Alguns tatuianos participaram de aventuras que se tornaram célebres na cidade. Pretende-se juntar aqui os acontecimentos mais comentados para que não sejam esquecidos. Esta primeira fase das "aventuras tatuianas" contempla os casos mais antigos, a maioria deles com 30, 40, 50 ou mais anos. Esta é a história não-oficial de Tatuí!

quinta-feira, julho 06, 2006

O Velho Oeste é aqui!

Acho que este caso cabe muito bem aqui. Aconteceu comigo, pouco tempo depois de ter comprado meu Hyundai. Já faz 10 anos que estou com esse carro.

Certo domingo fui até o bairro de Americana, simplesmente porque não tinha outra coisa a fazer. Eu e a Janete. Em uma das curvas da estrada há um caminho que serve de entrada para algumas chácaras, utilizando o antigo leito da Sorocabana. Havia bem na entrada, um bambuzal que quase fechava tudo, formando uma espécie de túnel.

Sempre que passava por lá, tinha curiosidade de entrar naquele túnel de bambu e conhecer o lugar. Nesse domingo, como não tinha destino certo, resolvi entrar...

Saí da estrada asfaltada e entrei naquela mistura de trilha com estrada, pouco mais largo que uma estrada de ferro. Há diversas chácaras por lá, a maior parte delas de lazer. Um belo local.

Como estava apenas buscando conhecer, continuei seguindo aquela estradinha. Muito estreita, impossível de manobrar. Continuei o passeio até encontrar um lugar para retornar.

Entrei em uma curva. Do lado esquerdo o barranco estava mais alto. Do lado direito o mato crescia ao lado da cerca. De repente, dou de cara com um homem mascarado, com uma pistola automática na mão, escondido em uma moita na beira da estrada.

O olhar do mascarado não era amigável

O homem virou-se para mim... deu para perceber em seu olhar por trás da balaclava, que eu havia interrompido algo importante.

Pensei em voltar, mas era impossível. O caminho estreito demais para manobras. De um lado o barranco era bastante alto, do outro havia cerca de arame farpado. Teria que encontrar mais adiante um local para virar o carro. Engatei a primeira marcha e disse para a Janete segurar-se, pois se precisasse eu iria acelerar para fugir.

E a curva da estradinha, curva de estrada de ferro, ainda não havia terminado. Passei bem ao lado do sujeito mascarado, que nesse momento estava em pé. Alguns metros adiante, vi outro homem armado.

A cada instante a coisa ia piorando!

Desta vez era um barbudo, vestindo uma capa impermeável de cavaleiro (em dia de sol), com chapéu e armado com um rifle semelhante a Winchester.

“Epa! Estou no lugar errado na hora errada!” – pensei. “Devem ser alguns bandidos lutando entre si ou ‘desovando um presunto’”! – conclui.

Estava pronto para acelerar, como única alternativa para escapar daquela situação, quando dou de cara com mais um homem barbudo armado com revólver. Percebi que tinha um revólver na mão e outro no coldre.

O terceiro homem tinha um revólver na mão e outro na cinta

Eram três pessoas armadas naquele local semi-deserto.

Pensava em diversas coisas em frações de segundo... Arrependi-me da idéia de entrar naquele lugar. Como sair dessa situação??? Certamente que aqueles sujeitos não iriam deixar testemunhas de sua ação! Pensei em tudo, nos filhos, na vida, na Janete - coitada, estava ali ao meu lado -, na mãe!!!! Que situação!

Eu estava guiando bem devagar, para sentir as reações dos homens armados. A curva ainda não havia terminado. O barranco impedia enxergar o final da curva. Passei ao lado do barbudo que vestia a capa. Seu rosto demonstrava que ele estava muito contrariado com minha interrupção ali.

Que situação!!!

Olhei para ele. Tive a impressão que estava sujo. Barbudo e sujo. Tinha também um revólver, que guardava no coldre. Este deveria ser o chefe, pois os outros olhavam para ele, esperando alguma atitude dele ou ordem, talvez.

Eu dirigia com todo cuidado. A rotação do motor já estava um pouco mais alta. Os pés preparados para embrear, acelerar... eu ia tentar uma fuga. Esperava apenas uma reação dos homens.

Uns metros adiante, bem no final da curva, percebi mais uma pessoa. Estava bem no meio da estrada. Meu pensamento girava com o dobro da velocidade. Enquanto observava as reações dos outros três, considerei que teria de passar por cima da quarta pessoa. Ele estava impedindo minha passagem.

Este homem trazia algo sobre seus ombros. Uma bazuca? Não! Olhei melhor e reconheci essa pessoa. Tratava-se do professor Pedro Henrique com uma câmera VHS engatilhada.

Rapidamente entendi a situação. Com a redução do nível de adrenalina, foi possível reconhecer o barbudo. Aliás, barba postiça. Era o Expedito de Lima, carpinteiro, eletricista, quebra-galhos, ator, cineasta, produtor e diretor tatuiano. Fez dezenas de filmes. Quase todos eram faroestes. Lembro-me do título de um deles: “A Víbora Humana”. A atriz principal foi sua namorada.

Os outros eu não reconheci. O que dificultou um pouco para perceber que era o Expedito foi o inesperado. Quem poderia imaginar encontrar um bando de homens armados, fingindo, ou melhor, representando bandidos?

Expedito, como sempre, era o mocinho. Mas com sua fisionomia de caboclo, mais parecia um bandoleiro mexicano. Pensando bem, o filme poderia não ser faroeste, porque o mascarado usava uma pistola automática, parecida com aquela que o Fantasma do gibi usa!!!

Para dar impressão de veracidade, creio que ele havia rolado na poeira, sujando-se, pois estava imundo. Pensando bem, todos os integrantes do “cast” de Expedito, incluindo ele próprio, só poderiam fazer papel de bandidos... ninguém tinha cara de mocinho!

Nenhum dos três tinha cara de mocinho... pela aparência pareciam ser bandidos!

Pedro Henrique é um dos maiores cinéfilos tatuianos. Ele gostava tanto de cinema que trabalhou durante longos anos operando o projetor do Cine São Martinho. Tenho a impressão que nem cobrava pelo seu serviço!!! Depois do fechamento dos cinemas e com o aparecimento da filmadora VHS, passou a filmar, sempre que possível, alguns dos principais eventos de Tatuí.

Andei mais alguns metros e encontrei um lugar para manobrar o carro. Ufa! A sensação de alívio era enorme. Pudera, havia saído daquilo que parecia ser o próprio inferno.

Quem poderia imaginar que aquele local isolado havia sido transformado em cenário de filme de faroeste?

Algum tempo depois o tal filme foi apresentado em sessão organizada lá no barracão do Dedé. Não deu certo para eu ir assistir, mas ainda quero ver o danado...

Expedito sentia-se como John Wayne atuando, ao mesmo tempo em que era John Ford dirigindo...

Expedito fez inúmeros filmes e fotonovelas. Fotos preto e branco, coloridas... filmes Super-8, VHS... Tudo correndo por sua conta e risco. Não há investidores disponíveis. Tudo é difícil. Se fosse aos Estados Unidos, alguém iria financiar o Expedito que, certamente, estaria realizando filmes com equipamentos adequados e, provavelmente, fazendo sucesso. Mas aqui... Não tem futuro. Coisas do Brasil.

sábado, julho 01, 2006

Chico Sonho, o matador

Tatuí já foi famosa como terra de gente brava. Até Dioguinho (Diogo da Rocha Figueira ou Diogo da Silva Rocha), um bandido que, com seus capangas, assolava o interior paulista, matando a soldo dos barões do café, finalizou sua carreira aqui, morto por Chico Sonho, em uma tocaia bem no começo da subida no Morro Grande.

A morte de Dioguinho gerou inúmeras controvérsias, pois contavam que havia morrido aqui ou ali, mas sempre ressurgia. Em Tatuí, com Chico Sonho, acabou-se o bandido.

Bem, acabou um matador e surgiu outro, pois depois disso, Chico Sonho passou a ser o jagunço preferido dos coronéis e poderosos da época para resolver seus problemas.

Os primeiros da república foram marcados pelo coronelismo, vigorando praticamente durante toda a Republica Velha (1889-1930). A vontade dos coronéis era atendida por bem ou por mal. Na marra! Resumidamente, a situação caracterizava-se pela excessiva concentração de autoridade nas mãos de um único indivíduo, geralmente um fazendeiro próspero, um grande latifundiário. Os jagunços, uma espécie de milícia privada, eram a extensão de seus braços. Os poderosos mandavam e eram impunes. Isso acontecia em todo o país e não seria diferente em Tatuí.

Quando alguém precisava dos “serviços” do Chico Sonho, não adiantava apenas ir encomendar seus “préstimos”. Havia certo ritual. Ele queria conhecer detalhes a respeito de sua vítima, principalmente as coisas que este fez de ruim contra aquele que o contratara.

Em determinada ocasião, um coronel tatuiano precisou de um jagunço. Havia uma pessoa que estava incomodando, atrapalhando os planos do tal coronel. Os jagunços, também, tinham seu “lado”. Fulano só fazia seus “serviços” para determinado lado político. O outro lado tinha os seus próprios jagunços.

Desta vez, o “problema” tinha fotografia. O coronel, ao contratar os serviços do Chico Sonho, teve com ele uma boa conversa, explicando os motivos que o levaram a encomendar sua morte. Depois das explicações, entregou uma fotografia da pessoa a ser morta. Chico Sonho colocou o retrato no bolso e foi-se embora. Combinaram que a tocaia aconteceria no próximo final de semana, ocasião em que a tal pessoa apareceria na cidade.

Na seqüência, Chico Sonho passou aos seus preparativos. Colocou a fotografia do homem perto de sua cama e ficava durante horas olhando para ele. Só para encontrar ele mesmo um motivo para eliminar o cidadão.

Entretanto, talvez avisado da tocaia que lhe estava sendo preparada, a tal pessoa procurou o coronel para conversar. Em pouco tempo chegaram a um acordo, eliminando todos os entraves. A partir desse momento, aquele que gerava o problema tornou-se um aliado do coronel. Não havia mais necessidade dos serviços do jagunço.

O coronel chamou então um mensageiro e enviou-o até o Chico Sonho, para que este não executasse a ordem anterior. Não era mais para matar o tal homem.

Quando o mensageiro chegou ao sítio do Chico Sonho, encontrou-o deitado em uma rede, olhando para o retrato daquele que seria sua vítima enquanto limpava seu fuzil Mauser.

- Boa tarde, nhô Chico! Tenho recado do coronel – disse o mensageiro.

- Entre, cumpadre.... se assente! – respondeu – Que disse o coronel? – perguntou.

- O coronel mandou avisar que não é mais para matar esse fulano. Eles fizeram um acordo. – explicou.

- Ih, agora num dá mais. – disse Chico. – Já garrei reiva dele! Vô matá esse disgraçado! – completou.

Que situação. Em seus preparativos, Chico Sonho ficou olhando para a fotografia do homem durante horas e horas. Ele sempre fazia coisa semelhante, para ficar com raiva da pessoa que iria matar. Agora era tarde, ele queria matar não porque lhe fora encomendado, mas porque ele passou a odiar o indivíduo. E agora??? Será que isso acontecia apenas em Tatuí?

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