma das curvas da estrada há um caminho que serve de entrada para algumas chácaras, utilizando o antigo leito da Sorocabana. Havia bem na entrada, um bambuzal que quase fechava tudo, formando uma espécie de túnel.
Sempre que passava por lá, tinha curiosidade de entrar naquele túnel de bambu e conhecer o lugar. Nesse domingo, como não tinha destino certo, resolvi entrar...
Saí da estrada asfaltada e entrei naquela mistura de trilha com estrada, pouco mais largo que uma estrada de ferro. Há diversas chácaras por lá, a maior parte delas de lazer. Um belo local.
Como estava apenas buscando conhecer, continuei seguindo aquela estradinha. Muito estreita, impossível de manobrar. Continuei o passeio até encontrar um lugar para retornar.
Entrei em uma curva. Do lado esquerdo o barranco estava mais alto. Do lado direito o mato crescia ao lado da cerca. De repente, dou de cara com um homem mascarado, com uma pistola automática na mão, escondido em uma moita na beira da estrada.
O olhar do mascarado não era amigável
O homem virou-se para mim... deu para perceber em seu olhar por trás da balaclava, que eu havia interrompido algo importante.
Pensei em voltar, mas era impossível. O caminho estreito demais para manobras. De um lado o barranco era bastante alto, do outro havia cerca de arame farpado. Teria que encontrar mais adiante um local para virar o carro. Engatei a primeira marcha e disse para a Janete segurar-se, pois se precisasse eu iria acelerar para fugir.
E a curva da estradinha, curva de estrada de ferro, ainda não havia terminado. Passei bem ao lado do sujeito mascarado, que nesse momento estava em pé. Alguns metros adiante, vi outro homem armado.
A cada instante a coisa ia piorando!
Desta vez era um barbudo, vestindo uma capa impermeável de cavaleiro (em dia de sol), com chapéu e armado com um rifle semelhante a Winchester.
“Epa! Estou no lugar errado na hora errada!” – pensei. “Devem ser alguns bandidos lutando entre si ou ‘desovando um presunto’”! – conclui.
Estava pronto para acelerar, como única alternativa para escapar daquela situação, quando dou de cara com mais um homem barbudo armado com revólver. Percebi que tinha um revólver na mão e outro no coldre.
O terceiro homem tinha um revólver na mão e outro na cinta
Eram três pessoas armadas naquele local semi-deserto.
Pensava em diversas coisas em frações de segundo... Arrependi-me da idéia de entrar naquele lugar. Como sair dessa situação??? Certamente que aqueles sujeitos não iriam deixar testemunhas de sua ação! Pensei em tudo, nos filhos, na vida, na Janete - coitada, estava ali ao meu lado -, na mãe!!!! Que situação!
Eu estava guiando bem devagar, para sentir as reações dos homens armados. A curva ainda não havia terminado. O barranco impedia enxergar o final da curva. Passei ao lado do barbudo que vestia a capa. Seu rosto demonstrava que ele estava muito contrariado com minha interrupção ali.
Que situação!!!
Olhei para ele. Tive a impressão que estava sujo. Barbudo e sujo. Tinha também um revólver, que guardava no coldre. Este deveria ser o chefe, pois os outros olhavam para ele, esperando alguma atitude dele ou ordem, talvez.
Eu dirigia com todo cuidado. A rotação do motor já estava um pouco mais alta. Os pés preparados para embrear, acelerar... eu ia tentar uma fuga. Esperava apenas uma reação dos homens.
Uns metros adiante, bem no final da curva, percebi mais uma pessoa. Estava bem no meio da estrada. Meu pensamento girava com o dobro da velocidade. Enquanto observava as reações dos outros três, considerei que teria de passar por cima da quarta pessoa. Ele estava impedindo minha passagem.
Este homem trazia algo sobre seus ombros. Uma bazuca? Não! Olhei melhor e reconheci essa pessoa. Tratava-se do professor Pedro Henrique com uma câmera VHS engatilhada.
Rapidamente entendi a situação. Com a redução do nível de adrenalina, foi possível reconhecer o barbudo. Aliás, barba postiça. Era o Expedito de Lima, carpinteiro, eletricista, quebra-galhos, ator, cineasta, produtor e diretor tatuiano. Fez dezenas de filmes. Quase todos eram faroestes. Lembro-me do título de um deles: “A Víbora Humana”. A atriz principal foi sua namorada.
Os outros eu não reconheci. O que dificultou um pouco para perceber que era o Expedito foi o inesperado. Quem poderia imaginar encontrar um bando de homens armados, fingindo, ou melhor, representando bandidos?
Expedito, como sempre, era o mocinho. Mas com sua fisionomia de caboclo, mais parecia um bandoleiro mexicano. Pensando bem, o filme poderia não ser faroeste, porque o mascarado usava uma pistola automática, parecida com aquela que o Fantasma do gibi usa!!!
Para dar impressão de veracidade, creio que ele havia rolado na poeira, sujando-se, pois estava imundo. Pensando bem, todos os integrantes do “cast” de Expedito, incluindo ele próprio, só poderiam fazer papel de bandidos... ninguém tinha cara de mocinho!
Nenhum dos três tinha cara de mocinho... pela aparência pareciam ser bandidos!
Pedro Henrique é um dos maiores cinéfilos tatuianos. Ele gostava tanto de cinema que trabalhou durante longos anos operando o projetor do Cine São Martinho. Tenho a impressão que nem cobrava pelo seu serviço!!! Depois do fechamento dos cinemas e com o aparecimento da filmadora VHS, passou a filmar, sempre que possível, alguns dos principais eventos de Tatuí.
Andei mais alguns metros e encontrei um lugar para manobrar o carro. Ufa! A sensação de alívio era enorme. Pudera, havia saído daquilo que parecia ser o próprio inferno.
Quem poderia imaginar que aquele local isolado havia sido transformado em cenário de filme de faroeste?
Algum tempo depois o tal filme foi apresentado em sessão organizada lá no barracão do Dedé. Não deu certo para eu ir assistir, mas ainda quero ver o danado...
Expedito sentia-se como John Wayne atuando, ao mesmo tempo em que era John Ford dirigindo...
Expedito fez inúmeros filmes e fotonovelas. Fotos preto e branco, coloridas... filmes Super-8, VHS... Tudo correndo por sua conta e risco. Não há investidores disponíveis. Tudo é difícil. Se fosse aos Estados Unidos, alguém iria financiar o Expedito que, certamente, estaria realizando filmes com equipamentos adequados e, provavelmente, fazendo sucesso. Mas aqui... Não tem futuro. Coisas do Brasil.
Aventuras tatuianas
Alguns tatuianos participaram de aventuras que se tornaram célebres na cidade. Pretende-se juntar aqui os acontecimentos mais comentados para que não sejam esquecidos. Esta primeira fase das "aventuras tatuianas" contempla os casos mais antigos, a maioria deles com 30, 40, 50 ou mais anos. Esta é a história não-oficial de Tatuí!
quinta-feira, julho 06, 2006
sábado, julho 01, 2006
Chico Sonho, o matador
Tatuí já foi famosa como terra de gente brava. Até Dioguinho (Diogo da Rocha Figueira ou Diogo da Silva Rocha), um bandido que, com seus capangas, assolava o interior paulista, matando a soldo dos barões do café, finalizou sua carreira aqui, morto por Chico Sonho, em uma tocaia bem no começo da subida no Morro Grande.
A morte de Dioguinho gerou inúmeras controvérsias, pois contavam que havia morrido aqui ou ali, mas sempre ressurgia. Em Tatuí, com Chico Sonho, acabou-se o bandido.
Bem, acabou um matador e surgiu outro, pois depois disso, Chico Sonho passou a ser o jagunço preferido dos coronéis e poderosos da época para resolver seus problemas.
Os primeiros da república foram marcados pelo coronelismo, vigorando praticamente durante toda a Republica Velha (1889-1930). A vontade dos coronéis era atendida por bem ou por mal. Na marra! Resumidamente, a situação caracterizava-se pela excessiva concentração de autoridade nas mãos de um único indivíduo, geralmente um fazendeiro próspero, um grande latifundiário. Os jagunços, uma espécie de milícia privada, eram a extensão de seus braços. Os poderosos mandavam e eram impunes. Isso acontecia em todo o país e não seria diferente em Tatuí.
Quando alguém precisava dos “serviços” do Chico Sonho, não adiantava apenas ir encomendar seus “préstimos”. Havia certo ritual. Ele queria conhecer detalhes a respeito de sua vítima, principalmente as coisas que este fez de ruim contra aquele que o contratara.
Em determinada ocasião, um coronel tatuiano precisou de um jagunço. Havia uma pessoa que estava incomodando, atrapalhando os planos do tal coronel. Os jagunços, também, tinham seu “lado”. Fulano só fazia seus “serviços” para determinado lado político. O outro lado tinha os seus próprios jagunços.
Desta vez, o “problema” tinha fotografia. O coronel, ao contratar os serviços do Chico Sonho, teve com ele uma boa conversa, explicando os motivos que o levaram a encomendar sua morte. Depois das explicações, entregou uma fotografia da pessoa a ser morta. Chico Sonho colocou o retrato no bolso e foi-se embora. Combinaram que a tocaia aconteceria no próximo final de semana, ocasião em que a tal pessoa apareceria na cidade.
Na seqüência, Chico Sonho passou aos seus preparativos. Colocou a fotografia do homem perto de sua cama e ficava durante horas olhando para ele. Só para encontrar ele mesmo um motivo para eliminar o cidadão.
Entretanto, talvez avisado da tocaia que lhe estava sendo preparada, a tal pessoa procurou o coronel para conversar. Em pouco tempo chegaram a um acordo, eliminando todos os entraves. A partir desse momento, aquele que gerava o problema tornou-se um aliado do coronel. Não havia mais necessidade dos serviços do jagunço.
O coronel chamou então um mensageiro e enviou-o até o Chico Sonho, para que este não executasse a ordem anterior. Não era mais para matar o tal homem.
Quando o mensageiro chegou ao sítio do Chico Sonho, encontrou-o deitado em uma rede, olhando para o retrato daquele que seria sua vítima enquanto limpava seu fuzil Mauser.
- Boa tarde, nhô Chico! Tenho recado do coronel – disse o mensageiro.
- Entre, cumpadre.... se assente! – respondeu – Que disse o coronel? – perguntou.
- O coronel mandou avisar que não é mais para matar esse fulano. Eles fizeram um acordo. – explicou.
- Ih, agora num dá mais. – disse Chico. – Já garrei reiva dele! Vô matá esse disgraçado! – completou.
Que situação. Em seus preparativos, Chico Sonho ficou olhando para a fotografia do homem durante horas e horas. Ele sempre fazia coisa semelhante, para ficar com raiva da pessoa que iria matar. Agora era tarde, ele queria matar não porque lhe fora encomendado, mas porque ele passou a odiar o indivíduo. E agora??? Será que isso acontecia apenas em Tatuí?
A morte de Dioguinho gerou inúmeras controvérsias, pois contavam que havia morrido aqui ou ali, mas sempre ressurgia. Em Tatuí, com Chico Sonho, acabou-se o bandido.
Bem, acabou um matador e surgiu outro, pois depois disso, Chico Sonho passou a ser o jagunço preferido dos coronéis e poderosos da época para resolver seus problemas.
Os primeiros da república foram marcados pelo coronelismo, vigorando praticamente durante toda a Republica Velha (1889-1930). A vontade dos coronéis era atendida por bem ou por mal. Na marra! Resumidamente, a situação caracterizava-se pela excessiva concentração de autoridade nas mãos de um único indivíduo, geralmente um fazendeiro próspero, um grande latifundiário. Os jagunços, uma espécie de milícia privada, eram a extensão de seus braços. Os poderosos mandavam e eram impunes. Isso acontecia em todo o país e não seria diferente em Tatuí.
Quando alguém precisava dos “serviços” do Chico Sonho, não adiantava apenas ir encomendar seus “préstimos”. Havia certo ritual. Ele queria conhecer detalhes a respeito de sua vítima, principalmente as coisas que este fez de ruim contra aquele que o contratara.
Em determinada ocasião, um coronel tatuiano precisou de um jagunço. Havia uma pessoa que estava incomodando, atrapalhando os planos do tal coronel. Os jagunços, também, tinham seu “lado”. Fulano só fazia seus “serviços” para determinado lado político. O outro lado tinha os seus próprios jagunços.
Desta vez, o “problema” tinha fotografia. O coronel, ao contratar os serviços do Chico Sonho, teve com ele uma boa conversa, explicando os motivos que o levaram a encomendar sua morte. Depois das explicações, entregou uma fotografia da pessoa a ser morta. Chico Sonho colocou o retrato no bolso e foi-se embora. Combinaram que a tocaia aconteceria no próximo final de semana, ocasião em que a tal pessoa apareceria na cidade.
Na seqüência, Chico Sonho passou aos seus preparativos. Colocou a fotografia do homem perto de sua cama e ficava durante horas olhando para ele. Só para encontrar ele mesmo um motivo para eliminar o cidadão.
Entretanto, talvez avisado da tocaia que lhe estava sendo preparada, a tal pessoa procurou o coronel para conversar. Em pouco tempo chegaram a um acordo, eliminando todos os entraves. A partir desse momento, aquele que gerava o problema tornou-se um aliado do coronel. Não havia mais necessidade dos serviços do jagunço.
O coronel chamou então um mensageiro e enviou-o até o Chico Sonho, para que este não executasse a ordem anterior. Não era mais para matar o tal homem.
Quando o mensageiro chegou ao sítio do Chico Sonho, encontrou-o deitado em uma rede, olhando para o retrato daquele que seria sua vítima enquanto limpava seu fuzil Mauser.
- Boa tarde, nhô Chico! Tenho recado do coronel – disse o mensageiro.
- Entre, cumpadre.... se assente! – respondeu – Que disse o coronel? – perguntou.
- O coronel mandou avisar que não é mais para matar esse fulano. Eles fizeram um acordo. – explicou.
- Ih, agora num dá mais. – disse Chico. – Já garrei reiva dele! Vô matá esse disgraçado! – completou.
Que situação. Em seus preparativos, Chico Sonho ficou olhando para a fotografia do homem durante horas e horas. Ele sempre fazia coisa semelhante, para ficar com raiva da pessoa que iria matar. Agora era tarde, ele queria matar não porque lhe fora encomendado, mas porque ele passou a odiar o indivíduo. E agora??? Será que isso acontecia apenas em Tatuí?
sexta-feira, junho 30, 2006
As telhas do Nino Küel
Nino Küel tinha uma olaria no bairro do Marapé. Bem ao lado do ribeirão Manduca. Um terreno grande, mas alagadiço, pois nele há o encontro de dois cursos d’água: o ribeirão que nasce nas proximidades do Matão da Tica e atravessa a Vila Esperança e o trecho que atravessa toda a cidade, desde o Valinho.
Chovia um pouco mais forte e a olaria do Nino ficava submersa, inclusive o forno, dando prejuízos enormes. Isso não acontecia antigamente, era coisa muito rara. Entretanto, com a pavimentação que impermeabilizou as ruas e o crescimento da cidade, a coisa passou a ser constante. Até mesmo a ponte da entrada da cidade foi danificada algumas vezes, devido ao volume da água nas chuvas.
Quando chovia forte, a água subia até chegar ao telhado da olaria.
Certamente que existiam alternativas para resolver o problema da olaria, mas Nino Küel fugia dos gastos e a coisa toda foi continuando. Depois de algumas enchentes, ele deixou de produzir na época de maior intensidade de chuvas, evitando maiores prejuízos.
Nino poderia ser considerado um filósofo. Suas ponderações sobre todos os acontecimentos, apesar de sempre ter uma pitada de humor, eram profundas… sua opinião era valiosa.
Conselhos ele dava de graça! Igual a algumas igrejas atuais, que cobram tudo de seus fiéis, fazendo Lutero revirar no túmulo, cujas únicas coisas que dão de graça são conselhos... e só os que lhes convêm.
- Você está demorando muito pra casar. Daí fica desatualizado e quer dar bibioquês de presentes aos filhos! – dizia Nino para alguns amigos solteirões. – E as crianças de agora querem videos-games! – completava.
E, para se ter uma idéia de seus pensamentos filosóficos, eis aqui um deles, relativo ao caráter efêmero da beleza feminina: “A feia tem uma pequena chance de melhorar, mas a linda não. Ela já é linda, não vai ficar mais linda. Vai é ficar feia!”.
- Conheço muitas senhoras elegantes e bonitas que não eram tão bonitas quando adolescentes - dizia Nino - Tenho visto, agora, algumas, que eram lindas, transformadas em verdadeiros dragões! - completava.
O tempo tem mostrado que o Nino Küel tinha mesmo razão nisso! Vale para homens e mulheres!
Mas vamos ao nosso caso! A olaria do Nino estava com um problema que não dava para ignorar: ele fabricava telhas francesas e a forma onde eram feitas as telhas empenou, fazendo com que as telhas produzidas não encaixassem, dando goteiras que davam a impressão que chovia mais sob o telhado que ao ar livre. Com isto, as vendas quase cessaram por completo.
- Ih, não está vendendo nada. – reclamava Nino – só sai telhas em sacoladas, para remendar alguma goteira! – explicava.
Vendas de olarias costumam sair em caminhões, mas as vendas do Nino cabiam em sacolas!!!
O estoque ia aumentando, deixando louco o Pedro Cornoló, seu forneiro, que dizia:
- Nino, precisa abrir um pouco a sua mão em comprar novas formas. Isto aqui não serve pra telhado!
Muito a contragosto, Nino teve que encomendar nova forma para suas telhas. Foi mesmo “na marra”, porque não era mesmo um gastador. Era bastante pão-duro. Nem tinha telefone. Quando alguém queria falar com ele ligava no armazém da esquina e o Ari ou o Zé corriam chamá-lo em sua casa ou nas proximidades. O Nino nunca descia até a olaria e também não parava dentro de sua casa. De nada adiantaria um telefone que não o encontrasse (resta lembrar que nessa época não havia celular).
As telhas costumam mostrar, em relevo, a identificação do fabricante, marca, endereço, telefone, etc. Quando Nino encomendou a nova forma de telhas, informou um número de telefone. Mas ele não tinha telefone!!!
Logo chegou a nova forma de telhas que o Nino encomendou. Beleza! Agora as telhas encaixavam direito.
- Tá na supimpeza! – como ele costumava dizer.
Logo que fabricou as primeiras telhas vi o material. Agora as telhas ficaram ótimas. O material produzido em sua olaria sempre teve boa fama. Mas desta vez havia um detalhe importante: As telhas traziam, em alto relevo, os dizeres: Cerâmica São José. E tinham um número de telefone: o telefone do armazém do Ari Macarrão e do Zé Quirera!!!
Para não gastar com telefone, Nino Küel colocou o telefone do armazém sem nem mesmo consultar os donos. Isso tudo para economizar com a conta do telefone. E o Zé Quirera e o Ari Macarrão, sem saber, tinham se transformado em seus secretários... gratuitos, é claro.
Os comentários do Nino Küel estão fazendo muita falta!!!
Chovia um pouco mais forte e a olaria do Nino ficava submersa, inclusive o forno, dando prejuízos enormes. Isso não acontecia antigamente, era coisa muito rara. Entretanto, com a pavimentação que impermeabilizou as ruas e o crescimento da cidade, a coisa passou a ser constante. Até mesmo a ponte da entrada da cidade foi danificada algumas vezes, devido ao volume da água nas chuvas.
Quando chovia forte, a água subia até chegar ao telhado da olaria.
Certamente que existiam alternativas para resolver o problema da olaria, mas Nino Küel fugia dos gastos e a coisa toda foi continuando. Depois de algumas enchentes, ele deixou de produzir na época de maior intensidade de chuvas, evitando maiores prejuízos.
Nino poderia ser considerado um filósofo. Suas ponderações sobre todos os acontecimentos, apesar de sempre ter uma pitada de humor, eram profundas… sua opinião era valiosa.
Conselhos ele dava de graça! Igual a algumas igrejas atuais, que cobram tudo de seus fiéis, fazendo Lutero revirar no túmulo, cujas únicas coisas que dão de graça são conselhos... e só os que lhes convêm.
- Você está demorando muito pra casar. Daí fica desatualizado e quer dar bibioquês de presentes aos filhos! – dizia Nino para alguns amigos solteirões. – E as crianças de agora querem videos-games! – completava.
E, para se ter uma idéia de seus pensamentos filosóficos, eis aqui um deles, relativo ao caráter efêmero da beleza feminina: “A feia tem uma pequena chance de melhorar, mas a linda não. Ela já é linda, não vai ficar mais linda. Vai é ficar feia!”.
- Conheço muitas senhoras elegantes e bonitas que não eram tão bonitas quando adolescentes - dizia Nino - Tenho visto, agora, algumas, que eram lindas, transformadas em verdadeiros dragões! - completava.
O tempo tem mostrado que o Nino Küel tinha mesmo razão nisso! Vale para homens e mulheres!
Mas vamos ao nosso caso! A olaria do Nino estava com um problema que não dava para ignorar: ele fabricava telhas francesas e a forma onde eram feitas as telhas empenou, fazendo com que as telhas produzidas não encaixassem, dando goteiras que davam a impressão que chovia mais sob o telhado que ao ar livre. Com isto, as vendas quase cessaram por completo.
- Ih, não está vendendo nada. – reclamava Nino – só sai telhas em sacoladas, para remendar alguma goteira! – explicava.
Vendas de olarias costumam sair em caminhões, mas as vendas do Nino cabiam em sacolas!!!
O estoque ia aumentando, deixando louco o Pedro Cornoló, seu forneiro, que dizia:
- Nino, precisa abrir um pouco a sua mão em comprar novas formas. Isto aqui não serve pra telhado!
Muito a contragosto, Nino teve que encomendar nova forma para suas telhas. Foi mesmo “na marra”, porque não era mesmo um gastador. Era bastante pão-duro. Nem tinha telefone. Quando alguém queria falar com ele ligava no armazém da esquina e o Ari ou o Zé corriam chamá-lo em sua casa ou nas proximidades. O Nino nunca descia até a olaria e também não parava dentro de sua casa. De nada adiantaria um telefone que não o encontrasse (resta lembrar que nessa época não havia celular).
As telhas costumam mostrar, em relevo, a identificação do fabricante, marca, endereço, telefone, etc. Quando Nino encomendou a nova forma de telhas, informou um número de telefone. Mas ele não tinha telefone!!!
Logo chegou a nova forma de telhas que o Nino encomendou. Beleza! Agora as telhas encaixavam direito.
- Tá na supimpeza! – como ele costumava dizer.
Logo que fabricou as primeiras telhas vi o material. Agora as telhas ficaram ótimas. O material produzido em sua olaria sempre teve boa fama. Mas desta vez havia um detalhe importante: As telhas traziam, em alto relevo, os dizeres: Cerâmica São José. E tinham um número de telefone: o telefone do armazém do Ari Macarrão e do Zé Quirera!!!
Para não gastar com telefone, Nino Küel colocou o telefone do armazém sem nem mesmo consultar os donos. Isso tudo para economizar com a conta do telefone. E o Zé Quirera e o Ari Macarrão, sem saber, tinham se transformado em seus secretários... gratuitos, é claro.
Os comentários do Nino Küel estão fazendo muita falta!!!
quinta-feira, junho 22, 2006
O maior cantor de serestas de Tatuí
Jarbinhas Sobral sempre foi um amante da música. Desde menino. Cantava e tocava violão nas serenatas desde o final da década de 60. Eu mesmo participei de algumas serenatas junto com ele. Em algumas ele soltava sua voz, encantando a homenageada, mas, vez por outra, entrava com algumas brincadeiras e trocando a letra das músicas em paródias horrorosas, fazia todo mundo sair correndo… Aquilo poderia até dar encrenca!!!
O danado tem uma bela voz! Quer dizer, não é um vozeirão de um Francisco Egídio ou Roberto Rosendo, mas é bom!
Seu repertório é mais ou menos eclético, mas tem uma queda para a música de seresta. Em Tatuí, durante algum tempo, teve até festival da seresta, uma tentativa de ressuscitar um gênero que teve seu auge no início do século passado. Alguns saudosos tentaram dar uma sobrevida ao gênero, mas isso significava o mesmo que fazer o Volkswagen de novo: sentar numa prancheta e recomeçar a desenhar o Fusca... não havia nenhuma vantagem nisso.
Nesse mesmo gênero musical, Bruno Baroni, outro tatuiano amante da música (e das corridas no Jockey, diga-se de passagem) tentou lançar-se como compositor de serestas.
Baroni ganhou o troféu abacaxi, que se recusou a pegar
Fez e apresentou na Discoteca do Chacrinha uma canção dedicada ao Velho Guerreiro, que lhe deu uma sonora buzinada e um abacaxi.
Entanto, sempre há público para músicas de seresta. São saudosistas que desejam relembrar momentos importantes de seu passado. É exatamente nisto que o extinto Festival da Seresta de Tatuí pecava: saudade requer tocar novamente as músicas existentes e não fazer novas composições sem ligação sentimental alguma.
Mas vamos voltar ao protagonista deste caso. Certo dia, cerca de quinze anos atrás, Roberto Rosendo, que nessa ocasião comandava um programa de seresta num canal de televisão de Itu, convidou o Jarbinhas para cantar em seu programa semanal. Claro que ele aceitou. Quem se dedica à música adora uma platéia, quanto mais sendo transmitido pela televisão... mesmo que fosse um canal com alcance apenas em uma pequena região.
No dia do programa, Jarbinhas foi para Itu com alguns amigos. Chegou bem adiantado... não seria ele a dar o cano. Conversou com os músicos que iriam acompanhá-lo em sua apresentação, ensaiou e ficou aguardando a hora de entrar em cena.
Ô enrolação!!! Programa de televisão tem que atender aos patrocinadores, tem uma seqüência a seguir e, para completar, talvez aumentado pela ansiedade do Jarbinhas, parecia que a “falação” do Rosendo não tinha fim... Entrava um artista, cantava 2 ou 3 minutos e o Rosendo preenchia o resto do tempo com 15 minutos de conversa... Anunciava que naquele programa receberia, para cantar, Jarbas Sobral, o maior cantor de seresta de Tatuí.
Com a ansiedade, Jarbinhas tinha impressão que o Rosendo não parava de falar com seu auditório
E o Jarbinhas esperando, desesperado!
Entra artista, sai artista e o Rosendo não parava de falar:
- Hoje receberemos aqui o maior seresteiro de Tatuí. O maior violonista da região de Tatuí! – repetia incessantemente Rosendo.
- Receberemos aqui o doutor Jarbas Sobral, o maior dentista da região de Tatuí! – empolgado, Rosendo continuava a valorizar seu convidado.
E canta um e canta outro, entra intervalo e sai intervalo, mas o Jarbinhas nunca era chamado.
O Rosendo continuava a anunciar “o maior seresteiro de Tatuí”. “O maior isto e o maior aquilo”.
E o Jarbinhas nervoso, ficava roendo suas unhas.
Depois de tanta enrolação, parecia que nem mesmo ia cantar. Mas chegou a tão esperada hora. Alguém apareceu e avisou ao Jarbinhas que ele entraria em seguida.
Daí parece que o Rosendo enlouqueceu:
- Vamos receber agora o maior cantor de seresta de Tatuí. O maior barítono da região, o melhor violonista, seresteiro aclamado pelas mais seletas platéias. O maior dentista de Tatuí. O cirurgião das elites! A voz mais afinada... o dentista musical!
- Com vocês: o grande Jarbas Sobral!
Jarbinhas, nervoso com a demora e a infindável apresentação, entrou no palco quase que tropeçando.
Por alguns instantes, Jarbinhas sentiu-se como um palhaço perdido
Quando chegou ou microfone, Rosendo continuou:
- Ele é também o maior contador de piadas de Tatuí!
- Jarbas, conte uma piada para nós! – disse Rosendo, sem qualquer prévia combinação.
- Ééééhhh! – o Jarbinhas engasgou. Não esperava isso, não lembrava de nenhuma piada. Aliás, não se lembrava nem mesmo o que estava fazendo ali... luzes, câmeras, aplausos...
Mas teve uma saída brilhante:
- Está feita a piada! – disse Jarbinhas – Faz quarenta anos que eu sonho em cantar na televisão e quando venho para cantar, pedem para eu contar uma piada!
Cantando, Jarbinhas encantou!
Nem o Rosendo esperava por essa escapada do Jarbinhas, que, logo em seguida, soltou seu vozeirão e cantou Carinhoso, para o delírio da platéia.
Artista é artista, sempre. Ainda mais quando é tatuiano.
O danado tem uma bela voz! Quer dizer, não é um vozeirão de um Francisco Egídio ou Roberto Rosendo, mas é bom!
Seu repertório é mais ou menos eclético, mas tem uma queda para a música de seresta. Em Tatuí, durante algum tempo, teve até festival da seresta, uma tentativa de ressuscitar um gênero que teve seu auge no início do século passado. Alguns saudosos tentaram dar uma sobrevida ao gênero, mas isso significava o mesmo que fazer o Volkswagen de novo: sentar numa prancheta e recomeçar a desenhar o Fusca... não havia nenhuma vantagem nisso.
Nesse mesmo gênero musical, Bruno Baroni, outro tatuiano amante da música (e das corridas no Jockey, diga-se de passagem) tentou lançar-se como compositor de serestas.
Baroni ganhou o troféu abacaxi, que se recusou a pegar
Fez e apresentou na Discoteca do Chacrinha uma canção dedicada ao Velho Guerreiro, que lhe deu uma sonora buzinada e um abacaxi.
Entanto, sempre há público para músicas de seresta. São saudosistas que desejam relembrar momentos importantes de seu passado. É exatamente nisto que o extinto Festival da Seresta de Tatuí pecava: saudade requer tocar novamente as músicas existentes e não fazer novas composições sem ligação sentimental alguma.
Mas vamos voltar ao protagonista deste caso. Certo dia, cerca de quinze anos atrás, Roberto Rosendo, que nessa ocasião comandava um programa de seresta num canal de televisão de Itu, convidou o Jarbinhas para cantar em seu programa semanal. Claro que ele aceitou. Quem se dedica à música adora uma platéia, quanto mais sendo transmitido pela televisão... mesmo que fosse um canal com alcance apenas em uma pequena região.
No dia do programa, Jarbinhas foi para Itu com alguns amigos. Chegou bem adiantado... não seria ele a dar o cano. Conversou com os músicos que iriam acompanhá-lo em sua apresentação, ensaiou e ficou aguardando a hora de entrar em cena.
Ô enrolação!!! Programa de televisão tem que atender aos patrocinadores, tem uma seqüência a seguir e, para completar, talvez aumentado pela ansiedade do Jarbinhas, parecia que a “falação” do Rosendo não tinha fim... Entrava um artista, cantava 2 ou 3 minutos e o Rosendo preenchia o resto do tempo com 15 minutos de conversa... Anunciava que naquele programa receberia, para cantar, Jarbas Sobral, o maior cantor de seresta de Tatuí.
Com a ansiedade, Jarbinhas tinha impressão que o Rosendo não parava de falar com seu auditório
E o Jarbinhas esperando, desesperado!
Entra artista, sai artista e o Rosendo não parava de falar:
- Hoje receberemos aqui o maior seresteiro de Tatuí. O maior violonista da região de Tatuí! – repetia incessantemente Rosendo.
- Receberemos aqui o doutor Jarbas Sobral, o maior dentista da região de Tatuí! – empolgado, Rosendo continuava a valorizar seu convidado.
E canta um e canta outro, entra intervalo e sai intervalo, mas o Jarbinhas nunca era chamado.
O Rosendo continuava a anunciar “o maior seresteiro de Tatuí”. “O maior isto e o maior aquilo”.
E o Jarbinhas nervoso, ficava roendo suas unhas.
Depois de tanta enrolação, parecia que nem mesmo ia cantar. Mas chegou a tão esperada hora. Alguém apareceu e avisou ao Jarbinhas que ele entraria em seguida.
Daí parece que o Rosendo enlouqueceu:
- Vamos receber agora o maior cantor de seresta de Tatuí. O maior barítono da região, o melhor violonista, seresteiro aclamado pelas mais seletas platéias. O maior dentista de Tatuí. O cirurgião das elites! A voz mais afinada... o dentista musical!
- Com vocês: o grande Jarbas Sobral!
Jarbinhas, nervoso com a demora e a infindável apresentação, entrou no palco quase que tropeçando.
Por alguns instantes, Jarbinhas sentiu-se como um palhaço perdido
Quando chegou ou microfone, Rosendo continuou:
- Ele é também o maior contador de piadas de Tatuí!
- Jarbas, conte uma piada para nós! – disse Rosendo, sem qualquer prévia combinação.
- Ééééhhh! – o Jarbinhas engasgou. Não esperava isso, não lembrava de nenhuma piada. Aliás, não se lembrava nem mesmo o que estava fazendo ali... luzes, câmeras, aplausos...
Mas teve uma saída brilhante:
- Está feita a piada! – disse Jarbinhas – Faz quarenta anos que eu sonho em cantar na televisão e quando venho para cantar, pedem para eu contar uma piada!
Cantando, Jarbinhas encantou!
Nem o Rosendo esperava por essa escapada do Jarbinhas, que, logo em seguida, soltou seu vozeirão e cantou Carinhoso, para o delírio da platéia.
Artista é artista, sempre. Ainda mais quando é tatuiano.
segunda-feira, maio 29, 2006
Desgraçada engrenagem
Aldo Orsi foi um torneiro mecânico afamado. Sua fama, no entanto, era exatamente devido ao seu trabalho e ao conhecimento da profissão e não como o “outro” torneiro mecânico famoso, cuja fama não advém do trabalho na profissão. A oficina do Aldo ficava no Bairro 400. Tornos, fresadeiras, furadeiras, prensas… era uma oficina completa, que prestava serviços para inúmeras empresas da cidade.
Sua oficina nunca parava. Aldo e seus funcionários trabalhavam muito para conseguir atender a todas as solicitações. Sempre de bom humor.
Em determinada ocasião, ocorreu um problema com uma máquina da Fábrica São Martinho. A peça quebrada era um redutor de rotação. Um redutor é, para simplificar, uma caixa com inúmeras engrenagens de diversos diâmetros com a função de reduzir a rotação e aumentar a potência transmitida ao eixo motriz.
O equipamento era essencial para o funcionamento da fábrica, mas Aldo costumava respeitar a ordem de entrada dos serviços em sua oficina. Havia muito serviço na frente.
O redutor foi entregue semi-desmontado, pois para descobrir que havia uma engrenagem quebrada, foi preciso abrir o aparelho. Logo que chegou à oficina a engrenagem foi consertada. Faltava apenas montar novamente todo o conjunto de engrenagens.
Isto era um trabalho de precisão. Aldo costumava fazer esse tipo de serviço. Só que ele andava ocupadíssimo com umas bombas d’água do SAAE (antes da Sabesp, havia o Serviço Autônomo de Água e Esgoto), pois a cidade estava sem água!!!
Com isto, havia demora inesperada na entrega do redutor. Entretanto, a Fábrica São Martinho não poderia ficar parada. Sendo assim, alguns funcionários da São Martinho vieram buscar de volta o tal equipamento, a mando do gerente. O redutor estava totalmente desmontado, mas insistiram em levar de volta, dizendo que eles mesmos iriam montar.
Aldo imediatamente juntou todas as peças do redutor e entregou para o pessoal. Só que ele, além de colocar todas as peças do equipamento, pôs junto uma engrenagem extra. Ele não deixaria de pregar uma peça no pessoal.
Aí surgiu o grande problema: os mecânicos da fábrica montaram o redutor e sobrou uma engrenagem.
-Ei, vocês erraram em alguma coisa. Podem desmontar tudo! – ordenou o gerente.
E assim fizeram. Desmontaram tudo mais uma vez e montaram. Novamente sobrou aquela engrenagem.
-Fizemos tudo certo, mas mesmo assim sobrou peça! – disseram.
Ninguém teve coragem de experimentar ligar o equipamento. Ele poderia ficar todo arrebentado...
- Podem desmontar novamente! – disse o gerente, agora bastante preocupado com a capacidade de seus funcionários.
Mais uma vez desmontaram a máquina.
Com cuidado redobrado, montaram mais uma vez. Peça por peça. Com muita atenção.
Apesar dos cuidados, a montagem parecia não dar certo
Pois não é que sobrou uma engrenagem novamente!!!
- Vamos experimentar ligar!
- De jeito nenhum! E se quebrar?
-Mas que faremos?
- Não tem jeito. Temos que levar novamente à oficina do Aldo. Ele pode ter uma solução.
E assim o fizeram. À tardinha levaram novamente o redutor desmontado e, humildemente, pediram ao Aldo que consertasse aquilo. Confessaram-se incapazes de resolver o problema.
- Deixem aí que amanhã mesmo estará montado. Podem vir buscar às 11 horas. Se chegarem depois disso estará fechado para o almoço e eu não vou abrir antes das 13 horas. Não atendo no horário do almoço!!!! – frisou Aldo.
O pessoal da São Martinho foi embora, ainda duvidando que o equipamento estivesse montado no horário estipulado...
O que Aldo fez para montar? Simplesmente tirou fora a engrenagem que sobrava nas montagens e conferiu a montagem dos funcionários da São Martinho, que estava correta, diga-se de passagem. Pronto, só faltava entregar. É, ele sempre fazia das suas.
Quando Aldo Orsi faleceu o Bairro 400 ficou mais pobre. Algumas pessoas nunca são substituídas!
Sua oficina nunca parava. Aldo e seus funcionários trabalhavam muito para conseguir atender a todas as solicitações. Sempre de bom humor.
Em determinada ocasião, ocorreu um problema com uma máquina da Fábrica São Martinho. A peça quebrada era um redutor de rotação. Um redutor é, para simplificar, uma caixa com inúmeras engrenagens de diversos diâmetros com a função de reduzir a rotação e aumentar a potência transmitida ao eixo motriz.
O equipamento era essencial para o funcionamento da fábrica, mas Aldo costumava respeitar a ordem de entrada dos serviços em sua oficina. Havia muito serviço na frente.
O redutor foi entregue semi-desmontado, pois para descobrir que havia uma engrenagem quebrada, foi preciso abrir o aparelho. Logo que chegou à oficina a engrenagem foi consertada. Faltava apenas montar novamente todo o conjunto de engrenagens.
Isto era um trabalho de precisão. Aldo costumava fazer esse tipo de serviço. Só que ele andava ocupadíssimo com umas bombas d’água do SAAE (antes da Sabesp, havia o Serviço Autônomo de Água e Esgoto), pois a cidade estava sem água!!!
Com isto, havia demora inesperada na entrega do redutor. Entretanto, a Fábrica São Martinho não poderia ficar parada. Sendo assim, alguns funcionários da São Martinho vieram buscar de volta o tal equipamento, a mando do gerente. O redutor estava totalmente desmontado, mas insistiram em levar de volta, dizendo que eles mesmos iriam montar.
Aldo imediatamente juntou todas as peças do redutor e entregou para o pessoal. Só que ele, além de colocar todas as peças do equipamento, pôs junto uma engrenagem extra. Ele não deixaria de pregar uma peça no pessoal.
Aí surgiu o grande problema: os mecânicos da fábrica montaram o redutor e sobrou uma engrenagem.
-Ei, vocês erraram em alguma coisa. Podem desmontar tudo! – ordenou o gerente.
E assim fizeram. Desmontaram tudo mais uma vez e montaram. Novamente sobrou aquela engrenagem.
-Fizemos tudo certo, mas mesmo assim sobrou peça! – disseram.
Ninguém teve coragem de experimentar ligar o equipamento. Ele poderia ficar todo arrebentado...
- Podem desmontar novamente! – disse o gerente, agora bastante preocupado com a capacidade de seus funcionários.
Mais uma vez desmontaram a máquina.
Com cuidado redobrado, montaram mais uma vez. Peça por peça. Com muita atenção.
Apesar dos cuidados, a montagem parecia não dar certo
Pois não é que sobrou uma engrenagem novamente!!!
- Vamos experimentar ligar!
- De jeito nenhum! E se quebrar?
-Mas que faremos?
- Não tem jeito. Temos que levar novamente à oficina do Aldo. Ele pode ter uma solução.
E assim o fizeram. À tardinha levaram novamente o redutor desmontado e, humildemente, pediram ao Aldo que consertasse aquilo. Confessaram-se incapazes de resolver o problema.
- Deixem aí que amanhã mesmo estará montado. Podem vir buscar às 11 horas. Se chegarem depois disso estará fechado para o almoço e eu não vou abrir antes das 13 horas. Não atendo no horário do almoço!!!! – frisou Aldo.
O pessoal da São Martinho foi embora, ainda duvidando que o equipamento estivesse montado no horário estipulado...
O que Aldo fez para montar? Simplesmente tirou fora a engrenagem que sobrava nas montagens e conferiu a montagem dos funcionários da São Martinho, que estava correta, diga-se de passagem. Pronto, só faltava entregar. É, ele sempre fazia das suas.
Quando Aldo Orsi faleceu o Bairro 400 ficou mais pobre. Algumas pessoas nunca são substituídas!
sábado, abril 15, 2006
O forró do Gessé
Este caso difere um pouco dos demais, pois se trata de um acontecimento recente. Cerca de dois ou três anos apenas. Mas mesmo sendo recente já possui seu valor “histórico”, motivo pelo qual está sendo registrado aqui.
Durante algum tempo, as noitadas no bairro da Americana estiveram na moda. Isto tudo devido à casa noturna localizada lá, chamada Pantanal. Nos finais de semana muitos iam ao “Pantanal”. O nome é bastante apropriado, pois está em um local que todo ano, por ocasião das chuvas, inunda. Fica mesmo um pantanal.
Em um determinado sábado programaram um grande baile na Americana. A movimentação na cidade começou no meio da semana, todos desejando ir ao baile. O meu amigo Cabreira não poderia deixar de aparecer. Logo ele, amante das noitadas e, principalmente, do forró. Lá era o lugar que aconteciam os mais animados bailes de forró da região. Era um acontecimento “for all”...
Mas para “festar” é preciso animação. Para alcançar o necessário grau de animação, ficou algumas horas “se animando” em um bar da Avenida Firmo Vieira. Quando achou que estava no ponto adequado, partiu para a Americana.
O seu carro estava estacionado no sentido Estação – Centro e, assim, para não fazer manobras perigosas, virou à direita e desceu em direção à Vila Dr. Laurindo. Depois disso é só virar novamente à direita e segui...
Todavai, com o grau de animação do Cabreira este, que é um caminho fácil, transformou-se em complicadíssimo quebra-cabeça. Vira aqui, vira lá, virá pra cá e pra lá... retorna acolá... que confusão... estava completamente perdido... nem parecia que estava em Tatuí.
Com bastante dificuldade, conseguiu chegar nas proximidades da ponte da estrada da Americana. Mas não passou por cima da tal... virou antes e entrou no Jardim Manoel de Abreu. Vira aqui e ali e, de repente, estava na rodovia, perto da Ceagesp.
Ah, não era esse o caminho. Deu meia volta, seguiu e... e... e... perdeu-se novamente. Vira aqui e retorna ali... Não sabia que caminho tomar. Pensou em olhar para as placas das ruas, para tentar descobrir onde estava.
Nesse momento, passou por um barracão com alguns letreiros. Esforçou-se um pouco e leu: “Forró do Gessé”. Puxa, sem querer havia encontrado um outro local de forró. Está ótimo! Já que não encontrou o caminho para o Pantanal, este outro forró resolvia seu problema.
Só que ainda estava fechado. Mas casa noturna que se preze não abre mesmo muito cedo. Ainda nem eram 9 horas.
Cabreira traçou uma estratégia inteligente: esperar bem em frente ao portão de entrada do barracão. Assim, quando abrisse ele seria o primeiro a entrar e poderia forrozear à vontade. A mulherada que se cuidasse!!!
Entretanto, em poucos minutos aqueles líquidos que tomou para se animar começaram a reverter o efeito e ele dormiu. Dormiu igual a um bebezinho. Um anjinho. Mas isso não seria problema... quando o tal forró abrisse ele acordaria com a movimentação.
As horas passaram e o dia clareou. Um belo domingo de sol.
Na posição em que estava seu carro, o sol da manhã bateu forte em seus olhos, acordando-o.
- Puxa! Ninguém me acordou e eu perdi o forró! – resmungou.
Olhou para o barracão para ver se ainda via alguém e reclamar...
Mas agora seus olhos não estavam embaçados e leu: “faço forro de gesso”!
Não era forró, mas sim Forro de Gesso!!!
Aiaiaí, Cabreira, que confusão!!! Tinha que ter álcool nessa história!!!
Durante algum tempo, as noitadas no bairro da Americana estiveram na moda. Isto tudo devido à casa noturna localizada lá, chamada Pantanal. Nos finais de semana muitos iam ao “Pantanal”. O nome é bastante apropriado, pois está em um local que todo ano, por ocasião das chuvas, inunda. Fica mesmo um pantanal.
Em um determinado sábado programaram um grande baile na Americana. A movimentação na cidade começou no meio da semana, todos desejando ir ao baile. O meu amigo Cabreira não poderia deixar de aparecer. Logo ele, amante das noitadas e, principalmente, do forró. Lá era o lugar que aconteciam os mais animados bailes de forró da região. Era um acontecimento “for all”...
Mas para “festar” é preciso animação. Para alcançar o necessário grau de animação, ficou algumas horas “se animando” em um bar da Avenida Firmo Vieira. Quando achou que estava no ponto adequado, partiu para a Americana.
O seu carro estava estacionado no sentido Estação – Centro e, assim, para não fazer manobras perigosas, virou à direita e desceu em direção à Vila Dr. Laurindo. Depois disso é só virar novamente à direita e segui...
Todavai, com o grau de animação do Cabreira este, que é um caminho fácil, transformou-se em complicadíssimo quebra-cabeça. Vira aqui, vira lá, virá pra cá e pra lá... retorna acolá... que confusão... estava completamente perdido... nem parecia que estava em Tatuí.
Com bastante dificuldade, conseguiu chegar nas proximidades da ponte da estrada da Americana. Mas não passou por cima da tal... virou antes e entrou no Jardim Manoel de Abreu. Vira aqui e ali e, de repente, estava na rodovia, perto da Ceagesp.
Ah, não era esse o caminho. Deu meia volta, seguiu e... e... e... perdeu-se novamente. Vira aqui e retorna ali... Não sabia que caminho tomar. Pensou em olhar para as placas das ruas, para tentar descobrir onde estava.
Nesse momento, passou por um barracão com alguns letreiros. Esforçou-se um pouco e leu: “Forró do Gessé”. Puxa, sem querer havia encontrado um outro local de forró. Está ótimo! Já que não encontrou o caminho para o Pantanal, este outro forró resolvia seu problema.
Só que ainda estava fechado. Mas casa noturna que se preze não abre mesmo muito cedo. Ainda nem eram 9 horas.
Cabreira traçou uma estratégia inteligente: esperar bem em frente ao portão de entrada do barracão. Assim, quando abrisse ele seria o primeiro a entrar e poderia forrozear à vontade. A mulherada que se cuidasse!!!
Entretanto, em poucos minutos aqueles líquidos que tomou para se animar começaram a reverter o efeito e ele dormiu. Dormiu igual a um bebezinho. Um anjinho. Mas isso não seria problema... quando o tal forró abrisse ele acordaria com a movimentação.
As horas passaram e o dia clareou. Um belo domingo de sol.
Na posição em que estava seu carro, o sol da manhã bateu forte em seus olhos, acordando-o.
- Puxa! Ninguém me acordou e eu perdi o forró! – resmungou.
Olhou para o barracão para ver se ainda via alguém e reclamar...
Mas agora seus olhos não estavam embaçados e leu: “faço forro de gesso”!
Não era forró, mas sim Forro de Gesso!!!
Aiaiaí, Cabreira, que confusão!!! Tinha que ter álcool nessa história!!!
quinta-feira, abril 06, 2006
O caso do leitE quentE
Até o final da década de 80, o chefe do Almoxarifado da Prefeitura de Tatuí era o Alcebíades Coelho, mais conhecido como Zorro. Trabalhou muitos anos na Prefeitura, até aposentar-se. Faleceu há algum tempo e deixou muitas histórias… Aqui vai uma delas, contada pelo Antonio Alcebíades Paes, sobrinho do Zorro:
Certa ocasião, uma Caterpillar da Prefeitura quebrou, justamente quando estavam consertando e alargando estradas municipais. Tinham pressa, pois havia chovido e, com o terreno úmido, ficava mais fácil de trabalhar. Além disto, sem esses cuidados, alguns trechos ficavam intransitáveis.
Como a coisa era urgente, os reparos na máquina não poderiam esperar.
Nessa época, quando havia pressa em qualquer coisa de São Paulo, alguém teria que ir buscar. Não existiam as entregas como sedex e coisas semelhantes, facilidades mais modernas.
Sendo assim, como havia urgência, o próprio Zorro foi a São Paulo buscar as peças para a Caterpillar. Ele e seu ajudante, conhecido por Nor. Para marcar sua posição, Zorro fez o Nor guiar a Rural Willys da Prefeitura.
Chegaram no fornecedor habitual da Prefeitura, logo ali no bairro da Lapa, em São Paulo. Mas aconteceu um imprevisto: a loja não tinha todas as peças. Teriam que comprar em outro fornecedor.
A própria loja encarregou-se de telefonar em seus concorrentes, buscando as peças que faltavam. Encontraram um fornecedor na Moóca.
Para não perder muito tempo, Zorro mandou o Nor ir verificar nessa loja se realmente eram as peças que precisavam:
- Nor, vai até a loja lá da Moóca, mas não vá logo comprando sem ver direito a peça... tem de ser exata! Vai lá e verifique! – ordenou Zorro.
Nor pegou a Rural e foi até o endereço indicado.
Enquanto isso, Zorro aproveitava para acertar o resto da compra e tomar um café com os vendedores, conhecidos de longa data.
Cerca de uma hora depois, ficou em frente à loja, calculando que já estava no tempo do Nor ir e voltar… Esperou um pouco, despreocupado.
Mas o tempo passava e nada de aparecer o Nor. Aguardou mais uma hora, uma hora e meia, duas horas… começou a preocupar-se… que teria acontecido com o Nor??? Será que foi assaltado? Pensou em ir procurá-lo, mas no mesmo tempo cogitou que poderiam desencontrar… Nessa ocasião nem se sonhava com o celular.
Depois de passar quase quatro horas, Zorro não teve mais dúvidas, tomou um taxi e foi até a Moóca procurar o companheiro.
Foi imaginando as piores situações.
Mas ao chegar no endereço, na mesma hora viu o Nor parado na esquina, conversando. A Rural estava estacionada logo virando a esquina.
- Que aconteceu??? – perguntou Zorro, com um misto de alegria por encontrar seu companheiro e zanga pelo tempo perdido.
- Eu tava esperando o senhor. – respondou Nor.
- Como? Porque esperar aqui… era pra você ter voltado há horas!!! – retrucou o agora furioso Zorro.
- Mas fiz o que o senhor mandou: vim na loja, virei e parei. – respondeu Nor.
- O quê? Eu não mandei nada disso… Mandei você vir aqui verificar se tinha a peça! – gritou Zorro.
- Ah, o senhor falou: vá lá, vire e fique! Foi o que eu fiz! – explicou Nor.
Que burrada, mas é compreensível. Em Tatuí as pessoas carregam sotaques peculiares. Além dos problemas com “erres” e “esses”, há o da pronúncia. O caboclo fala, por exemplo, leitE quentE, enfatizando a vogal “E”.
Mas pessoas da cidade pronunciam algo como “leitCHi quentchi”... Em outras palavras, o som da vogal “E” fica bem semelhante ao “I” !!!
Quando Zorro mandou o Nor ir verificar, misturou os sotaques tatuianos e disse algo como “virifique” ou “virefique”... quem não ouviu tal palavra pronunciada assim em Tatuí???
Pois bem, Nor seguiu ao pé da letra: VIRE E FIQUE!
Aiaiaí! Essas coisas só acontecem com tatuianos!!!
Certa ocasião, uma Caterpillar da Prefeitura quebrou, justamente quando estavam consertando e alargando estradas municipais. Tinham pressa, pois havia chovido e, com o terreno úmido, ficava mais fácil de trabalhar. Além disto, sem esses cuidados, alguns trechos ficavam intransitáveis.
Como a coisa era urgente, os reparos na máquina não poderiam esperar.
Nessa época, quando havia pressa em qualquer coisa de São Paulo, alguém teria que ir buscar. Não existiam as entregas como sedex e coisas semelhantes, facilidades mais modernas.
Sendo assim, como havia urgência, o próprio Zorro foi a São Paulo buscar as peças para a Caterpillar. Ele e seu ajudante, conhecido por Nor. Para marcar sua posição, Zorro fez o Nor guiar a Rural Willys da Prefeitura.
Chegaram no fornecedor habitual da Prefeitura, logo ali no bairro da Lapa, em São Paulo. Mas aconteceu um imprevisto: a loja não tinha todas as peças. Teriam que comprar em outro fornecedor.
A própria loja encarregou-se de telefonar em seus concorrentes, buscando as peças que faltavam. Encontraram um fornecedor na Moóca.
Para não perder muito tempo, Zorro mandou o Nor ir verificar nessa loja se realmente eram as peças que precisavam:
- Nor, vai até a loja lá da Moóca, mas não vá logo comprando sem ver direito a peça... tem de ser exata! Vai lá e verifique! – ordenou Zorro.
Nor pegou a Rural e foi até o endereço indicado.
Enquanto isso, Zorro aproveitava para acertar o resto da compra e tomar um café com os vendedores, conhecidos de longa data.
Cerca de uma hora depois, ficou em frente à loja, calculando que já estava no tempo do Nor ir e voltar… Esperou um pouco, despreocupado.
Mas o tempo passava e nada de aparecer o Nor. Aguardou mais uma hora, uma hora e meia, duas horas… começou a preocupar-se… que teria acontecido com o Nor??? Será que foi assaltado? Pensou em ir procurá-lo, mas no mesmo tempo cogitou que poderiam desencontrar… Nessa ocasião nem se sonhava com o celular.
Depois de passar quase quatro horas, Zorro não teve mais dúvidas, tomou um taxi e foi até a Moóca procurar o companheiro.
Foi imaginando as piores situações.
Mas ao chegar no endereço, na mesma hora viu o Nor parado na esquina, conversando. A Rural estava estacionada logo virando a esquina.
- Que aconteceu??? – perguntou Zorro, com um misto de alegria por encontrar seu companheiro e zanga pelo tempo perdido.
- Eu tava esperando o senhor. – respondou Nor.
- Como? Porque esperar aqui… era pra você ter voltado há horas!!! – retrucou o agora furioso Zorro.
- Mas fiz o que o senhor mandou: vim na loja, virei e parei. – respondeu Nor.
- O quê? Eu não mandei nada disso… Mandei você vir aqui verificar se tinha a peça! – gritou Zorro.
- Ah, o senhor falou: vá lá, vire e fique! Foi o que eu fiz! – explicou Nor.
Que burrada, mas é compreensível. Em Tatuí as pessoas carregam sotaques peculiares. Além dos problemas com “erres” e “esses”, há o da pronúncia. O caboclo fala, por exemplo, leitE quentE, enfatizando a vogal “E”.
Mas pessoas da cidade pronunciam algo como “leitCHi quentchi”... Em outras palavras, o som da vogal “E” fica bem semelhante ao “I” !!!
Quando Zorro mandou o Nor ir verificar, misturou os sotaques tatuianos e disse algo como “virifique” ou “virefique”... quem não ouviu tal palavra pronunciada assim em Tatuí???
Pois bem, Nor seguiu ao pé da letra: VIRE E FIQUE!
Aiaiaí! Essas coisas só acontecem com tatuianos!!!
segunda-feira, abril 03, 2006
Avistamento ufológico
Rubinho Mortana: um igual a este não apareceu. Não conseguia abrir a boca sem inventar alguma coisa, sem tentar pregar uma peça em alguém. Mas suas brincadeiras eram inofensivas, ou quase!
Quer um exemplo?
Um dia, estava trabalhando no Posto 400, quando entrou para abastecer um Odsmobile Cutlass.
- Bom dia, doutor! – cumprimentou Rubinho ao cliente.
O cliente era o Virgilio Montezzo, que corrigiu imediatamente ao Rubinho:
- Eu não sou doutor!
Enquanto os frentistas cuidavam do carrão, Rubinho, muito sério, conversava com o homem:
- O sr. tá sabendo da grande indústria que está vindo pra Tatuí?
- Não! Que indústria?
- É uma grande indústria metalúrgica. Mais de 1.500 funcionários. É uma fábrica de click de bicicleta!
- Ah, fábrica de bicicletas? – perguntou interessado.
- Não, não! Vai fabricar só o click que vai dentro da catraca das bicicletas. Aquele que faz click-click-click quando pára de pedalar! – explicou Rubinho.
Montezzo olhou meio desconfiado… nem insistiu. Não sabia se era brincadeira, pois a fisionomia do Rubinho parecia de um homem sério. Sei lá o que pensou sobre isso, porque logo saiu dali.
Quando saiu, começaram as risadas. Rubinho estava satisfeito, pois era disso que ele gostava: tentar pregar alguma espécie de peça em qualquer pessoa. Esse era o Rubinho Mortana!
Em uma determinada ocasião, teve um posto de gasolina ali da Rua Onze de Agosto, próximo ao Clube de Campo. Era o Posto Shell Rugosil (pegou algumas letras iniciais de seu nome Rubens Gomes da Silva e criou essa marca).
Certo dia apareceram alguns amigos em seu posto. Entre estes amigos estava o Paulinho Duvirges, que também não deixava passar uma oportunidade para fazer alguém de bobo. Planejaram uma brincadeira para a noite: um disco voador!
Compraram do Osório da Telefônica alguns balões cheios com gás helio, papel celofane de diversas cores, fios, velas e alguns potinhos de iogurte.
Enquanto comiam o iogurte, foram montando o disco voador, ajeitando os balões e amarrando os potinhos de iogurte como se fossem barquinhas. Em cada barquinha colocaram um toco de vela. Tudo enrolado com papel celofane de diversas cores.
Quando escureceu, o apetrecho já estava pronto. E querendo voar, “puxado” pelos balões cheios de gás.
Lá pelas oito horas, acenderam as velas para dar os retoques finais. Conferiram a direção do vento. Soprava do sul para o norte.
- Ótimo, dá pra soltar aqui do posto. – disse Mortana.
E assim fizeram. Soltaram o “disco voador”, que subiu rapidamente, com as chamas das velas cintilando no papel celofane… brilhos mil.
Assim que subiu, tomou direção do centro da cidade.
Nesse momento já havia um monte de amigos no posto. Saíram em 3 carros para acompanhar o disco voador, que lentamente sobrevoava a cidade. Acompanhavam buzinando sem cessar, para chamar a atenção de quem encontrassem pelo caminho.
No escuro, as luzes refletidas confundiam todos
Enquanto desciam, as pessoas ficavam olhando para o céu, admiradas com aquela coisa luminosa. Quem tinha um carro, ia junto para observar de perto o fenômeno. Em pouco tempo o objeto voador ultrapassou a cidade, indo em direção ao bairro de Americana. Nesse momento, o cortejo que o acompanhava já tinha mais de uma dezena de veículos. Todos buzinando. Os curiosos iam juntando-se para ver o tal disco voador.
Estavam quase na metade do caminho do bairro de Americana, quando o vento mudou.
O objeto voador fez uma parada e recomeçou a voar mais ou menos para os lados do Morro Grande, desta vez em velocidade maior, porque o vento soprava forte.
Foi uma grande confusão. Todo mundo queria manobrar o carro ao mesmo tempo. Ronca daqui e ronca dali. A estrada não era pavimentada e os carros faziam levantar uma poeira danada.
Em minutos, todos seguiam de volta para a cidade. Em todos os carros tinha gente com a cabeça de fora, para tentar acompanhar o objeto voador não identificado.
Nesse momento já havia mais de 30 carros acompanhando o disco voador. Quando passavam perto de alguém, apontavam para cima e, para não exagerar, tinha alguns milhares de pessoas olhando para aquelas luzes que cruzavam o céu.
A velocidade do vento aumentava rapidamente, uma chuva forte aproximava-se da cidade. A confusão, o vento, a velocidade que os balões voavam, fez com que não conseguissem alcançar.
- Sumiu! O disco voador sumiu! – disse um dos que por ali estavam.
- Pudera, era rápido demais! – completou outro.
Rubinho, Paulinho Duvirges e os outros amigos estavam sem fôlego de tanto rir. A brincadeira havia sido um sucesso. Os comentários duraram semanas. Isso era o que interessava ao Mortana: fazer os outros de bobo. E fez mesmo.
Quer um exemplo?
Um dia, estava trabalhando no Posto 400, quando entrou para abastecer um Odsmobile Cutlass.
- Bom dia, doutor! – cumprimentou Rubinho ao cliente.
O cliente era o Virgilio Montezzo, que corrigiu imediatamente ao Rubinho:
- Eu não sou doutor!
Enquanto os frentistas cuidavam do carrão, Rubinho, muito sério, conversava com o homem:
- O sr. tá sabendo da grande indústria que está vindo pra Tatuí?
- Não! Que indústria?
- É uma grande indústria metalúrgica. Mais de 1.500 funcionários. É uma fábrica de click de bicicleta!
- Ah, fábrica de bicicletas? – perguntou interessado.
- Não, não! Vai fabricar só o click que vai dentro da catraca das bicicletas. Aquele que faz click-click-click quando pára de pedalar! – explicou Rubinho.
Montezzo olhou meio desconfiado… nem insistiu. Não sabia se era brincadeira, pois a fisionomia do Rubinho parecia de um homem sério. Sei lá o que pensou sobre isso, porque logo saiu dali.
Quando saiu, começaram as risadas. Rubinho estava satisfeito, pois era disso que ele gostava: tentar pregar alguma espécie de peça em qualquer pessoa. Esse era o Rubinho Mortana!
Em uma determinada ocasião, teve um posto de gasolina ali da Rua Onze de Agosto, próximo ao Clube de Campo. Era o Posto Shell Rugosil (pegou algumas letras iniciais de seu nome Rubens Gomes da Silva e criou essa marca).
Certo dia apareceram alguns amigos em seu posto. Entre estes amigos estava o Paulinho Duvirges, que também não deixava passar uma oportunidade para fazer alguém de bobo. Planejaram uma brincadeira para a noite: um disco voador!
Compraram do Osório da Telefônica alguns balões cheios com gás helio, papel celofane de diversas cores, fios, velas e alguns potinhos de iogurte.
Enquanto comiam o iogurte, foram montando o disco voador, ajeitando os balões e amarrando os potinhos de iogurte como se fossem barquinhas. Em cada barquinha colocaram um toco de vela. Tudo enrolado com papel celofane de diversas cores.
Quando escureceu, o apetrecho já estava pronto. E querendo voar, “puxado” pelos balões cheios de gás.
Lá pelas oito horas, acenderam as velas para dar os retoques finais. Conferiram a direção do vento. Soprava do sul para o norte.
- Ótimo, dá pra soltar aqui do posto. – disse Mortana.
E assim fizeram. Soltaram o “disco voador”, que subiu rapidamente, com as chamas das velas cintilando no papel celofane… brilhos mil.
Assim que subiu, tomou direção do centro da cidade.
Nesse momento já havia um monte de amigos no posto. Saíram em 3 carros para acompanhar o disco voador, que lentamente sobrevoava a cidade. Acompanhavam buzinando sem cessar, para chamar a atenção de quem encontrassem pelo caminho.
No escuro, as luzes refletidas confundiam todos
Enquanto desciam, as pessoas ficavam olhando para o céu, admiradas com aquela coisa luminosa. Quem tinha um carro, ia junto para observar de perto o fenômeno. Em pouco tempo o objeto voador ultrapassou a cidade, indo em direção ao bairro de Americana. Nesse momento, o cortejo que o acompanhava já tinha mais de uma dezena de veículos. Todos buzinando. Os curiosos iam juntando-se para ver o tal disco voador.
Estavam quase na metade do caminho do bairro de Americana, quando o vento mudou.
O objeto voador fez uma parada e recomeçou a voar mais ou menos para os lados do Morro Grande, desta vez em velocidade maior, porque o vento soprava forte.
Foi uma grande confusão. Todo mundo queria manobrar o carro ao mesmo tempo. Ronca daqui e ronca dali. A estrada não era pavimentada e os carros faziam levantar uma poeira danada.
Em minutos, todos seguiam de volta para a cidade. Em todos os carros tinha gente com a cabeça de fora, para tentar acompanhar o objeto voador não identificado.
Nesse momento já havia mais de 30 carros acompanhando o disco voador. Quando passavam perto de alguém, apontavam para cima e, para não exagerar, tinha alguns milhares de pessoas olhando para aquelas luzes que cruzavam o céu.
A velocidade do vento aumentava rapidamente, uma chuva forte aproximava-se da cidade. A confusão, o vento, a velocidade que os balões voavam, fez com que não conseguissem alcançar.
- Sumiu! O disco voador sumiu! – disse um dos que por ali estavam.
- Pudera, era rápido demais! – completou outro.
Rubinho, Paulinho Duvirges e os outros amigos estavam sem fôlego de tanto rir. A brincadeira havia sido um sucesso. Os comentários duraram semanas. Isso era o que interessava ao Mortana: fazer os outros de bobo. E fez mesmo.
quarta-feira, março 29, 2006
Carro versus Bonde
Algumas senhoras da sociedade local, preocupadas com as mães trabalhadoras, idealizaram formar uma associação (Associação das Mães) e criar uma creche para atender às mães que precisavam trabalhar e não tinham onde deixar seus filhos.
Levaram adiante esse projeto, tornando realidade essa instituição que, durante muitos anos, tem auxiliado muitas mulheres trabalhadoras. Mas a luta não tem sido pequena. A associação só tem sobrevivido graças à persistência de inúmeras colaboradoras em todas as fases de sua existência.
Quando ainda buscavam recursos para construir a creche, na década de 1940, algumas senhoras resolveram ir a São Paulo levar pessoalmente suas reivindicações ao governador paulista.
Entretanto, a uma comitiva de senhoras tatuianas não convinha ir de trem, mesmo porque não conheciam direito a capital. Iriam de automóvel, decidiram.
Automóveis, nessa época, eram poucos, para não dizer raros. Também as estradas eram terríveis, sem pavimentação e com pouca conservação. Pediram a vovô Ernestino que as levasse em seu Ford. Claro que ele disse sim.
Só que minha avó ficou enciumada. Mesmo sabendo da finalidade da viagem, ficou preocupada com seu “galã” e, como não havia um lugar para ela ir junto, fez vovô levar minha mãe, na ocasião ainda uma menina. “Imagine, o Ernestino viajar sozinho com aquela mulherada elegante!!” – pensou vovó.
No dia da viagem apareceram todas na casa de vovô vestindo taillers, belas bolsas, sapatos com salto e com os cabelos arrumados. Elas capricharam porque iriam encontrar o governador em pessoa!
A estrada de Tatuí a São Paulo não era pavimentada, como todas as outras nessa época: poeira, lama, buracos em todo o percurso. Qualquer viagem era uma aventura. Aquelas senhoras estavam dispostas a enfrentar para concretizar a associação.
O carro de vovô não era novo e nem muito bom. Também pudera, até para arrancar tocos de árvores no pasto ele usava o pobre veículo. Na verdade, nenhum carro era muito bom, pois o desgaste com as estradas acabava com eles. Além disto, como eram todos importados, não se encontravam peças com a facilidade de hoje e, sendo assim, os mecânicos tinham que ter muita criatividade e improvisação. Consertar algo quebrado era coisa de “artista”. Diferente disso, hoje é só substituir a peça quebrada.
Logo saíram em direção à capital. A viagem transcorria bem, até que começou a chover. Em uma baixada o carro encalhou. Não ia nem para frente e nem para trás. Vovô acelerava para tentar fazer o carro sair, mas só roncava e afundava cada vez mais na lama.
Só havia uma solução: empurrar o carro! Mas quem? Aquelas senhoras elegantemente vestidas?
Esperaram um pouco para ver se passava alguém, mas o trânsito era insignificante. Ficaram quase meia hora aguardando e nada. Ninguém apareceu!
Não teve jeito. As senhoras desceram do carro, enfiando seus sapatos chiques na lama grudenta. Empurraram, empurraram enquanto vovô acelerava o carro. O Ford roncava e espalhava lama para todos os lados. Quando conseguiram remover o carro do lamaçal estavam todas enlameadas.
Enquanto percorriam o resto do caminho até São Paulo, as senhoras tentaram limpar suas roupas. Limpa aqui, esfrega ali, molha acolá e conseguiram remover a sujeira aparente.
Chegaram a São Paulo. Com umas ajeitadas nos cabelos e borrifadas de perfume e estariam novamente prontas para encontrar o governador.
As ruas da capital não tinham o movimento atual, mas como eram todas estreitas e quase não havia avenidas, o trânsito na região central era intenso. Além de tudo, havia um ocupante famoso das ruas e que não mais existe: o bonde elétrico.
As ruas centrais eram compartilhadas por pedestres, automóveis, caminhões, ônibus, bicicletas, carroças, animais e, claro, bondes. E bonde anda em trilhos. Com a confusão do trânsito os carros cruzavam os trilhos dos bondes o tempo todo. Quando aparecia o bonde, todos tinham que dar lugar... sair dos trilhos. Em algumas ruas de mão única, apareciam até bondes na contramão.
Pois bem, apesar de vovô já ter estado outras vezes em São Paulo, estava um tanto atrapalhado com o trânsito. Anda, pára, anda, pára... vira, desvira, acelera, freia... de repente, sem perceber, bateu levemente em um bonde que estava parado na sua frente.
Mas isso não foi nada. O problema foi que enroscou o pára-choques do Ford no limpa-trilhos traseiro do bonde. Vovô tentou dar uma ré, mas não conseguiu. Quando o bonde começou a andar, arrastou junto o carro.
As senhoras, apavoradas, começaram a gritar. Só que o motorneiro não percebeu que havia um carro enroscado no bonde. Vovô apertava a buzina, mas parece que todos buzinavam naquele momento.
O bonde arrastou o carro de vovô quase um quarteirão inteiro. A gritaria das senhoras aumentava o nervosismo de vovô, dificultando ainda mais a saída daquela situação.
Opa! Conseguiu! Com um movimento brusco do bonde e um tranco no volante, o carro ficou livre.
- Ufa! Agora vamos embora! – exclamou satisfeito vovô.
Mas não foi o que aconteceu. Pois não se sabe como, o carro enroscou novamente no bonde. Recomeçou a gritaria e as tentativas para sair daquela situação.
- Pelo amor de Deus, seu Ernestino, faça alguma coisa! – imploraram.
Desta vez o motorneiro percebeu e parou o bonde. Surgiram algumas pessoas que ajudaram a tirar o pára-choques do limpa-trilhos do bonde. Para não correr o risco de engatar novamente, esperaram um pouco, dando certa distância entre eles e o bonde.
Mais um pouco de tempo e estavam em frente ao palácio do governador. Antes de sair do carro, arrumaram-se como foi possível. Depois do lamaçal, da chuva, do bonde, estavam no destino.
Só que a coisa ainda não havia terminado. A chuva tinha alagado a rua e elas tiveram que caminhar em um verdadeiro riacho. Quando encontraram com o governador, estavam com os sapatos sujos, os cabelos despenteados, as roupas com respingos de lama...
A missão, no entanto apresentou bons resultados. Com a cooperação do governo, em pouco tempo as mães trabalhadoras de Tatuí tinham um lugar decente para deixar seus filhos, como têm até hoje.
Levaram adiante esse projeto, tornando realidade essa instituição que, durante muitos anos, tem auxiliado muitas mulheres trabalhadoras. Mas a luta não tem sido pequena. A associação só tem sobrevivido graças à persistência de inúmeras colaboradoras em todas as fases de sua existência.
Quando ainda buscavam recursos para construir a creche, na década de 1940, algumas senhoras resolveram ir a São Paulo levar pessoalmente suas reivindicações ao governador paulista.
Entretanto, a uma comitiva de senhoras tatuianas não convinha ir de trem, mesmo porque não conheciam direito a capital. Iriam de automóvel, decidiram.
Automóveis, nessa época, eram poucos, para não dizer raros. Também as estradas eram terríveis, sem pavimentação e com pouca conservação. Pediram a vovô Ernestino que as levasse em seu Ford. Claro que ele disse sim.
Só que minha avó ficou enciumada. Mesmo sabendo da finalidade da viagem, ficou preocupada com seu “galã” e, como não havia um lugar para ela ir junto, fez vovô levar minha mãe, na ocasião ainda uma menina. “Imagine, o Ernestino viajar sozinho com aquela mulherada elegante!!” – pensou vovó.
No dia da viagem apareceram todas na casa de vovô vestindo taillers, belas bolsas, sapatos com salto e com os cabelos arrumados. Elas capricharam porque iriam encontrar o governador em pessoa!
A estrada de Tatuí a São Paulo não era pavimentada, como todas as outras nessa época: poeira, lama, buracos em todo o percurso. Qualquer viagem era uma aventura. Aquelas senhoras estavam dispostas a enfrentar para concretizar a associação.
O carro de vovô não era novo e nem muito bom. Também pudera, até para arrancar tocos de árvores no pasto ele usava o pobre veículo. Na verdade, nenhum carro era muito bom, pois o desgaste com as estradas acabava com eles. Além disto, como eram todos importados, não se encontravam peças com a facilidade de hoje e, sendo assim, os mecânicos tinham que ter muita criatividade e improvisação. Consertar algo quebrado era coisa de “artista”. Diferente disso, hoje é só substituir a peça quebrada.
Logo saíram em direção à capital. A viagem transcorria bem, até que começou a chover. Em uma baixada o carro encalhou. Não ia nem para frente e nem para trás. Vovô acelerava para tentar fazer o carro sair, mas só roncava e afundava cada vez mais na lama.
Só havia uma solução: empurrar o carro! Mas quem? Aquelas senhoras elegantemente vestidas?
Esperaram um pouco para ver se passava alguém, mas o trânsito era insignificante. Ficaram quase meia hora aguardando e nada. Ninguém apareceu!
Não teve jeito. As senhoras desceram do carro, enfiando seus sapatos chiques na lama grudenta. Empurraram, empurraram enquanto vovô acelerava o carro. O Ford roncava e espalhava lama para todos os lados. Quando conseguiram remover o carro do lamaçal estavam todas enlameadas.
Enquanto percorriam o resto do caminho até São Paulo, as senhoras tentaram limpar suas roupas. Limpa aqui, esfrega ali, molha acolá e conseguiram remover a sujeira aparente.
Chegaram a São Paulo. Com umas ajeitadas nos cabelos e borrifadas de perfume e estariam novamente prontas para encontrar o governador.
As ruas da capital não tinham o movimento atual, mas como eram todas estreitas e quase não havia avenidas, o trânsito na região central era intenso. Além de tudo, havia um ocupante famoso das ruas e que não mais existe: o bonde elétrico.
As ruas centrais eram compartilhadas por pedestres, automóveis, caminhões, ônibus, bicicletas, carroças, animais e, claro, bondes. E bonde anda em trilhos. Com a confusão do trânsito os carros cruzavam os trilhos dos bondes o tempo todo. Quando aparecia o bonde, todos tinham que dar lugar... sair dos trilhos. Em algumas ruas de mão única, apareciam até bondes na contramão.
Pois bem, apesar de vovô já ter estado outras vezes em São Paulo, estava um tanto atrapalhado com o trânsito. Anda, pára, anda, pára... vira, desvira, acelera, freia... de repente, sem perceber, bateu levemente em um bonde que estava parado na sua frente.
Mas isso não foi nada. O problema foi que enroscou o pára-choques do Ford no limpa-trilhos traseiro do bonde. Vovô tentou dar uma ré, mas não conseguiu. Quando o bonde começou a andar, arrastou junto o carro.
As senhoras, apavoradas, começaram a gritar. Só que o motorneiro não percebeu que havia um carro enroscado no bonde. Vovô apertava a buzina, mas parece que todos buzinavam naquele momento.
O bonde arrastou o carro de vovô quase um quarteirão inteiro. A gritaria das senhoras aumentava o nervosismo de vovô, dificultando ainda mais a saída daquela situação.
Opa! Conseguiu! Com um movimento brusco do bonde e um tranco no volante, o carro ficou livre.
- Ufa! Agora vamos embora! – exclamou satisfeito vovô.
Mas não foi o que aconteceu. Pois não se sabe como, o carro enroscou novamente no bonde. Recomeçou a gritaria e as tentativas para sair daquela situação.
- Pelo amor de Deus, seu Ernestino, faça alguma coisa! – imploraram.
Desta vez o motorneiro percebeu e parou o bonde. Surgiram algumas pessoas que ajudaram a tirar o pára-choques do limpa-trilhos do bonde. Para não correr o risco de engatar novamente, esperaram um pouco, dando certa distância entre eles e o bonde.
Mais um pouco de tempo e estavam em frente ao palácio do governador. Antes de sair do carro, arrumaram-se como foi possível. Depois do lamaçal, da chuva, do bonde, estavam no destino.
Só que a coisa ainda não havia terminado. A chuva tinha alagado a rua e elas tiveram que caminhar em um verdadeiro riacho. Quando encontraram com o governador, estavam com os sapatos sujos, os cabelos despenteados, as roupas com respingos de lama...
A missão, no entanto apresentou bons resultados. Com a cooperação do governo, em pouco tempo as mães trabalhadoras de Tatuí tinham um lugar decente para deixar seus filhos, como têm até hoje.
domingo, março 26, 2006
Enterro atrasado
Padre Murari foi mesmo inesquecível. Alguns tatuianos mais antigos dizem que “foi o melhor padre que passou por Tatuí”.
Pode mesmo até ser verdade, mas não dá para dizer que era um padre dotado de paciência. O homem resolvia as coisas de seu jeito, não aceitando intromissão.
Certo dia faleceu um morador de um sítio um tanto longe da cidade. O óbito aconteceu ao meio dia em uma propriedade isolada. Junto só estava sua esposa. A mulher saiu de casa toda nervosa para avisar vizinhos e parentes. Como a propriedade era longe dos vizinhos, ela só retornou quando a noite já estava alta.
Alguns parentes, amigos e vizinhos passaram a noite toda velando o defunto. O choro dos parentes e das carpideiras atravessou a noite. O bule de café não parava cheio. Uma das vizinhas passou a noite fazendo incontáveis cafés. Enquanto isso, os homens contavam "causos" e tomavam toda pinga que havia por lá.
No dia seguinte, formaram um cortejo para levar o corpo a Tatuí, para ser enterrado no Cemitério Municipal.
Automóveis ainda eram raros nessa época. O sítio era longe e não tinha estradas, só caminhos. Colocaram o defunto em uma carroça e vieram à cidade.
Além do caminho ser ruim, faziam questão de passar pelas casas de conhecidos, para avisar do ocorrido. E todos queriam saber o que havia acontecido com o morto. Porque morreu, se estava doente, etcetera e tal. E ia juntando gente acompanhando o enterro. Mas cada parada atrasava mais um pouco a viagem. Quando chegaram à cidade já era bem tarde.
Não sei se devido à doença que o matou ou ao tempo transcorrido, quando chegou à cidade o corpo já começava a cheirar mal. A viúva desejava que o padre benzesse o defunto, realizando o último de seus desejos. Não queria enterrar sem isso.
Pararam a carroça na funerária, para comprar um caixão. Encontraram lá um que deu certo com o tamanho do defunto. No entanto, era um caixão caro e a viúva gastou todo seu dinheiro para pagá-lo.
A partir da funerária, o caixão seguiu carregado pelos parentes e amigos que acompanhavam o cortejo fúnebre desde o sítio. Ao chegar na igreja matriz, como a porta estava aberta, entraram com o caixão, para que o padre desse suas bênçãos ao morto.
Só que o padre não estava lá. Padre Murari havia saído para visitar alguém e não havia como avisá-lo.
Esperaram quase duas horas. Já era hora de fechar o cemitério. Nada do padre aparecer. Um dos parentes do morto correu ao cemitério para pedir que esperassem um pouco mais, avisando que o defunto já chegaria.
Enquanto isso, o defunto cheirava mal cada vez mais.
Preocupado, o João Sacristão mandou um mensageiro até onde o padre estava, pedindo que este voltasse logo, para benzer um defunto.
Padre Murari ficou contrariadíssimo. Estava na casa de amigos tomando uma pinga que trouxeram de Minas Gerais especialmente para ele.
Demorou um pouco mais, mas veio.
Entrou pela Casa Paroquial. Foi lá fazer alguma necessidade fisiológica. Logo saiu.
Chegou o padre. Enfim ele estava na sacristia colocando seus paramentos. O pessoal que acompanhava o enterro estava já conversando alto dentro da igreja, o que deixou o padre mais contrariado ainda.
Quando aproximou-se do defunto, assustou-se com o cheiro. O pobre homem já fedia.
Nesse instante, João Sacristão avisou que não haviam pago a taxa que se cobrava para benzer defuntos.
- Ah, tem que pagar! – determinou o padre.
A viúva veio explicar que não tinha mais dinheiro, que gastou tudo com a compra do caixão.
Nesse momento, aquelas pessoas que acompanhavam o enterro sumiram de perto. Uns olhando para as pinturas da parede e outros para o teto. Talvez ficassem obsortos ao apreciar as imagens dos querubins do teto em frente à sacristia. Sabemos que o pintor inspirou-se na criança mais linda de Tatuí dessa ocasião para pintar os tais anjinhos. Ninguém se prontificou a pagar ao padre.
- Não adianta, se não pagar não posso dar a bênção. É a norma! – afirmou o padre.
Mas o fedor invadia toda a igreja. Não dava mais para ficar com aquele defunto por ali.
A viúva, que desejava cumprir o desejo do falecido, disse:
- Não vou tirar meu marido daqui enquanto o padre não benzer! Que fique aqui o corpo - disse a viúva.
O problema estava agravando-se. O cheiro estava terrível.
Como não havia outra saída, padre Murari aproximou-se do caixão para dar suas bênçãos ao morto. Ih, mas quando abriram o caixão o cheiro aumentou! A situação estava muito ruim.
Proferiu rapidamente as palavras sacramentadas recomendando o defunto.
Saiu logo em seguida, ainda mais contrariado do que quando entrou e, tapando suas narinas com uma das mãos e gesticulando com a outra, ordenou a todos que retirassem o quanto antes aquele caixão:
- Pronto, pronto! Agora tratem de levar esse defunto... Que vá feder lá nos quintos dos infernos! – resmungou padre Murari.
Pode mesmo até ser verdade, mas não dá para dizer que era um padre dotado de paciência. O homem resolvia as coisas de seu jeito, não aceitando intromissão.
Certo dia faleceu um morador de um sítio um tanto longe da cidade. O óbito aconteceu ao meio dia em uma propriedade isolada. Junto só estava sua esposa. A mulher saiu de casa toda nervosa para avisar vizinhos e parentes. Como a propriedade era longe dos vizinhos, ela só retornou quando a noite já estava alta.
Alguns parentes, amigos e vizinhos passaram a noite toda velando o defunto. O choro dos parentes e das carpideiras atravessou a noite. O bule de café não parava cheio. Uma das vizinhas passou a noite fazendo incontáveis cafés. Enquanto isso, os homens contavam "causos" e tomavam toda pinga que havia por lá.
No dia seguinte, formaram um cortejo para levar o corpo a Tatuí, para ser enterrado no Cemitério Municipal.
Automóveis ainda eram raros nessa época. O sítio era longe e não tinha estradas, só caminhos. Colocaram o defunto em uma carroça e vieram à cidade.
Além do caminho ser ruim, faziam questão de passar pelas casas de conhecidos, para avisar do ocorrido. E todos queriam saber o que havia acontecido com o morto. Porque morreu, se estava doente, etcetera e tal. E ia juntando gente acompanhando o enterro. Mas cada parada atrasava mais um pouco a viagem. Quando chegaram à cidade já era bem tarde.
Não sei se devido à doença que o matou ou ao tempo transcorrido, quando chegou à cidade o corpo já começava a cheirar mal. A viúva desejava que o padre benzesse o defunto, realizando o último de seus desejos. Não queria enterrar sem isso.
Pararam a carroça na funerária, para comprar um caixão. Encontraram lá um que deu certo com o tamanho do defunto. No entanto, era um caixão caro e a viúva gastou todo seu dinheiro para pagá-lo.
A partir da funerária, o caixão seguiu carregado pelos parentes e amigos que acompanhavam o cortejo fúnebre desde o sítio. Ao chegar na igreja matriz, como a porta estava aberta, entraram com o caixão, para que o padre desse suas bênçãos ao morto.
Só que o padre não estava lá. Padre Murari havia saído para visitar alguém e não havia como avisá-lo.
Esperaram quase duas horas. Já era hora de fechar o cemitério. Nada do padre aparecer. Um dos parentes do morto correu ao cemitério para pedir que esperassem um pouco mais, avisando que o defunto já chegaria.
Enquanto isso, o defunto cheirava mal cada vez mais.
Preocupado, o João Sacristão mandou um mensageiro até onde o padre estava, pedindo que este voltasse logo, para benzer um defunto.
Padre Murari ficou contrariadíssimo. Estava na casa de amigos tomando uma pinga que trouxeram de Minas Gerais especialmente para ele.
Demorou um pouco mais, mas veio.
Entrou pela Casa Paroquial. Foi lá fazer alguma necessidade fisiológica. Logo saiu.
Chegou o padre. Enfim ele estava na sacristia colocando seus paramentos. O pessoal que acompanhava o enterro estava já conversando alto dentro da igreja, o que deixou o padre mais contrariado ainda.
Quando aproximou-se do defunto, assustou-se com o cheiro. O pobre homem já fedia.
Nesse instante, João Sacristão avisou que não haviam pago a taxa que se cobrava para benzer defuntos.
- Ah, tem que pagar! – determinou o padre.
A viúva veio explicar que não tinha mais dinheiro, que gastou tudo com a compra do caixão.
Nesse momento, aquelas pessoas que acompanhavam o enterro sumiram de perto. Uns olhando para as pinturas da parede e outros para o teto. Talvez ficassem obsortos ao apreciar as imagens dos querubins do teto em frente à sacristia. Sabemos que o pintor inspirou-se na criança mais linda de Tatuí dessa ocasião para pintar os tais anjinhos. Ninguém se prontificou a pagar ao padre.
- Não adianta, se não pagar não posso dar a bênção. É a norma! – afirmou o padre.
Mas o fedor invadia toda a igreja. Não dava mais para ficar com aquele defunto por ali.
A viúva, que desejava cumprir o desejo do falecido, disse:
- Não vou tirar meu marido daqui enquanto o padre não benzer! Que fique aqui o corpo - disse a viúva.
O problema estava agravando-se. O cheiro estava terrível.
Como não havia outra saída, padre Murari aproximou-se do caixão para dar suas bênçãos ao morto. Ih, mas quando abriram o caixão o cheiro aumentou! A situação estava muito ruim.
Proferiu rapidamente as palavras sacramentadas recomendando o defunto.
Saiu logo em seguida, ainda mais contrariado do que quando entrou e, tapando suas narinas com uma das mãos e gesticulando com a outra, ordenou a todos que retirassem o quanto antes aquele caixão:
- Pronto, pronto! Agora tratem de levar esse defunto... Que vá feder lá nos quintos dos infernos! – resmungou padre Murari.
sábado, março 25, 2006
Desempate animal
Este caso, lembrado pelo historiador Antonio Alcebíades Paes, ocorreu em uma ocasião em que a Quadra ainda não tinha sido emancipada, fazia parte do município de Tatuí. Era o Distrito de Quadra, hoje Município de Quadra.
Havia certa rixa entre os moradores do atual município para com moradores da sede, decorrente de inúmeras razões, incluindo o descaso que algumas administrações de Tatuí mantiveram em relação ao distrito.
Certo dia marcou-se um espetacular jogo de futebol entre o glorioso Palmeiras de Quadra e a Seleção de Tatuí. O jogo, que aconteceria em um campo de futebol do distrito, foi ansiosamente aguardado pelos entusiastas. O time quadrense já possuía uma torcida respeitável e, como era contra um selecionado tatuiano, praticamente a população inteira de lá torcia contra os visitantes.
O jogo aconteceu em um domingo. Coincidentemente foi um lindo dia. Desde o amanhecer o dia prometia ser bom... e foi mesmo. O sol brilhava em um céu todo azul. Uma brisa suave e refrescante soprava de quando em quando, sem esfriar e deixando um clima agradável.
Churrascos, cervejas, chopes e batidinhas foram consumidos desde cedo. O dia começou com desafios de cururu, entre tatuianos e quadrenses. Na parte da manhã também teve um torneio de truco movimentando o centro de Quadra.
Apesar da movimentação, a expectativa era a partida de futebol, marcada para as 4 horas da tarde.
As pessoas estavam alegres e não havia clima para brigas, muito comuns nesse tipo de festa. Os comerciantes de Quadra estavam satisfeitos, pois muita gente estava visitando o lugar, consumindo bebidas, refrigerantes, sorvetes, refeições... “Ah, se isso acontecesse sempre!!!” – pensavam as pessoas mais esclarecidas – “Poderia movimentar a economia da região!”.
O dia transcorreu alegre. Logo depois do almoço, as pessoas já iam encaminhando-se para o local do jogo. Até mesmo a partida preliminar foi assistida por uma multidão.
Era um belo cenário. Belo e colorido. Belo, colorido e alegre!!! Crianças, jovens, adultos e velhos, homens e mulheres, lotavam os arredores do campo. O campo, no entanto, era improvisado, não tinha nem mesmo cerca. Sem fazer trocadilho, o campo era só um descampado.
Mas isso não diminuiu o brilho da ocasião. As redondezas estavam cheias de vendedores de caldo de cana, pastéis, salgadinhos, latinhas de cerveja... e incontáveis sorveteiros.
Chegou a hora do jogo principal. Um dos jogadores era o Formigão Soares que, apesar de morar em Tatuí, jogou para o time do Palmeiras de Quadra. Era o seu time do coração!
A partida estava difícil para ambas as equipes. A multidão assistia sem avançar no campo. Mesmo sem qualquer cerca, havia uma marcação feita com cal no chão, que as pessoas respeitaram todo o tempo. Ninguém invadiu o campo. Não aconteceu nenhuma ocorrência negativa. O policiamento, reforçado nessa ocasião, praticamente não teve trabalho. Uma bela festa, sob todos os aspectos.
GOOOOOL! – o Palmeiras de Quadra marcou o primeiro gol.
A vibração dos torcedores era intensa, mas durou pouco. Menos de um minuto depois a seleção tatuiana marcava o seu gol: GOOOL!!!
E assim foi o jogo: 1 x 1 até quase o final.
No último minuto, o time de Quadra foi cobrar um escanteio. Todos os olhares estavam voltados para o jogador que ia chutar. Pumm! Chutou.
Nesse instante, sem que ninguém percebesse, uma vaca entrou no campo. Não havia cerca e a grama lhe pareceu apetitosa!!!
Bumm! A bola acertou bem na testa da vaca, desviou-se e, pasmem, entrou no gol!!!
GOOOL!
- Hei juiz, tem que anular! – gritaram os jogadores da seleção tatuiana.
- Não, tem que marcar! – rebateram os quadrenses.
-Não! Sim! Não! Sim! – a paz que reinara até aquele instante estava ameaçada.
O juiz não sabia o que fazer. A multidão já estava entrando em campo. Os policiais, que não haviam tido qualquer problema, eram insuficientes para conter a multidão.
Discute-se aqui. Discute-se ali. Foi gol! Não foi gol!
Alguém trouxe a solução:
- Escutem aqui: a vaca é de Tatuí ou da Quadra?
- Da Quadra!
- Então é gol da Quadra!
O juiz então resolveu que o gol seria mesmo validado. A vaca era da Quadra e o gol ficou para o Palmeiras de Quadra. Aiaiaí, Alcebíades! Será verdade isso?
Havia certa rixa entre os moradores do atual município para com moradores da sede, decorrente de inúmeras razões, incluindo o descaso que algumas administrações de Tatuí mantiveram em relação ao distrito.
Certo dia marcou-se um espetacular jogo de futebol entre o glorioso Palmeiras de Quadra e a Seleção de Tatuí. O jogo, que aconteceria em um campo de futebol do distrito, foi ansiosamente aguardado pelos entusiastas. O time quadrense já possuía uma torcida respeitável e, como era contra um selecionado tatuiano, praticamente a população inteira de lá torcia contra os visitantes.
O jogo aconteceu em um domingo. Coincidentemente foi um lindo dia. Desde o amanhecer o dia prometia ser bom... e foi mesmo. O sol brilhava em um céu todo azul. Uma brisa suave e refrescante soprava de quando em quando, sem esfriar e deixando um clima agradável.
Churrascos, cervejas, chopes e batidinhas foram consumidos desde cedo. O dia começou com desafios de cururu, entre tatuianos e quadrenses. Na parte da manhã também teve um torneio de truco movimentando o centro de Quadra.
Apesar da movimentação, a expectativa era a partida de futebol, marcada para as 4 horas da tarde.
As pessoas estavam alegres e não havia clima para brigas, muito comuns nesse tipo de festa. Os comerciantes de Quadra estavam satisfeitos, pois muita gente estava visitando o lugar, consumindo bebidas, refrigerantes, sorvetes, refeições... “Ah, se isso acontecesse sempre!!!” – pensavam as pessoas mais esclarecidas – “Poderia movimentar a economia da região!”.
O dia transcorreu alegre. Logo depois do almoço, as pessoas já iam encaminhando-se para o local do jogo. Até mesmo a partida preliminar foi assistida por uma multidão.
Era um belo cenário. Belo e colorido. Belo, colorido e alegre!!! Crianças, jovens, adultos e velhos, homens e mulheres, lotavam os arredores do campo. O campo, no entanto, era improvisado, não tinha nem mesmo cerca. Sem fazer trocadilho, o campo era só um descampado.
Mas isso não diminuiu o brilho da ocasião. As redondezas estavam cheias de vendedores de caldo de cana, pastéis, salgadinhos, latinhas de cerveja... e incontáveis sorveteiros.
Chegou a hora do jogo principal. Um dos jogadores era o Formigão Soares que, apesar de morar em Tatuí, jogou para o time do Palmeiras de Quadra. Era o seu time do coração!
A partida estava difícil para ambas as equipes. A multidão assistia sem avançar no campo. Mesmo sem qualquer cerca, havia uma marcação feita com cal no chão, que as pessoas respeitaram todo o tempo. Ninguém invadiu o campo. Não aconteceu nenhuma ocorrência negativa. O policiamento, reforçado nessa ocasião, praticamente não teve trabalho. Uma bela festa, sob todos os aspectos.
GOOOOOL! – o Palmeiras de Quadra marcou o primeiro gol.
A vibração dos torcedores era intensa, mas durou pouco. Menos de um minuto depois a seleção tatuiana marcava o seu gol: GOOOL!!!
E assim foi o jogo: 1 x 1 até quase o final.
No último minuto, o time de Quadra foi cobrar um escanteio. Todos os olhares estavam voltados para o jogador que ia chutar. Pumm! Chutou.
Nesse instante, sem que ninguém percebesse, uma vaca entrou no campo. Não havia cerca e a grama lhe pareceu apetitosa!!!
Bumm! A bola acertou bem na testa da vaca, desviou-se e, pasmem, entrou no gol!!!
GOOOL!
- Hei juiz, tem que anular! – gritaram os jogadores da seleção tatuiana.
- Não, tem que marcar! – rebateram os quadrenses.
-Não! Sim! Não! Sim! – a paz que reinara até aquele instante estava ameaçada.
O juiz não sabia o que fazer. A multidão já estava entrando em campo. Os policiais, que não haviam tido qualquer problema, eram insuficientes para conter a multidão.
Discute-se aqui. Discute-se ali. Foi gol! Não foi gol!
Alguém trouxe a solução:
- Escutem aqui: a vaca é de Tatuí ou da Quadra?
- Da Quadra!
- Então é gol da Quadra!
O juiz então resolveu que o gol seria mesmo validado. A vaca era da Quadra e o gol ficou para o Palmeiras de Quadra. Aiaiaí, Alcebíades! Será verdade isso?
sexta-feira, março 24, 2006
Caipirices ao extremo
Quando escrevi o caso da prótese ocular, lembrei-me da mansão dos Salles Gomes, ali na Praça Paulo Setúbal, na época em que lá residia o Pingo (Carlos Eduardo Vieira de Morais). A gente brincava no quintal da casa, que ocupava o quarteirão todo. Frutas de todo tipo. Era um lugar onde moleques tinham muitas coisas para fazer sem ter que sair na rua. Hoje é a casa do Birdinho.
Na época em que morava lá, seu Rubens, pai do Pingo, negociava automóveis de luxo. Os carrões que apareciam por lá eram todos estupendos.
Mas havia um especial: o Chevrolet Impala! O carro que fazia mais sucesso nesses anos. Lembro-me de um branco, ano 1964, conversível, uma verdadeira maravilha sobre rodas. Um sábado à noite o Pingo deu um jeito de tirar o carro sorrateiramente de sua casa e saímos dar umas bandas... Nós, nesse tempo, éramos todos menores de idade... 14, 15 ou 16 anos!!!
Mas aquele carrão era muito para as ruas tatuianas, que então não tinham pavimentação em sua maioria. Além disso, a cidade começava na Rua São Bento e acabava ali na rua Cel. Guilherme. De outro lado, iniciava na Avenida das Mangueiras e findava no Marapé. A cidade era muito menor.
Como o carro pedia asfalto, fomos, nessa noite, até Capela do Alto, viagem que o Pingo aproveitou para acelerar... acelerar... acelerar... A estrada era nova, o asfalto lisinho, dava gosto andar nela.
Em Capela do Alto passamos rapidamente pelo centro, onde estavam as pessoas. Para esnobar, no momento em que passávamos na praça da cidade, o Pingo apertou o botão que baixava a capota conversível. O carro lotado de moleques: Pingo, eu, Tadeu, Fred Lorenzetti... viramos na primeira esquina e passamos novamente na pracinha, desta vez o Pingo havia apertado o botão para recolher a capota...
Os caipiras de Tatuí tentando impressionar os pessoal de Capela!!! E vai e volta, e ergue a capota e baixa a capota... Seja como for, parou tudo em Capela do Alto para ver o Impala conversível.
A intenção era chamar a atenção das meninas, mas o que aconteceu, de verdade, foi que os caras ficaram queimados com a gente e estavam já se organizando para dar uma surra em nós. Por nossa sorte um pouco antes disso o Pingo resolveu vir embora e, na estrada, ninguém alcançava um Impala. Disto, que as pessoas estavam tentando bater na gente soubemos uns dois ou três anos depois, quando um desses capelenses veio estudar em Tatuí e foi meu colega. Ele quem contou, quando comentei a respeito de nossa viagem de conversível.
Não sei como é hoje, mas há 30 ou 40 anos, eram comuns essas rixas entre cidades. Dá para citar, por exemplo, a relação entre Tatuí e Itapetininga: tatuianos não podiam ir a Itapetininga que logo apanhavam do pessoal. Da mesma forma, os itapetininganos não podiam vir a Tatuí sem apanhar. Conta-se de uma vez que o Zé Turco, o Munir, o Turcão do Bar 80 e mais dois amigos foram até Itapetininga em um Gordini. Nesse carro mal cabiam 5 pessoas um tanto apertadas (ainda mais uns passageiros do tamanho destes). Mas eles apanharam tanto por lá que só couberam 4 pessoas para voltar!
Escapamos por pouco de apanhar em Capela do Alto. Mas imagine só, isto é caipirismo ao extremo... ergue capota, baixa capota, ergue capota, baixa capota!!!! Acho que algo assim merecia mesmo uma surra! Que coisa!
Na época em que morava lá, seu Rubens, pai do Pingo, negociava automóveis de luxo. Os carrões que apareciam por lá eram todos estupendos.
Mas havia um especial: o Chevrolet Impala! O carro que fazia mais sucesso nesses anos. Lembro-me de um branco, ano 1964, conversível, uma verdadeira maravilha sobre rodas. Um sábado à noite o Pingo deu um jeito de tirar o carro sorrateiramente de sua casa e saímos dar umas bandas... Nós, nesse tempo, éramos todos menores de idade... 14, 15 ou 16 anos!!!
Mas aquele carrão era muito para as ruas tatuianas, que então não tinham pavimentação em sua maioria. Além disso, a cidade começava na Rua São Bento e acabava ali na rua Cel. Guilherme. De outro lado, iniciava na Avenida das Mangueiras e findava no Marapé. A cidade era muito menor.
Como o carro pedia asfalto, fomos, nessa noite, até Capela do Alto, viagem que o Pingo aproveitou para acelerar... acelerar... acelerar... A estrada era nova, o asfalto lisinho, dava gosto andar nela.
Em Capela do Alto passamos rapidamente pelo centro, onde estavam as pessoas. Para esnobar, no momento em que passávamos na praça da cidade, o Pingo apertou o botão que baixava a capota conversível. O carro lotado de moleques: Pingo, eu, Tadeu, Fred Lorenzetti... viramos na primeira esquina e passamos novamente na pracinha, desta vez o Pingo havia apertado o botão para recolher a capota...
Os caipiras de Tatuí tentando impressionar os pessoal de Capela!!! E vai e volta, e ergue a capota e baixa a capota... Seja como for, parou tudo em Capela do Alto para ver o Impala conversível.
A intenção era chamar a atenção das meninas, mas o que aconteceu, de verdade, foi que os caras ficaram queimados com a gente e estavam já se organizando para dar uma surra em nós. Por nossa sorte um pouco antes disso o Pingo resolveu vir embora e, na estrada, ninguém alcançava um Impala. Disto, que as pessoas estavam tentando bater na gente soubemos uns dois ou três anos depois, quando um desses capelenses veio estudar em Tatuí e foi meu colega. Ele quem contou, quando comentei a respeito de nossa viagem de conversível.
Não sei como é hoje, mas há 30 ou 40 anos, eram comuns essas rixas entre cidades. Dá para citar, por exemplo, a relação entre Tatuí e Itapetininga: tatuianos não podiam ir a Itapetininga que logo apanhavam do pessoal. Da mesma forma, os itapetininganos não podiam vir a Tatuí sem apanhar. Conta-se de uma vez que o Zé Turco, o Munir, o Turcão do Bar 80 e mais dois amigos foram até Itapetininga em um Gordini. Nesse carro mal cabiam 5 pessoas um tanto apertadas (ainda mais uns passageiros do tamanho destes). Mas eles apanharam tanto por lá que só couberam 4 pessoas para voltar!
Escapamos por pouco de apanhar em Capela do Alto. Mas imagine só, isto é caipirismo ao extremo... ergue capota, baixa capota, ergue capota, baixa capota!!!! Acho que algo assim merecia mesmo uma surra! Que coisa!
O caso macabro
Este caso macabro e escabroso foi contado pelo Zezinho Malaquias, que ouviu do Darci Quinteiro. Vamos lá:
A subida do Morro Grande era muito mais íngreme que hoje. Há alguns anos foi rebaixada um pouco, aumentando em comprimento, mas reduzindo seu ângulo. Esse acesso foi chamado de Morro Grande Velho, depois que foi rasgada a “estrada de Porangaba”, atualmente denominada de Avenida Pompeu Reali.
A subida do Morro Grande Velho era terrível. Mas tinha sua serventia extra, mesmo depois da nova estrada de Porangaba, que desviava do tope, subindo mais devagar. Não havia negócio de mulas ou cavalos em Tatuí sem que o animal fosse experimentado nessa subida:
- Pode exprimentá! O animar sobe o Morro Grande co arreio compreto! – diziam os negociantes de eqüinos e muares.
Como via de acesso a subida do Morro Grande Velho havia sido substituída pela atual Avenida Pompeu Reali, mas ainda residiam algumas famílias nessa região. Atualmente há até mesmo condomínio para a classe média.
Este caso que conto aqui ocorreu há mais de trinta anos, ocasião em que o Darci Quinteiro tinha um bar logo no início da Rua Capitão Lisboa. O acesso pela avenida já era todo asfaltado, mas a velha subida do morro continuava do mesmo jeito... uma lama terrível, visto que ali o barro é grudento, terra piçarra ótima para olarias e péssima para o trânsito de veículos.
Um dia faleceu um morador do alto do morro, quase lá no bairro da Guardinha. Estava desenganado, passou mal desde a noite e faleceu pouco antes do meio-dia... Como os recursos eram poucos, o cunhado do morto desceu na cidade para avisar a funerária e acertar a arrumação do defunto em sua última viagem.
Resolveu parar no bar do Darci Quinteiro para limpar os sapatos do barro do morro, antes de prosseguir em sua caminhada.
Entrando no bar, contou ao Darci o que havia acontecido, que seu cunhado faleceu e que estava indo acertar a funerária e alguém para limpar e arrumar o defunto. Uns fregueses que lá estavam ficaram condoídos com o homem. Sabendo de sua triste situação, ofereceram uma bebida para que este pudesse continuar com um pouco mais de ânimo.
Claro que ele aceitou aquela oferta! Era justamente o que mais precisava naquele momento, um pouco de álcool para reduzir suas preocupações.
Enquanto tomava a bebida, chegaram mais alguns freqüentadores que, sabendo da história do falecimento do tal sujeito, ofereceram mais uns tragos. Queriam amenizar a infelicidade do cunhado do defunto.
Entra freguês e sai freguês e cada um pagava uma bebida... qualquer coisa que ele desejasse... daí ele percebeu que essa história de defunto estava lhe rendendo bebida de graça.
Em pouco tempo, foi juntando gente no bar. Chegaram alguns chapas que tinham acabado de receber por uma descarga ali na Indústria Marapé. Acharam que até conheciam o defunto, não tinham certeza, mas isso não importava. Aqueles homens, com dinheiro no bolso e um motivo para beber, passaram a tomar todas... o pobre homem, que nem precisava mais fazer cara de dó, pois já estava de dar dó, não parava de tomar... Brahma, Antarctica, quebra-gelo, Brahma, Antarctica, tira gosto... já tinha esquecido o que deveria fazer... estava “miando”...
Com essas tristes homenagens ao defunto, as horas foram passando. Ele que tinha saído pouco depois do meio-dia, não percebia que a tarde estava no fim. Não estava com fome, porque havia saboreado uns tira-gostos... mortadela... queijo provolone com óleo de oliva... coxinhas... almôndegas... tudo acompanhado de molho de pimenta e muita bebida.
Quando caiu em si percebeu que já era quase noite:
- Ai, eu preciso buscar alguém para limpar o defunto!!! – exclamou.
Os outros fregueses já estavam a “mil por hora”, mas um deles falou:
- Fica sussegado que nóis vai lavá o defunto pra você!
Isto deixou o homem tranqüilo, que aceitou mais uma cerveja oferecida por outro freqüentador do bar. Um pouco mais de tempo e o Darci avisou que ia fechar o bar. Assim, saiu o homem acompanhado de mais quatro “paus d’água” e dirigiram-se para o morro.
Certamente que a tarefa a ser realizada não era coisa para todos. A maioria das pessoas não se sentem confortáveis em lidar com defuntos. Sabedores disto, tiveram o cuidado de levar umas garrafas de cachaça para dar ânimo durante a limpeza do morto.
Chegaram os cinco depois de muita dificuldade para subir o morro. Pudera, estava tudo escuro e, para completar, bebiam há horas! A viúva estava desesperada. Não era para menos, seu irmão saiu muitas horas atrás para buscar ajuda para enterrar seu esposo e só agora retornou. Resta lembrar que, nessa época, eram raras as residências nesse bairro. Uma isolada da outra. A viúva não saiu de casa para não deixar o defunto sozinho, esperando, de um momento para outro, a chegada da funerária. Isto não aconteceu.
Vieram apenas os pinguços que passaram a tarde bebendo em homenagem ao falecido. Na casa, de pau-e-barro, só tinha um pequeno lampião a querosene. A escuridão era quase total. Mas resolveram assim mesmo lavar o defunto para ajeitar em sua roupa, para a viagem final.
Para realizar aquela tarefa desagradável, continuaram a beber enquanto ensaboavam o defunto.
Encheram de água uma bacia e, com bastante dificuldade, carregaram o morto. Estava já enrijecido... colocaram seu corpo sobre a bacia. Não conseguiam dobrar o corpo para colocar as nádegas na água.
- É só forçar um pouco que dobra! – disse um deles.
E assim fizeram. Forçaram para que o corpo do defunto mergulhasse na água, para que fosse possível lavar adequadamente as suas partes íntimas. Mas ao forçar o morto, alguns gases foram expelidos, por todos seus orifícios. O processo de decomposição já estava em andamento.
Na limpeza, enquanto um deles jogava água com uma caneca, outro esfregava o sabão no defunto. A luz não clareava direito.
De repente, o pinguço que ensaboava deixou cair o sabão na água. Como estava quase totalmente escuro, enfiou a mão na água e, tateando, encontrou algo quee pegou para continuar a esfregar.
Esfrega aqui e esfrega ali e o morto começou a cheirar mal. Muito mal.
- Ainda bem que nós viemos lavar o amigo. Ele já está fedendo muito! – disse um dos prestimosos limpadores de defunto.
Só que o cheiro não saía, pelo contrário, aumentava cada vez mais. Aquele que ensaboava o defunto foi cheirar sua própria mão, pois não agüentava mais o fedor.
- Ai! Cadê o sabão? – exclamou surpreso - Meu Deus! O que foi que aconteceu? Parece que virou merda!
E realmente o que estava em sua mão não era nenhum sabão. Era um cocô do defunto... Quando dobraram o corpo do morto sobre a bacia, foram expelidos gases e um pouco de fezes. É coisa normal em defuntos que, mesmo algum tempo depois de mortos, ainda possam expelir fezes.
Aconteceu que nesse momento em que o fizeram dobrar, o defunto obrou. Quando caiu o sabonete, o pau d’água que pegou a coisa dentro da bacia não conseguiu identificar direito e pegou um cocô do defunto...
Estavam espalhando merda no defunto. A limpeza estava dando resultados opostos. Em vez de limpar, sujaram o morto. Ficou tão sujo como se tivesse caído em uma fossa negra. Arre, que situação!!!
A subida do Morro Grande era muito mais íngreme que hoje. Há alguns anos foi rebaixada um pouco, aumentando em comprimento, mas reduzindo seu ângulo. Esse acesso foi chamado de Morro Grande Velho, depois que foi rasgada a “estrada de Porangaba”, atualmente denominada de Avenida Pompeu Reali.
A subida do Morro Grande Velho era terrível. Mas tinha sua serventia extra, mesmo depois da nova estrada de Porangaba, que desviava do tope, subindo mais devagar. Não havia negócio de mulas ou cavalos em Tatuí sem que o animal fosse experimentado nessa subida:
- Pode exprimentá! O animar sobe o Morro Grande co arreio compreto! – diziam os negociantes de eqüinos e muares.
Como via de acesso a subida do Morro Grande Velho havia sido substituída pela atual Avenida Pompeu Reali, mas ainda residiam algumas famílias nessa região. Atualmente há até mesmo condomínio para a classe média.
Este caso que conto aqui ocorreu há mais de trinta anos, ocasião em que o Darci Quinteiro tinha um bar logo no início da Rua Capitão Lisboa. O acesso pela avenida já era todo asfaltado, mas a velha subida do morro continuava do mesmo jeito... uma lama terrível, visto que ali o barro é grudento, terra piçarra ótima para olarias e péssima para o trânsito de veículos.
Um dia faleceu um morador do alto do morro, quase lá no bairro da Guardinha. Estava desenganado, passou mal desde a noite e faleceu pouco antes do meio-dia... Como os recursos eram poucos, o cunhado do morto desceu na cidade para avisar a funerária e acertar a arrumação do defunto em sua última viagem.
Resolveu parar no bar do Darci Quinteiro para limpar os sapatos do barro do morro, antes de prosseguir em sua caminhada.
Entrando no bar, contou ao Darci o que havia acontecido, que seu cunhado faleceu e que estava indo acertar a funerária e alguém para limpar e arrumar o defunto. Uns fregueses que lá estavam ficaram condoídos com o homem. Sabendo de sua triste situação, ofereceram uma bebida para que este pudesse continuar com um pouco mais de ânimo.
Claro que ele aceitou aquela oferta! Era justamente o que mais precisava naquele momento, um pouco de álcool para reduzir suas preocupações.
Enquanto tomava a bebida, chegaram mais alguns freqüentadores que, sabendo da história do falecimento do tal sujeito, ofereceram mais uns tragos. Queriam amenizar a infelicidade do cunhado do defunto.
Entra freguês e sai freguês e cada um pagava uma bebida... qualquer coisa que ele desejasse... daí ele percebeu que essa história de defunto estava lhe rendendo bebida de graça.
Em pouco tempo, foi juntando gente no bar. Chegaram alguns chapas que tinham acabado de receber por uma descarga ali na Indústria Marapé. Acharam que até conheciam o defunto, não tinham certeza, mas isso não importava. Aqueles homens, com dinheiro no bolso e um motivo para beber, passaram a tomar todas... o pobre homem, que nem precisava mais fazer cara de dó, pois já estava de dar dó, não parava de tomar... Brahma, Antarctica, quebra-gelo, Brahma, Antarctica, tira gosto... já tinha esquecido o que deveria fazer... estava “miando”...
Com essas tristes homenagens ao defunto, as horas foram passando. Ele que tinha saído pouco depois do meio-dia, não percebia que a tarde estava no fim. Não estava com fome, porque havia saboreado uns tira-gostos... mortadela... queijo provolone com óleo de oliva... coxinhas... almôndegas... tudo acompanhado de molho de pimenta e muita bebida.
Quando caiu em si percebeu que já era quase noite:
- Ai, eu preciso buscar alguém para limpar o defunto!!! – exclamou.
Os outros fregueses já estavam a “mil por hora”, mas um deles falou:
- Fica sussegado que nóis vai lavá o defunto pra você!
Isto deixou o homem tranqüilo, que aceitou mais uma cerveja oferecida por outro freqüentador do bar. Um pouco mais de tempo e o Darci avisou que ia fechar o bar. Assim, saiu o homem acompanhado de mais quatro “paus d’água” e dirigiram-se para o morro.
Certamente que a tarefa a ser realizada não era coisa para todos. A maioria das pessoas não se sentem confortáveis em lidar com defuntos. Sabedores disto, tiveram o cuidado de levar umas garrafas de cachaça para dar ânimo durante a limpeza do morto.
Chegaram os cinco depois de muita dificuldade para subir o morro. Pudera, estava tudo escuro e, para completar, bebiam há horas! A viúva estava desesperada. Não era para menos, seu irmão saiu muitas horas atrás para buscar ajuda para enterrar seu esposo e só agora retornou. Resta lembrar que, nessa época, eram raras as residências nesse bairro. Uma isolada da outra. A viúva não saiu de casa para não deixar o defunto sozinho, esperando, de um momento para outro, a chegada da funerária. Isto não aconteceu.
Vieram apenas os pinguços que passaram a tarde bebendo em homenagem ao falecido. Na casa, de pau-e-barro, só tinha um pequeno lampião a querosene. A escuridão era quase total. Mas resolveram assim mesmo lavar o defunto para ajeitar em sua roupa, para a viagem final.
Para realizar aquela tarefa desagradável, continuaram a beber enquanto ensaboavam o defunto.
Encheram de água uma bacia e, com bastante dificuldade, carregaram o morto. Estava já enrijecido... colocaram seu corpo sobre a bacia. Não conseguiam dobrar o corpo para colocar as nádegas na água.
- É só forçar um pouco que dobra! – disse um deles.
E assim fizeram. Forçaram para que o corpo do defunto mergulhasse na água, para que fosse possível lavar adequadamente as suas partes íntimas. Mas ao forçar o morto, alguns gases foram expelidos, por todos seus orifícios. O processo de decomposição já estava em andamento.
Na limpeza, enquanto um deles jogava água com uma caneca, outro esfregava o sabão no defunto. A luz não clareava direito.
De repente, o pinguço que ensaboava deixou cair o sabão na água. Como estava quase totalmente escuro, enfiou a mão na água e, tateando, encontrou algo quee pegou para continuar a esfregar.
Esfrega aqui e esfrega ali e o morto começou a cheirar mal. Muito mal.
- Ainda bem que nós viemos lavar o amigo. Ele já está fedendo muito! – disse um dos prestimosos limpadores de defunto.
Só que o cheiro não saía, pelo contrário, aumentava cada vez mais. Aquele que ensaboava o defunto foi cheirar sua própria mão, pois não agüentava mais o fedor.
- Ai! Cadê o sabão? – exclamou surpreso - Meu Deus! O que foi que aconteceu? Parece que virou merda!
E realmente o que estava em sua mão não era nenhum sabão. Era um cocô do defunto... Quando dobraram o corpo do morto sobre a bacia, foram expelidos gases e um pouco de fezes. É coisa normal em defuntos que, mesmo algum tempo depois de mortos, ainda possam expelir fezes.
Aconteceu que nesse momento em que o fizeram dobrar, o defunto obrou. Quando caiu o sabonete, o pau d’água que pegou a coisa dentro da bacia não conseguiu identificar direito e pegou um cocô do defunto...
Estavam espalhando merda no defunto. A limpeza estava dando resultados opostos. Em vez de limpar, sujaram o morto. Ficou tão sujo como se tivesse caído em uma fossa negra. Arre, que situação!!!
A seita do combate fluídico
Dochino Carnielli tinha uma bela chácara dentro da cidade. Logo ali, encostada na Escola Industrial. Há bem pouco tempo essa região era praticamente rural. Tinha a chácara do Junqueira, sítios dos Ramos... a cidade era bem menor que hoje. Menor mas muito mais progressista. O progresso sempre foi a marca típica de Tatuí, algo que também ficou sepultado no passado.
Este nosso caso está também no passado, quando Tatuí quase se transformou no berço de uma nova religião.
Nem mesmo nome teve essa religião, mas era baseada em um suposto combate fluídico, um exercício mental que deveria evitar enfermidades e até mesmo a própria morte.
Fiquei sabendo disso em uma ocasião em que fui conversar com o Dochino, em sua chácara. O lugar era realmente muito agradável. As árvores eram frondosas e, em alguns lugares, foram improvisados bancos de madeira, sempre nas sombras mais frescas.
Ele havia sido amigo de meu avô Tonico. Parece que, durante certo tempo, trabalhou lá na serraria de vovô e continuaram sendo amigos.
Eu conversava com Dochino, quando ele me disse que, um certo dia, estava discutindo com o espírito de meu avô naquele mesmo lugar.
- O espírito disse para mim que a coisa era de uma forma, mas eu falei para o espírito: “Não, de jeito nenhum... é da forma que eu estou falando” – de repente Dochino contou.
- Mas como é essa história de falar com espírito? É espírito de morto? – perguntei curioso.
- Não! É espírito de vivo. Quando morre acaba tudo! – afirmou para mim o Dochino. - Este fato, da discussão que tive com o espírito do Tonico Luciano, seu avô, ocorreu há mais de 15 anos. Depois que ele morreu nunca mais seu espírito voltou para fazer a viagem fruídica.
- Como assim? – indaguei.
- O espírito de cada pessoa sai do corpo e vai fazer viagens pelos fruídos da mente. Esses fruídos entram nas outras pessoas e podem ajudar ou prejudicar. – explicou.
Fiquei pensativo. Achei melhor nem tentar entender aquele homem. Mas mesmo assim ele continuou a explicar:
- O mundo tem uma grande guerra fruídica, com os espíritos lutando entre si. Os espíritos das pessoas que têm inveja de outros, saem do corpo dessa pessoa e vão, através dos fruídos perturbar o espírito de quem ela não gosta.
-Também aqueles que querem bem outras pessoas podem ajudar com fruídos positivos, fruídos benéficos!
Sua teoria era baseada em complicados fluxos de fluidos mentais repletos de espíritos, que iam e vinham fazendo maldades e/ou bondades. Lutava contra as hostes espirituais que navegavam nos fluidos com sua própria mente, naquilo que denominava de "combate fluídico".
Mentalmente, ele lutava contra os espíritos carregados de fluídos negativos, naquilo que chamava de "Combate Fluídico".
Dochino, como todo tatuiano, trocava a letra “ele” pelo “erre” em algumas frases, mudando “fluido” e “fluídico” para o seus especiais “fruído” ou “fruídico”.
- Com esse ataque fruídico, as pessoas sofrem doenças e acabam morrendo. – continuou a explicar sua teoria.
- Eu descobri esse fato e passei a fazer o “combate fruídico”. Eu fico concentrado e vejo os espíritos de quem quer me prejudicar e, mentarmente, passo a combater os fruídos negativos com meus fruídos positivos!
Percebi que ele acreditava realmente em sua teoria, pois o homem falava e ficava empolgadíssimo. Aí se eu demonstrasse não acreditar. Provavelmente ele iria achar que o meu espírito ainda voltaria para prejudicá-lo. Sendo assim, continuei a escutar seus argumentos:
- Eu tenho praticado o combate fruídico já há algum tempo. Não tenho nem mesmo ficado doente. – continuou a explicar.
- Descobri que a própria morte é resultado do ataque fruídico! – continuou.
- Como assim? – perguntei.
- O ser humano não foi feito para morrer! – afirmou.
- Acontece que os fruídos negativos atacam as pessoas e elas acabam ficando doentes e morrem. – continuou.
- Só que eu percebi isso a tempo e estou fazendo meu combate fruídico. Estou afastando a morte. – empolgadíssimo Dochino explicava tudo.
- Com esse combate fruídico eu vou ficar imortár! – completou.
- Não morre mais? – perguntei.
- Não! Fica imortár! – finalizou.
Logo em seguida fui embora. Nesse momento chegavam algumas pessoas para conversar com o Dochino. Entraram muito contentes e foram debaixo da sombra que eu estava há pouco.
Eram discípulos do Combate Fluídico. Sim, as teorias do Dochino já tinham arrebanhado alguns fiéis discípulos, que corriam até seu mestre para receber ensinamentos da forma de proceder ao tal combate e ficar imortal!
Infelizmente, uns poucos meses depois, Dochino faleceu. Ele deve ter perdido seu combate fluídico... deixou de ser imortal. Logicamente que os discípulos ficaram decepcionados com a morte do mestre, justo aquele que dizia ter encontrado a fórmula da imortalidade. Assim, em pouco tempo acabou a seita do combate fluídico...
Este nosso caso está também no passado, quando Tatuí quase se transformou no berço de uma nova religião.
Nem mesmo nome teve essa religião, mas era baseada em um suposto combate fluídico, um exercício mental que deveria evitar enfermidades e até mesmo a própria morte.
Fiquei sabendo disso em uma ocasião em que fui conversar com o Dochino, em sua chácara. O lugar era realmente muito agradável. As árvores eram frondosas e, em alguns lugares, foram improvisados bancos de madeira, sempre nas sombras mais frescas.
Ele havia sido amigo de meu avô Tonico. Parece que, durante certo tempo, trabalhou lá na serraria de vovô e continuaram sendo amigos.
Eu conversava com Dochino, quando ele me disse que, um certo dia, estava discutindo com o espírito de meu avô naquele mesmo lugar.
- O espírito disse para mim que a coisa era de uma forma, mas eu falei para o espírito: “Não, de jeito nenhum... é da forma que eu estou falando” – de repente Dochino contou.
- Mas como é essa história de falar com espírito? É espírito de morto? – perguntei curioso.
- Não! É espírito de vivo. Quando morre acaba tudo! – afirmou para mim o Dochino. - Este fato, da discussão que tive com o espírito do Tonico Luciano, seu avô, ocorreu há mais de 15 anos. Depois que ele morreu nunca mais seu espírito voltou para fazer a viagem fruídica.
- Como assim? – indaguei.
- O espírito de cada pessoa sai do corpo e vai fazer viagens pelos fruídos da mente. Esses fruídos entram nas outras pessoas e podem ajudar ou prejudicar. – explicou.
Fiquei pensativo. Achei melhor nem tentar entender aquele homem. Mas mesmo assim ele continuou a explicar:
- O mundo tem uma grande guerra fruídica, com os espíritos lutando entre si. Os espíritos das pessoas que têm inveja de outros, saem do corpo dessa pessoa e vão, através dos fruídos perturbar o espírito de quem ela não gosta.
-Também aqueles que querem bem outras pessoas podem ajudar com fruídos positivos, fruídos benéficos!
Sua teoria era baseada em complicados fluxos de fluidos mentais repletos de espíritos, que iam e vinham fazendo maldades e/ou bondades. Lutava contra as hostes espirituais que navegavam nos fluidos com sua própria mente, naquilo que denominava de "combate fluídico".
Mentalmente, ele lutava contra os espíritos carregados de fluídos negativos, naquilo que chamava de "Combate Fluídico".
Dochino, como todo tatuiano, trocava a letra “ele” pelo “erre” em algumas frases, mudando “fluido” e “fluídico” para o seus especiais “fruído” ou “fruídico”.
- Com esse ataque fruídico, as pessoas sofrem doenças e acabam morrendo. – continuou a explicar sua teoria.
- Eu descobri esse fato e passei a fazer o “combate fruídico”. Eu fico concentrado e vejo os espíritos de quem quer me prejudicar e, mentarmente, passo a combater os fruídos negativos com meus fruídos positivos!
Percebi que ele acreditava realmente em sua teoria, pois o homem falava e ficava empolgadíssimo. Aí se eu demonstrasse não acreditar. Provavelmente ele iria achar que o meu espírito ainda voltaria para prejudicá-lo. Sendo assim, continuei a escutar seus argumentos:
- Eu tenho praticado o combate fruídico já há algum tempo. Não tenho nem mesmo ficado doente. – continuou a explicar.
- Descobri que a própria morte é resultado do ataque fruídico! – continuou.
- Como assim? – perguntei.
- O ser humano não foi feito para morrer! – afirmou.
- Acontece que os fruídos negativos atacam as pessoas e elas acabam ficando doentes e morrem. – continuou.
- Só que eu percebi isso a tempo e estou fazendo meu combate fruídico. Estou afastando a morte. – empolgadíssimo Dochino explicava tudo.
- Com esse combate fruídico eu vou ficar imortár! – completou.
- Não morre mais? – perguntei.
- Não! Fica imortár! – finalizou.
Logo em seguida fui embora. Nesse momento chegavam algumas pessoas para conversar com o Dochino. Entraram muito contentes e foram debaixo da sombra que eu estava há pouco.
Eram discípulos do Combate Fluídico. Sim, as teorias do Dochino já tinham arrebanhado alguns fiéis discípulos, que corriam até seu mestre para receber ensinamentos da forma de proceder ao tal combate e ficar imortal!
Infelizmente, uns poucos meses depois, Dochino faleceu. Ele deve ter perdido seu combate fluídico... deixou de ser imortal. Logicamente que os discípulos ficaram decepcionados com a morte do mestre, justo aquele que dizia ter encontrado a fórmula da imortalidade. Assim, em pouco tempo acabou a seita do combate fluídico...
Ondas telegráficas e telepáticas
Algumas profissões, ao mesmo tempo em que trazem sustento à pessoa, provocam uma série de enfermidades... há muitos exemplos, principalmente as mais recentes, conhecidas como LER ou DORT, compreendendo lesões por movimentos repetitivos.
Rafael Cunto foi ferroviário, tendo passado por diversas funções, iniciando como guarda-cancela. Nessa função tinha que passar noites e mais noites sozinho, aguardando o trem chegar, para mudar a linha ao sinalizar na cancela. Às vezes, ia cair no sono e acordava assustado pensando que o trem estava chegando: “O trem chegou! O trem chegou!” – gritava uma voz dentro de sua cabeça, impedindo-o de dormir.
"Aí vem o trem! Lá vem o trem!" Uma voz soando dentro da cabeça impedia que Rafael dormisse. Tinha que mudar a chave da linha.
Como era um sujeito inteligente e esforçado, aprendeu a telegrafar e logo mudou de serviço, passando a telegrafista. O telégrafo foi o e-mail do passado. O mundo começou a ficar menor com a invenção de Samuel Morse, transmitindo e recebendo mensagens, ligando os lugares mais isolados.
O tempo foi passando, Rafael trabalhou durante anos, até que se aposentou. Havia juntado algum dinheiro, que passou a emprestar a juros. Ele era um homem bom, desde que as coisas não envolvessem o seu dinheiro. Quando seu dinheirinho estava “em perigo”, ficava furioso.
Certa ocasião, precisei de algum dinheiro e recorri ao Rafael, que prontamente me atendeu. Foi então que o conheci mais de perto, conforme conto aqui. Ele me chamava de Chicão.
Como havia sido guarda-cancela, Rafael teve seu sono prejudicado por toda sua vida: assim que começava dormir, acordava assustado com a danada voz em sua cabeça, gritando: “O trem chegou! O trem chegou!”.
Com isto, seu sono resumia-se a uns poucos minutos em cada noite. Cinco minutos dormindo e uma hora acordado. À insônia somava-se sua incontinência urinária. Ou levantava-se a noite toda, ou urinava na cama. Urina solta e uma voz gritando na cabeça... não dá mesmo para dormir.
Nas noites mais frias, enjoado de levantar-se, Rafael enrolava-se em alguns sacos de linhagem, improvisando um fraldão. Assim conseguia dormir sem molhar a cama. Descobri isto indo em uma manhã em sua casa, quando me deparei com uns sacos pendurados no varal, exalando um forte odor de urina. Foi então que ele me contou esse seu problema.
Nas noites mais quentes, ele ficava sentado na cozinha de sua casa, passando as horas brincando de telegrafista. Tinha arrumado uma antiga chave de telégrafo, com a qual ficava relembrando seu tempo de telegrafista: ponto, traço, ponto, traço... e Rafael ia compondo frases, pensamentos, expressando suas preocupações ou extravasando sua raiva:
- Eu fico a noite inteira telegrafando! – disse Rafael.
Eu sabia que as noites insones dele eram assim. Só não imaginava o poder do telégrafo do Rafael.
Ele havia emprestado um capital significativo para uma determinada pessoa, que estava dando trabalho para pagar tanto os juros quanto o próprio capital. Se o sono nunca havia sido fácil, com estas preocupações a insônia instalou-se por completo. Agora Rafael enrolava-se nas fraldas e amanhecia sentado na cozinha, “telegrafando” sem parar:
- Eu não consigo dormir, então fico telegrafando: Fulano de Tal, caipora, lazarento, não me paga!!! – explicou.
"Fulano e Cicrano, lazarentos, não me pagam!" - esbravejava Rafael no telégrafo a noite inteirinha.
Fiquei pensando na birra dele, o dia todo andando atrás de seu cliente e a noite toda “telegrafando”. Fiquei pensando que aquelas ondas imaginárias do telégrafo dele poderiam até mesmo perturbar o sono daquele seu cliente.
Mas era sempre assim, quando ele ficava preocupado em receber algum dinheiro, quando tinha alguma dificuldade, perdia por completo o seu escasso sono e passava noites inteiras travando neuróticos monólogos com seu telégrafo a respeito de seus clientes mais problemáticos.
Uns meses depois, eu tive dificuldades em cumprir os compromissos com o Rafael. Passei a ter insônia. Ficava lembrando do danado a noite toda. Só então me recordei do telégrafo do Rafael, que deveria estar teclando a noite inteira: “Caipora do Chicão... não devolve meu dinheiro!”
Ele "telegrafava" de sua cozinha. Tinha apenas o teclado, a chave do telégrafo...
Pela intensidade da minha insônia, creio que estive na ponta dos dedos do telegrafista noturno Rafael durante um bom tempo, até que, finalmente, consegui cumprir com nosso negócio. Arre! Cada louco com sua mania!
Rafael Cunto foi ferroviário, tendo passado por diversas funções, iniciando como guarda-cancela. Nessa função tinha que passar noites e mais noites sozinho, aguardando o trem chegar, para mudar a linha ao sinalizar na cancela. Às vezes, ia cair no sono e acordava assustado pensando que o trem estava chegando: “O trem chegou! O trem chegou!” – gritava uma voz dentro de sua cabeça, impedindo-o de dormir.
"Aí vem o trem! Lá vem o trem!" Uma voz soando dentro da cabeça impedia que Rafael dormisse. Tinha que mudar a chave da linha.
Como era um sujeito inteligente e esforçado, aprendeu a telegrafar e logo mudou de serviço, passando a telegrafista. O telégrafo foi o e-mail do passado. O mundo começou a ficar menor com a invenção de Samuel Morse, transmitindo e recebendo mensagens, ligando os lugares mais isolados.
O tempo foi passando, Rafael trabalhou durante anos, até que se aposentou. Havia juntado algum dinheiro, que passou a emprestar a juros. Ele era um homem bom, desde que as coisas não envolvessem o seu dinheiro. Quando seu dinheirinho estava “em perigo”, ficava furioso.
Certa ocasião, precisei de algum dinheiro e recorri ao Rafael, que prontamente me atendeu. Foi então que o conheci mais de perto, conforme conto aqui. Ele me chamava de Chicão.
Como havia sido guarda-cancela, Rafael teve seu sono prejudicado por toda sua vida: assim que começava dormir, acordava assustado com a danada voz em sua cabeça, gritando: “O trem chegou! O trem chegou!”.
Com isto, seu sono resumia-se a uns poucos minutos em cada noite. Cinco minutos dormindo e uma hora acordado. À insônia somava-se sua incontinência urinária. Ou levantava-se a noite toda, ou urinava na cama. Urina solta e uma voz gritando na cabeça... não dá mesmo para dormir.
Nas noites mais frias, enjoado de levantar-se, Rafael enrolava-se em alguns sacos de linhagem, improvisando um fraldão. Assim conseguia dormir sem molhar a cama. Descobri isto indo em uma manhã em sua casa, quando me deparei com uns sacos pendurados no varal, exalando um forte odor de urina. Foi então que ele me contou esse seu problema.
Nas noites mais quentes, ele ficava sentado na cozinha de sua casa, passando as horas brincando de telegrafista. Tinha arrumado uma antiga chave de telégrafo, com a qual ficava relembrando seu tempo de telegrafista: ponto, traço, ponto, traço... e Rafael ia compondo frases, pensamentos, expressando suas preocupações ou extravasando sua raiva:
- Eu fico a noite inteira telegrafando! – disse Rafael.
Eu sabia que as noites insones dele eram assim. Só não imaginava o poder do telégrafo do Rafael.
Ele havia emprestado um capital significativo para uma determinada pessoa, que estava dando trabalho para pagar tanto os juros quanto o próprio capital. Se o sono nunca havia sido fácil, com estas preocupações a insônia instalou-se por completo. Agora Rafael enrolava-se nas fraldas e amanhecia sentado na cozinha, “telegrafando” sem parar:
- Eu não consigo dormir, então fico telegrafando: Fulano de Tal, caipora, lazarento, não me paga!!! – explicou.
"Fulano e Cicrano, lazarentos, não me pagam!" - esbravejava Rafael no telégrafo a noite inteirinha.
Fiquei pensando na birra dele, o dia todo andando atrás de seu cliente e a noite toda “telegrafando”. Fiquei pensando que aquelas ondas imaginárias do telégrafo dele poderiam até mesmo perturbar o sono daquele seu cliente.
Mas era sempre assim, quando ele ficava preocupado em receber algum dinheiro, quando tinha alguma dificuldade, perdia por completo o seu escasso sono e passava noites inteiras travando neuróticos monólogos com seu telégrafo a respeito de seus clientes mais problemáticos.
Uns meses depois, eu tive dificuldades em cumprir os compromissos com o Rafael. Passei a ter insônia. Ficava lembrando do danado a noite toda. Só então me recordei do telégrafo do Rafael, que deveria estar teclando a noite inteira: “Caipora do Chicão... não devolve meu dinheiro!”
Ele "telegrafava" de sua cozinha. Tinha apenas o teclado, a chave do telégrafo...
Pela intensidade da minha insônia, creio que estive na ponta dos dedos do telegrafista noturno Rafael durante um bom tempo, até que, finalmente, consegui cumprir com nosso negócio. Arre! Cada louco com sua mania!
Um caso complicado pra xuxu
Xuxu ou chuchu? O vegetal “chuchu” é escrito é escrito com “ch”, mas “xuxu” é uma gíria e significa “grande quantidade”.
No Brasil as coisas mudam o tempo todo. Sempre aparece um político querendo modificar as coisas e impor sua marca. O ginásio de Tatuí teve um monte de nomes... o “sobrenome”, Barão de Suruí não mudou, mas o “nome”... Ginásio do Estado, Instituto de Educação, Instituto de Educação Estadual, Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus... nem sei quantas vezes e nem vou tentar acertar todas.
Mas as mudanças de nome não são o pior. As mudanças nos sistemas educacionais, na massificação forçada do ensino, nas estratégias anti-evasão escolar e na política da progressão... alguns saem da escola sem aprender coisa alguma, mesmo tendo freqüentado todo o ensino fundamental (anteriormente denominado primeiro-grau, englobando o antigo grupo escolar e curso ginasial). Sabem até ler, mas não interpretam o texto... ou seja, lêem mas não sabem o que significa aquilo que leram. São analfabetos funcionais.
Um ex-aluno do antigo “Barão de Suruí”, por exemplo, saía do Científico, Clássico ou Normal para entrar nas melhores faculdades sem fazer cursinho. USP, ITA, UNICAMP... tudo era possível para os ex-alunos do "Barão". Nunca precisariam do tal "sistema de cotas" para alunos de escolas públicas... Alunos de escola pública eram os melhores!!!
A disciplina era rígida e faziam muitas exigências aos alunos, desde uniformes, cabelos, freqüência, aplicação nos estudos... não era fácil, mas aprendiam mais que nas escolas particulares de hoje.
Um dos professores que deixaram sua marca bem forte foi o seu Ciriaco, professor de francês. Seu Ciriaco, era, como todos os demais professores, exigente. Só que ele era especial, pois além de exigente era ranzinza e neurastênico. Ele era espanhol, nascido lá pelos lados dos Pirineus, quase na França e, com isto, embrulhava tudo para falar, misturando português, francês e o espanhol...
A mesa do professor ficava sobre um tablado, cerca de 20 cm mais alto que a classe, colocando-o em uma posição privilegiada, sendo possível observar aos alunos com mais facilidade. Parecia que o homem tinha um olho de lince... via tudo!
- Qu'est que ceci? - Qu'est que cela? - Zero pela leçon e arretire-se da classe! - seu Ciriaco passava a aula toda resmungando e distribuindo zeros pela "leçon"...
Era um homem bravo, mas bom. Ele tinha sido padre (ou quase foi padre) e largou tudo para casar. Ihhh! Como ele era exigente!!!! Eu tive que decorar essa poesia que está aí em cima para sua aula, isto no ano de 1964. Tinha porque tinha que saber “de cor”... taí, mais de quarenta anos e ainda não esqueci!
- Arrepito pela última vez, en français, le verbe avoir tiene la función auxiliaire! – dizia, mais ou menos assim, o seu Ciriaco.
Um belo dia, na aula, ele me chamou:
- Luciano, trazê votre cahier! – me chamava por uma parte do sobrenome, misturando francês com português.
Seu Ciriaco intimidava a criançada com seu falar enrolado e os pêlos nas narinas e nas orelhas. Parecia que tinha uma pequena aranha em cada orelha
Eu havia desenhado uma caveira com ossos cruzados na capa do caderno de francês, como o símbolo de piratas. O homem, quando viu aquilo, quase enlouqueceu:
- Qu’est que ceci? Zero pela leçon e arretire-se da classe! – determinou seu Ciriaco.
Enquanto saía da classe, cheguei a escutar o professor chamando o João Augusto:
- Trazê votre leçon!
Em poucos minutos João, que não havia feito a lição de casa, estava comigo fora da classe. Estávamos um pouco assustados, porque se o Juca Pato, o diretor, nos visse ali... aiaiai, suspensão na certa e problemas em casa. O diretor era ainda mais bravo que o professor... tão bravo que hoje, mais de quarenta anos depois, fiquei pensando se deveria ou não colocar seu apelido aqui (ai de quem o chamasse de Juca Pato!!!).
Mas o pátio ficou animado, a cada um que seu Ciriaco chamava, dava um zero “pela leçon” e mandava sair... parece que não fomos apenas nós dois que não fizemos a coisa do jeito que ele queria. No meu caso, o problema tinha sido a capa do caderno, mas se pedisse minha lição, o resultado seria o mesmo.
Naquele dia, no final das aulas, fomos embora bravos com o professor, que implicava com tudo.
- Ô Jão, vamos dar um jeito no seu Ciriaco? – perguntei ao João.
Eu e ele tivemos uma idéia para castigar seu Ciriaco: pegamos nossos canivetes, colhemos alguns chuchus e fomos “picar” chuchu na entrada da casa do professor, imaginando que ele escorregaria naquilo e ficaríamos uns dias sem sermos perturbados por ele.
Que coisa! Fiquei bastante indeciso em confessar isto. Não devido � possibilidade de machucar o professor, mas pela vergonha em admitir que tivemos essa idéia: picar chuchu para o professor escorregar... picar chuchu na porta do professor, que vergonha!!! Será que não havia alguma outra coisa um pouco melhor que esta para fazer???
Mas também não deve ter sido fácil para seu Ciriaco descobrir o que havia acontecido nos degraus de sua casa. Descobrir o que era aquela coisa toda picadinha...
Picadinho de chuchu!!! Ainda se fosse quiabo poderia ter uma pequena chance de derrubar o homem, mas chuchu!?!?!?
Le Petit Écolier
Maintenant, je vais à l'école:
J'apprends chaque jour ma leçon.
Le sac qui pend à mon épaule
Dit que je suis un grand garçon.
Quand le maître parle, j'écoute.
Et je retiens ce qu'il me dit,
Il est content de moi, sans doute,
Car je vois bien qu'il me sourit.
No Brasil as coisas mudam o tempo todo. Sempre aparece um político querendo modificar as coisas e impor sua marca. O ginásio de Tatuí teve um monte de nomes... o “sobrenome”, Barão de Suruí não mudou, mas o “nome”... Ginásio do Estado, Instituto de Educação, Instituto de Educação Estadual, Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus... nem sei quantas vezes e nem vou tentar acertar todas.
Mas as mudanças de nome não são o pior. As mudanças nos sistemas educacionais, na massificação forçada do ensino, nas estratégias anti-evasão escolar e na política da progressão... alguns saem da escola sem aprender coisa alguma, mesmo tendo freqüentado todo o ensino fundamental (anteriormente denominado primeiro-grau, englobando o antigo grupo escolar e curso ginasial). Sabem até ler, mas não interpretam o texto... ou seja, lêem mas não sabem o que significa aquilo que leram. São analfabetos funcionais.
Um ex-aluno do antigo “Barão de Suruí”, por exemplo, saía do Científico, Clássico ou Normal para entrar nas melhores faculdades sem fazer cursinho. USP, ITA, UNICAMP... tudo era possível para os ex-alunos do "Barão". Nunca precisariam do tal "sistema de cotas" para alunos de escolas públicas... Alunos de escola pública eram os melhores!!!
A disciplina era rígida e faziam muitas exigências aos alunos, desde uniformes, cabelos, freqüência, aplicação nos estudos... não era fácil, mas aprendiam mais que nas escolas particulares de hoje.
Um dos professores que deixaram sua marca bem forte foi o seu Ciriaco, professor de francês. Seu Ciriaco, era, como todos os demais professores, exigente. Só que ele era especial, pois além de exigente era ranzinza e neurastênico. Ele era espanhol, nascido lá pelos lados dos Pirineus, quase na França e, com isto, embrulhava tudo para falar, misturando português, francês e o espanhol...
A mesa do professor ficava sobre um tablado, cerca de 20 cm mais alto que a classe, colocando-o em uma posição privilegiada, sendo possível observar aos alunos com mais facilidade. Parecia que o homem tinha um olho de lince... via tudo!
- Qu'est que ceci? - Qu'est que cela? - Zero pela leçon e arretire-se da classe! - seu Ciriaco passava a aula toda resmungando e distribuindo zeros pela "leçon"...
Era um homem bravo, mas bom. Ele tinha sido padre (ou quase foi padre) e largou tudo para casar. Ihhh! Como ele era exigente!!!! Eu tive que decorar essa poesia que está aí em cima para sua aula, isto no ano de 1964. Tinha porque tinha que saber “de cor”... taí, mais de quarenta anos e ainda não esqueci!
- Arrepito pela última vez, en français, le verbe avoir tiene la función auxiliaire! – dizia, mais ou menos assim, o seu Ciriaco.
Um belo dia, na aula, ele me chamou:
- Luciano, trazê votre cahier! – me chamava por uma parte do sobrenome, misturando francês com português.
Seu Ciriaco intimidava a criançada com seu falar enrolado e os pêlos nas narinas e nas orelhas. Parecia que tinha uma pequena aranha em cada orelha
Eu havia desenhado uma caveira com ossos cruzados na capa do caderno de francês, como o símbolo de piratas. O homem, quando viu aquilo, quase enlouqueceu:
- Qu’est que ceci? Zero pela leçon e arretire-se da classe! – determinou seu Ciriaco.
Enquanto saía da classe, cheguei a escutar o professor chamando o João Augusto:
- Trazê votre leçon!
Em poucos minutos João, que não havia feito a lição de casa, estava comigo fora da classe. Estávamos um pouco assustados, porque se o Juca Pato, o diretor, nos visse ali... aiaiai, suspensão na certa e problemas em casa. O diretor era ainda mais bravo que o professor... tão bravo que hoje, mais de quarenta anos depois, fiquei pensando se deveria ou não colocar seu apelido aqui (ai de quem o chamasse de Juca Pato!!!).
Mas o pátio ficou animado, a cada um que seu Ciriaco chamava, dava um zero “pela leçon” e mandava sair... parece que não fomos apenas nós dois que não fizemos a coisa do jeito que ele queria. No meu caso, o problema tinha sido a capa do caderno, mas se pedisse minha lição, o resultado seria o mesmo.
Naquele dia, no final das aulas, fomos embora bravos com o professor, que implicava com tudo.
- Ô Jão, vamos dar um jeito no seu Ciriaco? – perguntei ao João.
Eu e ele tivemos uma idéia para castigar seu Ciriaco: pegamos nossos canivetes, colhemos alguns chuchus e fomos “picar” chuchu na entrada da casa do professor, imaginando que ele escorregaria naquilo e ficaríamos uns dias sem sermos perturbados por ele.
Que coisa! Fiquei bastante indeciso em confessar isto. Não devido � possibilidade de machucar o professor, mas pela vergonha em admitir que tivemos essa idéia: picar chuchu para o professor escorregar... picar chuchu na porta do professor, que vergonha!!! Será que não havia alguma outra coisa um pouco melhor que esta para fazer???
Mas também não deve ter sido fácil para seu Ciriaco descobrir o que havia acontecido nos degraus de sua casa. Descobrir o que era aquela coisa toda picadinha...
Picadinho de chuchu!!! Ainda se fosse quiabo poderia ter uma pequena chance de derrubar o homem, mas chuchu!?!?!?
Cidade maravilhosa, viagem horrorosa
Quem me contou este caso foi o próprio protagonista, meu amigo Euchário Holtz - cujos comentários sobre a realidade estão fazendo bastante falta com o besteirol nacional. Ele adorava ir ao Rio de Janeiro. Sempre que possível passava lá uma temporada. Não ia lá apenas para ver as cariocas nas praias. Ia para relaxar olhando para o mar ou simplesmente indo a bares e restaurantes. Sentia-se rico, mais que rico, sentia-se milionário, principalmente quando tomava umas e outras.
Ele costumava relatar que, em um bar que freqüentava nas proximidades da praia de Copacabana, o barman fazia uma maravilhosa batida com whisky e sorvete de coco. Sabia que tinha uns outros ingredientes, mas desconhecia quais eram estes.
– É um frappé, mas um frappé que enlouquece! - costumava lembrar.
Assim, durante alguns anos, dava seus passeios por lá. Ia de ônibus, pois não viajava de avião. Não por medo de voar, já havia experimentado alguns vôos, mas temia sentir-se mal dentro do avião em uma manifestação da sua claustrofobia.
Com o passar dos anos, aumentavam as dificuldades para caminhar e, além disto, mantinha-se gordo e tinha algumas hérnias quase estrangulando. O remédio para as hérnias era a cirurgia, coisa que sempre tentou evitar e assim, para que não acontecesse algo inesperado, mandou fazer uns cintos especiais que lhe seguravam a barriga. Na verdade era mais um “suporte” ou “amparo” para aquela enorme protuberância abdominal, evitando que, ao andar ou apenas se movimentar, as hérnias não estrangulassem.
Se os movimentos ficaram difíceis, a vontade de ir ao Rio de Janeiro continuava firme e ia regularmente. Enfrentava o cansaço e o incômodo da viagem com bom humor, lembrando do tal frappé enlouquecedor.
Sua última viagem, no entanto, foi problemática, acontecendo um fato inusitado que merece ser registrado:
Foi a São Paulo e lá tomou um ônibus para o Rio. Seis horas de viagem! É um tempo razoavelmente grande para acomodar aquele corpanzil na pequena poltrona do ônibus.
Mas a recompensa o aguardava no Rio: o tal frappé de whisky que enlouquecia!
Desta vez, porém, o destino não estava de brincadeira, pois logo depois da partida começaram uns movimentos estranhos em seu ventre. Movimentos internos, não era manifestação da hérnia, mas o que se movimentava lá queria sair... e tinha pressa!
Não deu para agüentar e foi ao toalete do ônibus para descarregar aquilo tudo! Mas havia um problema: o tamanho da porta do toalete!!! Não dava para passar naquele vão diminuto com aquela barriga enorme.
Mas a situação interna não podia esperar: ou entrava para evacuar no sanitário ou "aconteceria" nas calças! Para explicar bem como estava a situação, mais uns poucos minutos e a coisa iria acontecer ali mesmo, do lado de fora, na porta do toalete.
Tenta aqui, geme ali, aperta acolá... nada! Não conseguia entrar!
Força um pouco, geme e, de repente, o ônibus fez um movimento brusco para desviar de alguma coisa na estrada e vumpt... apesar de esfregar a barriga no batente da porta, conseguiu entrar. Machucou os locais que estavam rompidos pela hérnia. Mas estava lá dentro e isso é o que importava naquele momento.
- Ufa! - resmungou enquanto usava o vaso sanitário. Depois de alguns longos minutos, terminou seu “serviço”, limpou-se e foi sair.
Ai! Ai! Ai! Que sair o quê! Os locais com hérnia estavam doloridos e e toda aquela região abdominal inchou. Ui! Ui! Ui! Não dava para passar na porta novamente.
Sem alternativa, chamou o passageiro do último banco para que o ajudasse:
- Ô rapaz, ô rapaz, por favor, dá uma mãozinha aqui!
O passageiro veio lhe ajudar, tentando puxá-lo para fora.
- Pare, pare, pare! - gritou. - Está machucando minha hérnia.... pare!
Não dava para passar por aquela porta minúscula com a barriga machucada, inchada, e a hérnia parecendo que já ia estrangular.
Alguns passageiros viram a situação e foram tentar ajudar. Só que não dava para fazer nada naquela hora. Todos olhavam para a parte traseira do ônibus... Logo o motorista percebeu a movimentação no fundo do veículo e resolveu parar no acostamento. Veio também para ajudar, mas não foi possível resolver o impasse da miniporta do toalete.
Depois de alguns minutos de tentativas, seguiram viagem até Resende. Ele seguiu viagem dentro do toalete até que, nessa cidade, entraram na oficina da empresa de ônibus.
Foi somente lá que conseguiram resolver a situação: os mecânicos desmontaram o toalete do ônibus para retirar o infeliz (mas aliviado) passageiro e então prosseguir viagem ao destino: o frappé enlouquecedor!
Depois de "escapar" da cirurgia durante anos, um dia foi obrigado a fazer... se tivesse feito antes, provavelmente este caso não teria acontecido.
Algum comentário dele? Claro, nem um pouco preocupado e sentado à beira mar, tomando seu esperado frappé de whisky, exclamou filosoficamente: - Enquanto a caravana passa, é só pena que voa! Ahahahahah!.
Ele costumava relatar que, em um bar que freqüentava nas proximidades da praia de Copacabana, o barman fazia uma maravilhosa batida com whisky e sorvete de coco. Sabia que tinha uns outros ingredientes, mas desconhecia quais eram estes.
– É um frappé, mas um frappé que enlouquece! - costumava lembrar.
Assim, durante alguns anos, dava seus passeios por lá. Ia de ônibus, pois não viajava de avião. Não por medo de voar, já havia experimentado alguns vôos, mas temia sentir-se mal dentro do avião em uma manifestação da sua claustrofobia.
Com o passar dos anos, aumentavam as dificuldades para caminhar e, além disto, mantinha-se gordo e tinha algumas hérnias quase estrangulando. O remédio para as hérnias era a cirurgia, coisa que sempre tentou evitar e assim, para que não acontecesse algo inesperado, mandou fazer uns cintos especiais que lhe seguravam a barriga. Na verdade era mais um “suporte” ou “amparo” para aquela enorme protuberância abdominal, evitando que, ao andar ou apenas se movimentar, as hérnias não estrangulassem.
Se os movimentos ficaram difíceis, a vontade de ir ao Rio de Janeiro continuava firme e ia regularmente. Enfrentava o cansaço e o incômodo da viagem com bom humor, lembrando do tal frappé enlouquecedor.
Sua última viagem, no entanto, foi problemática, acontecendo um fato inusitado que merece ser registrado:
Foi a São Paulo e lá tomou um ônibus para o Rio. Seis horas de viagem! É um tempo razoavelmente grande para acomodar aquele corpanzil na pequena poltrona do ônibus.
Mas a recompensa o aguardava no Rio: o tal frappé de whisky que enlouquecia!
Desta vez, porém, o destino não estava de brincadeira, pois logo depois da partida começaram uns movimentos estranhos em seu ventre. Movimentos internos, não era manifestação da hérnia, mas o que se movimentava lá queria sair... e tinha pressa!
Não deu para agüentar e foi ao toalete do ônibus para descarregar aquilo tudo! Mas havia um problema: o tamanho da porta do toalete!!! Não dava para passar naquele vão diminuto com aquela barriga enorme.
Mas a situação interna não podia esperar: ou entrava para evacuar no sanitário ou "aconteceria" nas calças! Para explicar bem como estava a situação, mais uns poucos minutos e a coisa iria acontecer ali mesmo, do lado de fora, na porta do toalete.
Tenta aqui, geme ali, aperta acolá... nada! Não conseguia entrar!
Força um pouco, geme e, de repente, o ônibus fez um movimento brusco para desviar de alguma coisa na estrada e vumpt... apesar de esfregar a barriga no batente da porta, conseguiu entrar. Machucou os locais que estavam rompidos pela hérnia. Mas estava lá dentro e isso é o que importava naquele momento.
- Ufa! - resmungou enquanto usava o vaso sanitário. Depois de alguns longos minutos, terminou seu “serviço”, limpou-se e foi sair.
Ai! Ai! Ai! Que sair o quê! Os locais com hérnia estavam doloridos e e toda aquela região abdominal inchou. Ui! Ui! Ui! Não dava para passar na porta novamente.
Sem alternativa, chamou o passageiro do último banco para que o ajudasse:
- Ô rapaz, ô rapaz, por favor, dá uma mãozinha aqui!
O passageiro veio lhe ajudar, tentando puxá-lo para fora.
- Pare, pare, pare! - gritou. - Está machucando minha hérnia.... pare!
Não dava para passar por aquela porta minúscula com a barriga machucada, inchada, e a hérnia parecendo que já ia estrangular.
Alguns passageiros viram a situação e foram tentar ajudar. Só que não dava para fazer nada naquela hora. Todos olhavam para a parte traseira do ônibus... Logo o motorista percebeu a movimentação no fundo do veículo e resolveu parar no acostamento. Veio também para ajudar, mas não foi possível resolver o impasse da miniporta do toalete.
Depois de alguns minutos de tentativas, seguiram viagem até Resende. Ele seguiu viagem dentro do toalete até que, nessa cidade, entraram na oficina da empresa de ônibus.
Foi somente lá que conseguiram resolver a situação: os mecânicos desmontaram o toalete do ônibus para retirar o infeliz (mas aliviado) passageiro e então prosseguir viagem ao destino: o frappé enlouquecedor!
Depois de "escapar" da cirurgia durante anos, um dia foi obrigado a fazer... se tivesse feito antes, provavelmente este caso não teria acontecido.
Algum comentário dele? Claro, nem um pouco preocupado e sentado à beira mar, tomando seu esperado frappé de whisky, exclamou filosoficamente: - Enquanto a caravana passa, é só pena que voa! Ahahahahah!.
Tatuianos na Festa do Vinho de S. Roque
Alguns amigos estão recolhendo casos aqui e ali para que eu possa dar continuidade aos “causos”. Outros casos anteriormente escritos já têm contribuições, mas este foi repassado especialmente para os “Casos Tatuianos” pelo meu amigo Fabio Del Fiol.
Este caso aconteceu com o padre Murari, seu grande amigo Rui Português e o Dito Gordo, embaixador de Tatuí em Guarujá.
Certa ocasião, os três foram até a cidade de São Roque, por ocasião da festa do vinho. E vinho era coisa que interessava ao padre. Aliás, todos os padres têm interesse em vinho, visto que essa bebida é utilizada na liturgia católica.
Mesmo que as aquisições vinícolas da paróquia fossem coordenadas pela diocese, nada impedia que o padre Murari fosse experimentar os produtos disponíveis em São Roque.
Atualmente alguns municípios do Rio Grande do Sul e até mesmo de Santa Catarina dominam a produção de vinho no Brasil. São Roque ainda produz vinho, mas a uva utilizada nessa atividade é importada do Sul.
Já o interesse do Rui Português não tinha nada de eclesiástico. Era essencialmente alcoólico. Dito Gordo, nessa ocasião ainda não era o embaixador de Tatuí em Guarujá e estava era fazendo turismo com os amigos.
Por falar em Guarujá, foi lá que o ex-presidente Jânio Quadros passou a residir depois de seu retorno do exílio. Jânio tinha sinceros amigos tatuianos, que costumavam visitá-lo frequentemente.
Conta-se que, em determinada ocasião, lá estavam os amigos tatuianos de Jânio Quadros em frente ao portão de sua casa. Apertaram a campainha e aguardaram abrir a porta. Se atualmente muitas casas têm sistema de vigilância com câmeras de vídeo, naquela época isso era uma raridade. Jânio aproveitava para fazer das suas com isto. Viu que eram os tatuianos e falou pelo interfone:
- Estou muito cansado. Só atendo se for o pessoal de Tatuí! – disse Jânio com a voz abafada e rouca.
- Somos nós, presidente! Somos nós! – gritaram todos a uma só voz.
Isto encantou os visitantes, que ficaram achando que Jânio fazia uma deferência especial aos tatuianos. Provavelmente ele fazia assim como todos visitantes, mas que funcionou, funcionou! Os tatuianos sentiram-se especiais!
Dentro de sua casa, conversando, Jânio servia-se fartamente de whisky escocês, mas distribuía Scotch Bard e Drury’s para os tatuianos, dizendo:
- Vocês já estão acostumados com estes!
Jânio não ficava sem seu whiskyMas lá em São Roque, nossos outros amigos não ficaram com as sobras. Tomaram os melhores vinhos, em quantidades absurdas. Padre Murari tinha algumas ligações com a cidade de São Roque. Não sei exatamente quais, mas há nessa cidade a Rua Monsenhor Silvestre Murari, homenageando o velho padre.
Experimenta este, beberica aquele, repete outro... nessa alegre atividade transcorreram algumas horas. Difícil foi levantarem-se das cadeiras, pois parecia que havia um paralelepípedo em cada joelho, tantas foram as experimentações vinícolas.
Conforme haviam combinado, foram dormir em um hotel de São Roque. Não dava para voltar para Tatuí naquele estado: estava realmente bêbados. Bêbados mas mantinham a linha. Não aconteceu nenhum pequeno deslize.
Mas para dormir padre Murari e o Rui nem banho tomaram. Foram direto para a cama. Haviam escolhido um quarto com três camas, para dormirem todos juntos.
Antes de deitar, padre Murari colocou sua dentadura em um copo com água que pegou na cozinha do hotel. A mesma coisa fez Rui Português. Em poucos minutos estavam ambos dormindo.
Dito Gordo não tinha bebido tanto quanto os amigos. Ele era o mais jovem do grupo e o mais ajuizado, decerto. Estava quase sóbrio. Entrou no chuveiro e tomou um refrescante banho, antes de deitar.
Quando foi apagar a luz, Dito Gordo viu os dois dormindo, roncando, parecia que estavam tocando instrumentos de sopro. Deitou-se, mas não conseguia dormir. O ronco dos dois amigos estava insuportável. Em determinados momentos, parecia que o padre estava tocando um trombone e Rui uma tuba.
De repente mudava a tonalidade e parecia uma clarineta desafinada fazendo dueto com uma araponga (quem se lembra da barulhenta araponga do padre Murari? Eu que o diga, pois morava em frente à casa paroquial e aquela ave maldita batia a bigorna o dia inteiro: PÉÉÈM! PÉÉÉM!).
Como não conseguia dormir, Dito Gordo pensou em levantar-se e sair um pouco. Mas estava cansado. Pensou em ler alguma coisa, tentando distrair seus ouvidos daquela sinfonia infernal (o padre que me perdoe, mas seu ronco não tinha nada de celestial).
Nisso viu os dois copos com as dentaduras dos amigos e teve uma idéia: inverteu os copos de lugar... a dentadura do padre com Rui e vice-versa!
Logo foi vencido pelo sono. Ainda bem que não escutava a si próprio roncando, porque a partir de sua entrada de seu “instrumento” no concerto, o resto do hotel acordou... ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! Parecia a serraria de meu avô, abrindo toras em pranchas, pranchas em vigas, vigas em caibros e tábuas... Agora a sonoridade lembrava a serra vertical, a francesa, as serras de fita e a circular... Só sob efeito do álcool é possível dormir com um barulho desses!
Na manhã seguinte levantaram cedo, para voltar a Tatuí. Cada um foi ao banheiro fazer suas necessidades, lavar a boca e colocar as dentaduras. Ninguém reclamou de nada. Parecia que ainda estavam sob efeito do vinho.
Passava pouco das 8 da manhã e já estavam na estrada. Antes de sair com o carro, colocaram algumas dúzias de garrafas no porta-malas. Umas de presente para amigos, mas a maioria para o padre usar na liturgia.
O Rui estava com uma fisionomia de papel amassado. O padre, com sua batina preta, toda furada de brasa de cigarro de palha, estava com cara que quem comeu e não gostou, ou melhor, de quem bebeu...
Alguns minutos em silêncio e começaram a comentar sobre a festa do vinho.
Rui falou:
- Puxa, bebi tanto... mas acho que o vinho não era muito bom. Estou com uma ressaca estranha, até a minha boca parece que murchou!
O padre comentou então:
- Gozado, eu também achei isso, só que a minha boca parece que inchou!
Dito Gordo não se conteve e começou a gargalhar... ria sem parar, olhando para os dois amigos que não tinham percebido que suas dentaduras haviam sido trocadas.
- Eu troquei as dentaduras! Ahahahahah! Eu troquei as dentaduras!
Só então que os dois perceberam a situação. Retiraram as dentaduras e destrocaram. Mas não havia água para lavar e, sendo assim, saiu de uma boca e entrou em outra.
Rui Português fez o restante da viagem cuspindo pela janela do carro. O padre ficou aborrecido com isto e dizia:
- O Rui, você está com nojo de mim? Garanto que sua boca já andou em lugares piores que a minha!
Dito Gordo riu a viagem toda. Os outros dois só conseguiram rir uns dias depois... quando já tinha lavado adequadamente as dentaduras...
Este caso aconteceu com o padre Murari, seu grande amigo Rui Português e o Dito Gordo, embaixador de Tatuí em Guarujá.
Certa ocasião, os três foram até a cidade de São Roque, por ocasião da festa do vinho. E vinho era coisa que interessava ao padre. Aliás, todos os padres têm interesse em vinho, visto que essa bebida é utilizada na liturgia católica.
Mesmo que as aquisições vinícolas da paróquia fossem coordenadas pela diocese, nada impedia que o padre Murari fosse experimentar os produtos disponíveis em São Roque.
Atualmente alguns municípios do Rio Grande do Sul e até mesmo de Santa Catarina dominam a produção de vinho no Brasil. São Roque ainda produz vinho, mas a uva utilizada nessa atividade é importada do Sul.
Já o interesse do Rui Português não tinha nada de eclesiástico. Era essencialmente alcoólico. Dito Gordo, nessa ocasião ainda não era o embaixador de Tatuí em Guarujá e estava era fazendo turismo com os amigos.
Por falar em Guarujá, foi lá que o ex-presidente Jânio Quadros passou a residir depois de seu retorno do exílio. Jânio tinha sinceros amigos tatuianos, que costumavam visitá-lo frequentemente.
Conta-se que, em determinada ocasião, lá estavam os amigos tatuianos de Jânio Quadros em frente ao portão de sua casa. Apertaram a campainha e aguardaram abrir a porta. Se atualmente muitas casas têm sistema de vigilância com câmeras de vídeo, naquela época isso era uma raridade. Jânio aproveitava para fazer das suas com isto. Viu que eram os tatuianos e falou pelo interfone:
- Estou muito cansado. Só atendo se for o pessoal de Tatuí! – disse Jânio com a voz abafada e rouca.
- Somos nós, presidente! Somos nós! – gritaram todos a uma só voz.
Isto encantou os visitantes, que ficaram achando que Jânio fazia uma deferência especial aos tatuianos. Provavelmente ele fazia assim como todos visitantes, mas que funcionou, funcionou! Os tatuianos sentiram-se especiais!
Dentro de sua casa, conversando, Jânio servia-se fartamente de whisky escocês, mas distribuía Scotch Bard e Drury’s para os tatuianos, dizendo:
- Vocês já estão acostumados com estes!
Jânio não ficava sem seu whiskyMas lá em São Roque, nossos outros amigos não ficaram com as sobras. Tomaram os melhores vinhos, em quantidades absurdas. Padre Murari tinha algumas ligações com a cidade de São Roque. Não sei exatamente quais, mas há nessa cidade a Rua Monsenhor Silvestre Murari, homenageando o velho padre.
Experimenta este, beberica aquele, repete outro... nessa alegre atividade transcorreram algumas horas. Difícil foi levantarem-se das cadeiras, pois parecia que havia um paralelepípedo em cada joelho, tantas foram as experimentações vinícolas.
Conforme haviam combinado, foram dormir em um hotel de São Roque. Não dava para voltar para Tatuí naquele estado: estava realmente bêbados. Bêbados mas mantinham a linha. Não aconteceu nenhum pequeno deslize.
Mas para dormir padre Murari e o Rui nem banho tomaram. Foram direto para a cama. Haviam escolhido um quarto com três camas, para dormirem todos juntos.
Antes de deitar, padre Murari colocou sua dentadura em um copo com água que pegou na cozinha do hotel. A mesma coisa fez Rui Português. Em poucos minutos estavam ambos dormindo.
Dito Gordo não tinha bebido tanto quanto os amigos. Ele era o mais jovem do grupo e o mais ajuizado, decerto. Estava quase sóbrio. Entrou no chuveiro e tomou um refrescante banho, antes de deitar.
Quando foi apagar a luz, Dito Gordo viu os dois dormindo, roncando, parecia que estavam tocando instrumentos de sopro. Deitou-se, mas não conseguia dormir. O ronco dos dois amigos estava insuportável. Em determinados momentos, parecia que o padre estava tocando um trombone e Rui uma tuba.
De repente mudava a tonalidade e parecia uma clarineta desafinada fazendo dueto com uma araponga (quem se lembra da barulhenta araponga do padre Murari? Eu que o diga, pois morava em frente à casa paroquial e aquela ave maldita batia a bigorna o dia inteiro: PÉÉÈM! PÉÉÉM!).
Como não conseguia dormir, Dito Gordo pensou em levantar-se e sair um pouco. Mas estava cansado. Pensou em ler alguma coisa, tentando distrair seus ouvidos daquela sinfonia infernal (o padre que me perdoe, mas seu ronco não tinha nada de celestial).
Nisso viu os dois copos com as dentaduras dos amigos e teve uma idéia: inverteu os copos de lugar... a dentadura do padre com Rui e vice-versa!
Logo foi vencido pelo sono. Ainda bem que não escutava a si próprio roncando, porque a partir de sua entrada de seu “instrumento” no concerto, o resto do hotel acordou... ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! ROOONCC! Parecia a serraria de meu avô, abrindo toras em pranchas, pranchas em vigas, vigas em caibros e tábuas... Agora a sonoridade lembrava a serra vertical, a francesa, as serras de fita e a circular... Só sob efeito do álcool é possível dormir com um barulho desses!
Na manhã seguinte levantaram cedo, para voltar a Tatuí. Cada um foi ao banheiro fazer suas necessidades, lavar a boca e colocar as dentaduras. Ninguém reclamou de nada. Parecia que ainda estavam sob efeito do vinho.
Passava pouco das 8 da manhã e já estavam na estrada. Antes de sair com o carro, colocaram algumas dúzias de garrafas no porta-malas. Umas de presente para amigos, mas a maioria para o padre usar na liturgia.
O Rui estava com uma fisionomia de papel amassado. O padre, com sua batina preta, toda furada de brasa de cigarro de palha, estava com cara que quem comeu e não gostou, ou melhor, de quem bebeu...
Alguns minutos em silêncio e começaram a comentar sobre a festa do vinho.
Rui falou:
- Puxa, bebi tanto... mas acho que o vinho não era muito bom. Estou com uma ressaca estranha, até a minha boca parece que murchou!
O padre comentou então:
- Gozado, eu também achei isso, só que a minha boca parece que inchou!
Dito Gordo não se conteve e começou a gargalhar... ria sem parar, olhando para os dois amigos que não tinham percebido que suas dentaduras haviam sido trocadas.
- Eu troquei as dentaduras! Ahahahahah! Eu troquei as dentaduras!
Só então que os dois perceberam a situação. Retiraram as dentaduras e destrocaram. Mas não havia água para lavar e, sendo assim, saiu de uma boca e entrou em outra.
Rui Português fez o restante da viagem cuspindo pela janela do carro. O padre ficou aborrecido com isto e dizia:
- O Rui, você está com nojo de mim? Garanto que sua boca já andou em lugares piores que a minha!
Dito Gordo riu a viagem toda. Os outros dois só conseguiram rir uns dias depois... quando já tinha lavado adequadamente as dentaduras...
João Bituca, o malandro
Alguns tatuianos ostentaram apelidos durante a vida inteira, como foi o caso do João Bituca (ou João Engraxate).
O João Bituca foi o engraxate de maior sucesso em Tatuí. Estabeleceu-se na Praça da Matriz, ao lado do Clube Recreativo XI de Agosto.
Entre a parte social do Clube Recreativo e o salão de jogos, havia um portão que não era usado e foi neste local que ele montou sua engraxataria. Um sucesso, pois nessa época todos usavam sapatos e tinham que estar sempre brilhando. Quando alguém ia até a engraxataria sempre havia espera, porque estava costumeiramente lotada.
João Bituca foi engraxate desde menino. Logo ficou bastante conhecido na cidade e teve sua grande chance quando lhe foi cedido um espaço do Clube Recreativo, onde instalou sua engraxataria.
- Quer engraxar, hoje? – perguntava João a todos que passavam pela praça.
Seu apelido foi decorrente de seu vício de fumar (e pedir). A todo mundo que via fumando, já pedia:
- Dá a bituca pra mim?
Foi o que bastou: tanto pediu a ponta do cigarro dos freqüentadores da praça que logo ficou conhecido como João Bituca. Esse apelido “grudou” no João durante sua vida inteira.
A Praça da Matriz era freqüentada por todos. Nos dias da semana por lá se encontravam estudantes e os moradores da região central da cidade. Todo mundo conhecia todo mundo. À noite o costume era dar voltas na praça, homens de um lado e mulheres do outro, em uma paquera contínua, das 8 da noite até as 10 horas. Ou melhor, até uns quinze minutos para as dez, porque às 10 horas em ponto a praça tornava-se um deserto.
O João, como havia sido engraxate desde menino, freqüentava a praça e convivia com os estudantes. Na parte da manhã ele estava com o pessoal que estudava à tarde ou à noite. Depois do almoço ele conversava com quem estudava de manhã. Ou seja, sempre havia alguém para conversar com o João, que se sentia bastante “chegado” dos estudantes.
Era conversa de igual para igual, ainda mais que estudante não tem dinheiro e ele, como trabalhava, sempre tinha algum e, por isso, era convidado para ir neste ou naquele bar. Além do que, ele se achava um excelente malandro, enquanto que achava que os amigos eram otários, porque iam à escola. Ele apenas não percebeu que seus amigos, exatamente porque freqüentavam escolas, em pouco tempo mudavam sua vida e passavam a trabalhar em atividades melhores que o João, ganhando muito mais, é claro.
As visitas aos bares, onde era bem recebido enquanto tinha algum dinheiro, encaminharam-no ao vício do álcool.
Logo aqueles amigos afastaram-se dele, não só devido as constantes bebedeiras, mas porque já estavam com outras ocupações. Ele não entendia a razão, mas considerou que apenas ele estava certo e todos errados. Pudera, ele era malandro!
Para o João Bituca todo mundo era otário:
- Fulano é otário! Cicrano é otário! Beltrano é otário. O Bolinha é otário! – costumava dizer.
Certo dia, conversando com uma pessoa que há tempos não via, pois não morava mais na cidade, “contou” que todo mundo da cidade era otário, que só tinha “trouxas” e que ele era “o bom”. Esse era o Cláudio do Timbio.
O Cláudio disse para o João:
- É mesmo, aqui só tem otários. Vou levar você comigo para Santos, vamos à praia e ver as mulheres mais lindas do Brasil. A mulherada de biquíni. Você vai deixar os “trouxas” de Tatuí com a boca aberta quando contar o que fará por lá!
- Ê, meu! Não tenho grana! - respondeu João.
- Não precisa de dinheiro. É tudo por minha conta. Você é meu amigo... pode deixar que eu pago o que precisar. - garantiu Cláudio.
- Ah, então vamos sim, estou cheio desta cidade que só tem otários – respondeu João.
E o Cláudio cumpriu o que prometeu. No dia seguinte tomaram um ônibus e foram a São Paulo. De lá pegaram outro para Santos, chegando à tarde desse mesmo dia. Estavam com fome, mas Cláudio foi logo avisando que iriam jantar em um restaurante chique, comer frutos do mar.
Foram a um restaurante elegante à beira-mar. Nesse restaurante todos estavam com roupa social, até mesmo o Cláudio vestia-se adequadamente, mas o pobre João Bituca era uma figura destoante.
- João, você já comeu lagosta?
- Não! – respondeu.
- Então hoje você vai comer coisas que os otários de Tatuí nunca provaram. Lagosta, camarão, polvo, lula... tudo que quiser.
Cláudio chamou o garçom e não economizou. Pediu tudo do bom e do melhor, acompanhado de vinho importado.
Quando chegou o pedido, João nem sabia por onde começar, mesmo porque nem sabia como comer aquilo. Mas buscou encontrar um jeito: observou o que Cláudio fazia para comer, tentou, tentou e acabou comendo mesmo foi com as mãos!
A mesa dos dois estavam maravilhosa, não economizaram em nada. Comeram a valer. Repetiram o vinho duas vezes.
O Cláudio disse para o João:
- Vamos escolher uma sobremesa. Uma refeição completa não pode ficar sem sobremesa.
Chamou o garçom e pediu o menu para escolher.
Escolheu alguma coisa que disse gostar e deu o menu para o João escolher. Quando o João escolhia, o Cláudio disse que viu um conhecido passar na frente do restaurante e avisou ao João que iria chamar a tal pessoa para fazer companhia aos dois.
- Espera um instantinho aqui, João! Eu só vou chamar o meu amigo e já volto. Enquanto espera, peça a sobremesa.
Ah, João Bituca não se fez de rogado. Pediu, com auxílio do garçom, um sorvete especial, já que não entendia nada do menu.
O sorvete demorou um pouco para chegar, mas veio e o Cláudio ainda não havia voltado. João olhava insistentemente para a porta do restaurante, ansioso por ver o companheiro voltar.
Tomou o sorvete olhando para a porta.
Sua figura, destoante, começou a chamar a atenção do pessoal do restaurante. Os seguranças já estavam rodeando, de olho no João. Isto porque havia mais de meia hora que ele estava sozinho. Não tinha mais o que fazer por lá e olhava para a porta sem parar.
O garçom trouxe a conta e apresentou ao João. Ele nem mesmo entendeu direito o valor, porque não poderia imaginar que um jantar pudesse custar tudo aquilo: “Acho que erraram e tem um zero a mais!” – pensou.
Mas não havia erro algum. A conta era alta mesmo. Pudera, lagosta, camarão, lula, polvo, vinho do Porto, não são coisas comuns.
Uma hora inteira já se passara. João levantou-se para olhar fora do restaurante, ver se encontrava o Cláudio. Quando se levantou, os seguranças correram para seu lado.
Quis se aproximar da porta, mas foi abordado pelos seguranças, que ordenaram para ele ir até o caixa, pagar a conta.
João estava desesperado. Não tinha nem um cruzeiro no bolso e o Cláudio demorava demais para voltar!
Demorava e não voltou. O garçom, seguranças e maitre do restaurante já haviam fechado o caminho de saída para o João. Não dava para ele sair fora.
- O Cráudio já vórta pra pagá a conta! – repetia incessantemente.
Chamaram a polícia e levaram o João em um escritório nos fundos do restaurante. Em pouco tempo perceberam que estavam lidando com um otário que havia caído em um conto.
- Não vamos receber o dinheiro. A conta não será paga, porque você é um otário sem dinheiro! – disseram ao João – Mas não pense que vai sair desta com facilidade. Vai em cana!
João saiu algemado e conduzido para a viatura. Levaram para a cadeia e prenderam por 3 dias.
Se em Tatuí as celas ainda não eram superlotadas, em Santos eram terrívelmente lotadas.
Quando soltaram, ainda ficaram com dó dele, fizeram uma “vaquinha” e arranjaram dinheiro para a passagem de volta até Tatuí. Sabiam que, se ele ficasse em Santos, dentro de poucos dias estaria de volta à cadeia, como vítima ou como autor de algum delito.
- Ô otário, vê se aprende agora! – aconselharam na saída.
Quando o João voltou em Tatuí todos já sabiam da história, porque o Cláudio logo depois de sair do restaurante já tomara o ônibus e sumiu de Santos. Contou para todo mundo a maldade que fizera ao pobre do João.
Mas quando se perguntava ao João o que tinha acontecido, ele desconversava e não contava para ninguém. Tentei arrancar dele o final desta história, o que aconteceu direito no restaurante e na cadeia, mas ele dava um jeito de desconversar e não contava. Não faz muito tempo que tentei pela última vez descobrir... poucos meses antes dele falecer. Mas que o que... não contou!
Faleceu há pouco tempo e ganhava a vida como vendedor de bilhetes. Era um vendedor chato e abusado: chegava perto de algum possível freguês e dizia:
- Viado! Viado!
Quando a pessoa, irritada, olhava imediatamente para seu lado, ele mostrava o bilhete do veado:
- Quer comprar o bilhete do viado?
Às vezes se aproximava de uma mulher e dizia:
- Vaca! Vaca!
Essa tal mulher, sentindo-se ultrajada, virava-se para o lado do João, que mostrava um bilhete e dizia:
- Quer comprar o bilhete da vaca?
Isto porque ele, em sua concepção, não era otário... os outros é que eram... achava-se um grande malandro.
O João Bituca foi o engraxate de maior sucesso em Tatuí. Estabeleceu-se na Praça da Matriz, ao lado do Clube Recreativo XI de Agosto.
Entre a parte social do Clube Recreativo e o salão de jogos, havia um portão que não era usado e foi neste local que ele montou sua engraxataria. Um sucesso, pois nessa época todos usavam sapatos e tinham que estar sempre brilhando. Quando alguém ia até a engraxataria sempre havia espera, porque estava costumeiramente lotada.
João Bituca foi engraxate desde menino. Logo ficou bastante conhecido na cidade e teve sua grande chance quando lhe foi cedido um espaço do Clube Recreativo, onde instalou sua engraxataria.
- Quer engraxar, hoje? – perguntava João a todos que passavam pela praça.
Seu apelido foi decorrente de seu vício de fumar (e pedir). A todo mundo que via fumando, já pedia:
- Dá a bituca pra mim?
Foi o que bastou: tanto pediu a ponta do cigarro dos freqüentadores da praça que logo ficou conhecido como João Bituca. Esse apelido “grudou” no João durante sua vida inteira.
A Praça da Matriz era freqüentada por todos. Nos dias da semana por lá se encontravam estudantes e os moradores da região central da cidade. Todo mundo conhecia todo mundo. À noite o costume era dar voltas na praça, homens de um lado e mulheres do outro, em uma paquera contínua, das 8 da noite até as 10 horas. Ou melhor, até uns quinze minutos para as dez, porque às 10 horas em ponto a praça tornava-se um deserto.
O João, como havia sido engraxate desde menino, freqüentava a praça e convivia com os estudantes. Na parte da manhã ele estava com o pessoal que estudava à tarde ou à noite. Depois do almoço ele conversava com quem estudava de manhã. Ou seja, sempre havia alguém para conversar com o João, que se sentia bastante “chegado” dos estudantes.
Era conversa de igual para igual, ainda mais que estudante não tem dinheiro e ele, como trabalhava, sempre tinha algum e, por isso, era convidado para ir neste ou naquele bar. Além do que, ele se achava um excelente malandro, enquanto que achava que os amigos eram otários, porque iam à escola. Ele apenas não percebeu que seus amigos, exatamente porque freqüentavam escolas, em pouco tempo mudavam sua vida e passavam a trabalhar em atividades melhores que o João, ganhando muito mais, é claro.
As visitas aos bares, onde era bem recebido enquanto tinha algum dinheiro, encaminharam-no ao vício do álcool.
Logo aqueles amigos afastaram-se dele, não só devido as constantes bebedeiras, mas porque já estavam com outras ocupações. Ele não entendia a razão, mas considerou que apenas ele estava certo e todos errados. Pudera, ele era malandro!
Para o João Bituca todo mundo era otário:
- Fulano é otário! Cicrano é otário! Beltrano é otário. O Bolinha é otário! – costumava dizer.
Certo dia, conversando com uma pessoa que há tempos não via, pois não morava mais na cidade, “contou” que todo mundo da cidade era otário, que só tinha “trouxas” e que ele era “o bom”. Esse era o Cláudio do Timbio.
O Cláudio disse para o João:
- É mesmo, aqui só tem otários. Vou levar você comigo para Santos, vamos à praia e ver as mulheres mais lindas do Brasil. A mulherada de biquíni. Você vai deixar os “trouxas” de Tatuí com a boca aberta quando contar o que fará por lá!
- Ê, meu! Não tenho grana! - respondeu João.
- Não precisa de dinheiro. É tudo por minha conta. Você é meu amigo... pode deixar que eu pago o que precisar. - garantiu Cláudio.
- Ah, então vamos sim, estou cheio desta cidade que só tem otários – respondeu João.
E o Cláudio cumpriu o que prometeu. No dia seguinte tomaram um ônibus e foram a São Paulo. De lá pegaram outro para Santos, chegando à tarde desse mesmo dia. Estavam com fome, mas Cláudio foi logo avisando que iriam jantar em um restaurante chique, comer frutos do mar.
Foram a um restaurante elegante à beira-mar. Nesse restaurante todos estavam com roupa social, até mesmo o Cláudio vestia-se adequadamente, mas o pobre João Bituca era uma figura destoante.
- João, você já comeu lagosta?
- Não! – respondeu.
- Então hoje você vai comer coisas que os otários de Tatuí nunca provaram. Lagosta, camarão, polvo, lula... tudo que quiser.
Cláudio chamou o garçom e não economizou. Pediu tudo do bom e do melhor, acompanhado de vinho importado.
Quando chegou o pedido, João nem sabia por onde começar, mesmo porque nem sabia como comer aquilo. Mas buscou encontrar um jeito: observou o que Cláudio fazia para comer, tentou, tentou e acabou comendo mesmo foi com as mãos!
A mesa dos dois estavam maravilhosa, não economizaram em nada. Comeram a valer. Repetiram o vinho duas vezes.
O Cláudio disse para o João:
- Vamos escolher uma sobremesa. Uma refeição completa não pode ficar sem sobremesa.
Chamou o garçom e pediu o menu para escolher.
Escolheu alguma coisa que disse gostar e deu o menu para o João escolher. Quando o João escolhia, o Cláudio disse que viu um conhecido passar na frente do restaurante e avisou ao João que iria chamar a tal pessoa para fazer companhia aos dois.
- Espera um instantinho aqui, João! Eu só vou chamar o meu amigo e já volto. Enquanto espera, peça a sobremesa.
Ah, João Bituca não se fez de rogado. Pediu, com auxílio do garçom, um sorvete especial, já que não entendia nada do menu.
O sorvete demorou um pouco para chegar, mas veio e o Cláudio ainda não havia voltado. João olhava insistentemente para a porta do restaurante, ansioso por ver o companheiro voltar.
Tomou o sorvete olhando para a porta.
Sua figura, destoante, começou a chamar a atenção do pessoal do restaurante. Os seguranças já estavam rodeando, de olho no João. Isto porque havia mais de meia hora que ele estava sozinho. Não tinha mais o que fazer por lá e olhava para a porta sem parar.
O garçom trouxe a conta e apresentou ao João. Ele nem mesmo entendeu direito o valor, porque não poderia imaginar que um jantar pudesse custar tudo aquilo: “Acho que erraram e tem um zero a mais!” – pensou.
Mas não havia erro algum. A conta era alta mesmo. Pudera, lagosta, camarão, lula, polvo, vinho do Porto, não são coisas comuns.
Uma hora inteira já se passara. João levantou-se para olhar fora do restaurante, ver se encontrava o Cláudio. Quando se levantou, os seguranças correram para seu lado.
Quis se aproximar da porta, mas foi abordado pelos seguranças, que ordenaram para ele ir até o caixa, pagar a conta.
João estava desesperado. Não tinha nem um cruzeiro no bolso e o Cláudio demorava demais para voltar!
Demorava e não voltou. O garçom, seguranças e maitre do restaurante já haviam fechado o caminho de saída para o João. Não dava para ele sair fora.
- O Cráudio já vórta pra pagá a conta! – repetia incessantemente.
Chamaram a polícia e levaram o João em um escritório nos fundos do restaurante. Em pouco tempo perceberam que estavam lidando com um otário que havia caído em um conto.
- Não vamos receber o dinheiro. A conta não será paga, porque você é um otário sem dinheiro! – disseram ao João – Mas não pense que vai sair desta com facilidade. Vai em cana!
João saiu algemado e conduzido para a viatura. Levaram para a cadeia e prenderam por 3 dias.
Se em Tatuí as celas ainda não eram superlotadas, em Santos eram terrívelmente lotadas.
Quando soltaram, ainda ficaram com dó dele, fizeram uma “vaquinha” e arranjaram dinheiro para a passagem de volta até Tatuí. Sabiam que, se ele ficasse em Santos, dentro de poucos dias estaria de volta à cadeia, como vítima ou como autor de algum delito.
- Ô otário, vê se aprende agora! – aconselharam na saída.
Quando o João voltou em Tatuí todos já sabiam da história, porque o Cláudio logo depois de sair do restaurante já tomara o ônibus e sumiu de Santos. Contou para todo mundo a maldade que fizera ao pobre do João.
Mas quando se perguntava ao João o que tinha acontecido, ele desconversava e não contava para ninguém. Tentei arrancar dele o final desta história, o que aconteceu direito no restaurante e na cadeia, mas ele dava um jeito de desconversar e não contava. Não faz muito tempo que tentei pela última vez descobrir... poucos meses antes dele falecer. Mas que o que... não contou!
Faleceu há pouco tempo e ganhava a vida como vendedor de bilhetes. Era um vendedor chato e abusado: chegava perto de algum possível freguês e dizia:
- Viado! Viado!
Quando a pessoa, irritada, olhava imediatamente para seu lado, ele mostrava o bilhete do veado:
- Quer comprar o bilhete do viado?
Às vezes se aproximava de uma mulher e dizia:
- Vaca! Vaca!
Essa tal mulher, sentindo-se ultrajada, virava-se para o lado do João, que mostrava um bilhete e dizia:
- Quer comprar o bilhete da vaca?
Isto porque ele, em sua concepção, não era otário... os outros é que eram... achava-se um grande malandro.
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